COMO UM JOGO CIFRADO DE CONCATENAÇÃO DE MENSAGENS E INSPIRAÇÕES PLURAIS, NOS CAMPOS DE MÚSICA, IMAGEM, PROSA, POESIA, OS CONTEÚDOS DA SESSÃO 'FRAGMENTOS' CONVIDAM O PÚBLICO A VIVENCIAR EXPERIÊNCIAS, REFLEXÕES E SENSAÇÕES EM PAPÉIS, ESPAÇOS E TEMPORALIDADES PLURAIS, PROPORCIONANDO EMOÇÕES E CONTEÚDOS QUE TRANSITAM DOS CAMPOS DE ESTRANHAMENTO E INDIGNAÇÃO PARA A ÓRBITA DO RECONHECIMENTO E DA EMPATIA .
Fragmento
Acabo de soñar. Porque es mi empeño
imaginar que infamias e miserias
fantasmas son de un borrascoso sueño.
No faltará quien diga y apoyado
por la recta razón de que me alejo
que tengo yo un soñar muy dilatado
y a la región de un mundo no probado
arrebatar por mi ilusión me dejo -
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No tengo yo la ley de la medida
ni las sendas hollé de la materia
ni obedecí la historia empobrecida
que hace del mundo miserable feria;
Pero siento otras leyes y otra vida
y no es ley de la vida la miseria!-
ni enseño yo sentencia demostrada,
ni exactas leyes de la ciencia enseño,
Mas huyo horrorizado de la nada
y en la fe de otro ser asegurada
las leyes dejo de este ser, y sueño;
Que tengo para mi que así soñando
mientras otros de mi se van riendo,
ellos detrás de mi se van quedando
y yo la cierta vida voy viviendo.
MARTI, José. Poesia Completa
"A primeira noite em que Lorenzo passou a noite com ele [o telescópio de 25cm. de Luis Enrique Erro], sentiu que havia chegado ao seu lar espiritual: `Já sabe manejá-lo, amigo - disse Erro. - Não se esqueça de esqueça de cobrí-lo e de trancar a porta quando sair.` Sim, aquela imensidão diante dos seus olhos lhe pertencia, correspondia à que ele trazia dentro de si. Como dentro de seu corpo, milhões de criaturas se mexiam sem parar, teciam uma rede de circuitos que mantinham sua vida sobre a Terra. O silêncio vinha das estrelas. Onde estou? Lorenzo respirou fundo. E se ao fechar a pequena cúpula ninguém mais vivesse, somente as estrelas, como era seu desejo? Na escala cósmica, na abóboda celeste, os objetos luminosos fotografados, que examinaria no dias seguinte ao microscópio, era um corpo que pulsava como ele. As partículas tinham radiação, energia, magnetismo. Lorenzo dirigiu o telescópio para Órion e só parou de observar quando avistou a luz da aurora. Enquanto cobria amorosamente o Zeiss, foi invadido por uma imensa gratidão por Luís Enrique Erro e por essa noite." (A pele do céu, Elena Poniatowska)
Somewhere only we know, Keane
"Jack! Quando uma criança pergunta alguma coisa, você precisa responder, pelo amor de Deus. Mas sem exagerar. Crianças são crianças, mas elas percebem uma evasiva mais rápido que os adultos e ficam confusas. Hoje à tarde você deu a resposta certa – avaliou meu pai - , mas pelas razões erradas. Falar palavrões é uma fase pela qual todas as crianças passam, e com o o tempo desaparece, quando elas percebem que não estão conseguindo chamar a atenção. Já o pavio curto é outra coisa. Scout precisa aprender a se controlar, e precisa aprender logo, considerando que vai enfrentar nos próximos meses. Mas ela tem se esforçado. Jem está amadurecendo e ela segue bastante o exemplo dele. Às vezes só precisa de um pouco de ajuda.
- Átticus, você nunca bateu nela – lembrou tio Jack.
- É verdade. Até agora, só precisei ameaçar. Mas Scout me obedece como pode. Não faz exatamente o que deveria, mas tenta.
- Essa não é a questão – disse tio Jack.
- Não, a questão é que ela sabe que eu sei que ela tenta. E é isso que importa. O que me preocupa é que ela e o Jem vão ter que lidar com muitas coisas ruins em breve. Não me preocupo com Jem, ele sabe se controlar, mas Scout pode pular no pescoço de alguém se achar que sua honra foi atacada...
Pensei que tio Jack ia quebrar a promessa que tinha feito. Mas ele não disse nada.
- Atticus, quão ruim é esse caso? Ainda não tivemos oportunidade de falar sobre isso.
- Não poderia ser pior, Jack. Só temos a palavra de um negro contra a dos Ewell. As provas se resumem a ‘você fez’ contra ‘não fiz’. O júri certamente não vai aceitar a palavra de Tom Robinson contra a dos Ewell. Sabe quem são eles?
Tio Jack disse que sim, que se lembrava deles. Descreveu-os para Atticus, que disse:
- Você está atrasado uma geração. Mas eles continuam os mesmos.
- Então o que você vai fazer?
- Antes de terminar a defesa, pretendo sacudir um pouco o júri... Mas acho que temos uma boa chance de apelação. A essa altura, não sei, Jack. Gostaria de nunca enfrentar um caso assim na vida, mas John Taylor apontou o dedo para mim e disse: ‘Você vai fazer a defesa.’
- Você preferia não ter que fazer isso, não é?
- É.
Mas depois não teria coragem de encarar os meus filhos. Você sabe o que vai acontecer tanto quanto eu, e espero que Jem e Scout passem por isso sem sofrimento e principalmente sem pegar essa doença tão comum em Maycomb. Como pessoas razoáveis ficam possessas quando se trata de qualquer coisa relacionada com um negro eu nunca vou entender... Só espero que Jem e Scout venham me procurar quando quiserem respostas em vez de ficarem dando ouvidos ao que se fala pela cidade. E que confiem em mim... Jean Louise?
Meus cabelos ficaram em pé. Enfiei a cabeça na porta.
- Sim?
- Vá dormir.
Corri para o meu quarto e deitei na cama. Tio Jack tinha sido um cavalheiro por não me desapontar. Mas nunca descobri como Atticus sabia que eu estava escutando, e só muitos anos depois compreendi que ele queria que eu ouvisse cada palavra". (O Sol é para todos, Harper Lee)
Revolta do oprimido
"Fazia um grande silêncio nas ruas; ao longe ladrava tristemente um cão, e, de vez em quando, ouviam-se ecos de uma música distante. E Raimundo ali, no desconforto do seu quarto, sentia-se mais só do que nunca; sentia-se estrangeiro na sua própria terra, desprezado e perseguido ao mesmo tempo. 'E tudo, por quê?...' - pensava ele - 'porque sucedera sua mãe não ser branca!... Mas do que servira então ter-se instruído e educado com tanto esmero? Do que servira a sua conduta reta e a inteireza de seu caráter? ... Para que se conservou imaculado?... Para que diabo tivera ele a pretensão de fazer de si um homem útil e sincero? ...' E Raimundo revoltava-se. 'Pois, melhores que fossem as suas intenções, todos ali o evitavam, porque a sua pobre mãe era preta e fora escrava? Mas que culpa tinha ele em não ser branco e não ter nascido livre? Não lhe permitam casar com uma branca? De acordo! Vá que tivessem razão! Mas por que insultá-lo e persegui-lo? Ah! Amaldiçoada fosse aquela maldita raça de contrabandistas que introduziu o africano no Brasil! Maldita! Mil vezes maldita!' Com ele quantos desgraçados não sofriam o mesmo desespero e a mesma humilhação sem remédio? E quantos outros não gemiam no tronco, debaixo do relho? E lembrar-se de que ainda havia surras e assassínios irresponsáveis tanto nas fazendas como nas capitais!... Lembrar-se de que ainda nasciam cativos porque muitos fazendeiros, apalavrados com o vigário da freguesia, batizavam ingênuos como nascidos antes da lei do ventre livre!... Lembrar-se de que a consequência de tanta perversidade seria uma geração de infelizes, que teriam de passar por aquele inferno em que ele agora se debatia vencido! E ainda que o governo tinha escrúpulo de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente que o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e revendido em primeira mão ou em segunda, ou em milésima, deixasse por isso de ser um roubo para ser uma propriedade!" (O mulato, Aluisio de Azevedo)
“Agora, também a sra. Boothby [personagem de família branca dona de restaurante e estabelecimento de hospedagem na África do Sul durante a 2a Guerra], que
não era absolutamente a agressora precisando de um agressor ainda mais forte.
Tampouco lhe faltava sensibilidade quanto a se tornar uma intrusa. E
entretanto, mesmo após já ter decerto compreendido, com os nervos, se não com a
inteligência – pois não era uma mulher inteligente – que estava sendo agredida,
voltava repetidas vezes, querendo mais. (...)
Aquela noite, Paul [personagem
britânico comunista das Forças Armadas em missão na África do Sul durante a 2ª Guerra
Mundial] quase imediatamente começou com uma de suas brincadeiras favoritas –
parodiar os clichês da colônia, até a pessoa da colônia em questão chegar a
perecer que ele ou ela estava sendo ridicularizado. E Willy aderiu.
- Seu cozinheiro, é claro, está com
a senhora há anos ... quer um cigarro?
- Obrigada, meu caro, mas não fumo.
Sim, ele é um bom rapaz, preciso reconhecer isso, sempre foi muito leal.
- Ele quase faz parte da família,
não é mesmo?
- Sim, é como eu o considero. E ele
gosta muito de nós, tenho certeza. Sempre o tratamos de maneira correta.
- Talvez não tanto quanto um amigo,
mas como um filho? Foi Willii quem falou. – Porque eles não passam de crianças
grandes.
- Sim, isso é verdade. São apenas
crianças, quando chegamos a entender sua maneira de ser. Eles gostam de ser
tratados como tratamos uma criança: com firmeza, mas de maneira correta. O sr.
Boothby e eu acreditamos que devemos tratar os negros de maneira justa. Não
estamos fazendo favor nenhum.
- Mas, por outro lado, a senhora
não deve deixar que se aproveitem da senhora – disse Paul. – Porque se deixar,
eles perdem todo o respeito.
- Fico satisfeita de ouvir você
dizer isso, Paul, porque a maioria dos rapazes ingleses tem todo tipo de ideias
fantasiosas a respeito dos cafres. Mas é verdade. Eles precisam saber que
existe um alinha que jamais devem atravessar.
E assim por diante.
Só quando Paul disse (ele estava sentado
em sua pose favorita: com o caneco de cerveja erguido, os olhos azuis
vitoriosamente fixos nos dela): - E, claro, existem séculos de evolução entre
eles e nós, eles não passam de gorilas, na verdade - , ela corou e olhou para
outro lado. Gorilas era uma palavra já crua demais para a colônia, embora
apenas cinco anos antes fosse aceitável, e até mesmo nos editorias dos jornais.
(Exatamente como a a palavra cafres iria tornar-se, por sua vez, demasiado crua,
dentro de dez anos) A sra. Boothby não podia acreditar que ‘um rapa educado,
de uma das melhores universidades inglesas’, usasse a palavra gorila. Mas,
quando ela olhou novamente para Paul, com seu honesto rosto vermelho preparado
para ser ferido, lá estava ele sentado com seu sorriso angelical, tão
encantadoramente atento como há um mês, quando era, sem dúvida, apenas um
garoto com saudade de casa, alegre por receber um pouco de carinho maternal.
Ela suspirou bruscamente e levantou-se, dizendo com polidez.
- E agora vão me desculpar, mas vou
preparar a janta do velho. O sr. Boothby gosta de uma merenda, mais tarde...
nunca tem tempo para seu jantar, fica servindo no bar a noite toda.
Ela nos desejou boa noite, fazendo
em Willi, depois em Paul uma inspeção demorada, um tanto magoada, séria.
Deixou-nos.
Paul atirou a cabeça para trás, riu
e disse:
- São incríveis, fantásticos, simplesmente
não existem.
- Aborígines – disse Willi, rindo.
Aborígines era a palavra que usava para a gente da colônia.
Maryrose disse tranquilamente.
- Não sei de que adianta isso, Paul. Simplesmente gozando as pessoas.
- Querida Maryrose. Querida e linda
Maryrose – disse Paul, rindo entre dentes para dentro de sua cerveja.” (O
carnê dourado, Doris Lessing)
E Ioni
O Coro ia avante, na cantiga e na dança.
E Ioni ô imalé xê.
Tem encantamento hoje, diziam, hoje tem encantamento. A corte de Oxalá, tema escolhido para o préstito, obteve tal sucesso que já no ano seguinte o Afoxé dos Pândegos da África juntava-se à Embaixada, fundado e dirigido por uma gente de nação angola, com sede em Santo Antônio do Carmo. Mais um ano e eram cinco a entoar o canto dos negros e mulatos, até então reduzidos ao esconso das macumbas - o samba nas ruas foi de todos.
Tão de agrado de todos esse canto dos negros, esse samba de roda, a dança, o batuque, o sortilégio dos afoxés - que outro jeito senão proibí-los?
As gazetas protestavam contra o 'modo por que se tem africanizado, entre nós, a festa do Carnaval, essa grande festa de civilização'. Durante os primeiros anos do novo século, a campanha de imprensa contra os afoxés cresceu violenta e sistemática a cada sucesso dos 'cordões dos africanos' e a cada fracasso das grandes sociedades carnavalescas - com a Grécia antiga, com Luís XV, com Catarina de Médicis - , ai-jesus dos senhores do comércio, dos doutores, dos ricos. 'A autoridade deveria proibir esses batuques e candomblés, que, em grande quantidade, alastram as ruas nesses dias, produzindo essa enorme barulhada, sem som nem som, como se estivéssemos na Quinta das Beatas ou no Engenho Velho, assim como essa mascarada vestida de saia e torço, entoando o abominável samba, pois que tudo é isso incompatível com o nosso estado de civilização', bradava o Jornal de Notícias, poderoso órgão das classes conservadoras.
Alastravam as ruas os afoxés, a corromper, a envilecer. O povo, nos requebros do samba, já não tinha olhos nem admiração para os carros alegóricos das Grandes Sociedades, para seus temas da corte da França, distante o tempo 'quando o entusiasmo explodia à passagem dos clubes vitoriosos, monopolizando todas as atenções'. O editorialista exigia providências radicais: 'O que será do Carnaval de 1902, se a polícia não providenciar para que nossas ruas não apresentem o aspecto desses terreiros onde o fetichismo impera com seu cortejo de ogãs e sua orquestra de ganzás e pandeiros?'. Os afoxés na praça e na rua, em primazia; cada qual mais triunfal e rico em cores e melodias, em passos de samba - em frente ao Politeama, no Campo Grande, na rua de Baixo, no largo do Teatro. Obtinham triunfo e mais triunfo, aplausos, palmas e até prêmios. Alastravam as ruas, afoxés e samba, uma epidemia. Só um remédio drástico." (Tenda dos Milagres, Jorge Amado)
Miséria feminina
[ERA UMA VEZ TRÊS IRMÃS: MARIA, LÚCIA, (...)]
Mis deberes caminan con mi canto:
soy y no soy: és ese mi destino.
No soy sino acompaño a los dolores
de los que sufren: son dolores míos.
Porque no puedo ser sin ser de todos,
de todos los callados y oprimidos,
vengo del pueblo y canto para el pueblo:
mi poesía es cántico y castigo.
Me dicen: perteneces a la sombra.
Tal vez, tal vez, pero a la luz camino.
Soy el hombre del pan y del pecado
y no me encontrarán entre los libros,
sino con las mujeres y los hombres:
ellos me han enseñado el infinito.
Pablo Neruda
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| Sob o cinza. Autoria própria.. |
Ruína do algoz
"Pensar, capitán Montes, capitancito, que podías haber seguido durmiendo la siesta, y en ese caso aún no habrías enfrentado [quizás tendrías que enfrentarla mañana, aunque nunca se sabe cómo funcionan en los chicos las claves del olvido] la pregunta que en este instante te formula tu hijo, sentado frente a vos en la silla negra: ‘Pa, ¿Es cierto que vos torturás?’ Y tampoco te habrías visto obligado, como ahora, después de tragar fuerte, a responder con otra pregunta: ‘¿Y de dónde sacaste eso?’, aun sabiendo de antemano que la respuesta de Jorgito va a ser: ‘Me lo dijeron en la escuela’. Y claro, decís, masticando cada sílaba: ‘No es cierto. No es cierto como te lo dijeron. Pero hijito, tenés que comprender que estamos luchando con gente muy pero muy peligrosa que quiere matar a tu papá, a tu mamá, y a muchas otras personas que vos querés. Y a veces no hay más remedio que asustarlos un poco, para que confiesen las barbaridades que preparan’. Pero el insiste: ‘Está bien, pero vos… ¿torturás?’ Y de pronto te sentís cercado, bloqueado, acalambrado. Sólo atinás a seguir preguntando: ‘¿Pero a que le llamás tortura?’ Jorgito está bien informado para sus ocho años: ‘¿Cómo a qué? Al submarino, pa. Y a la picana, y al telefono’. Por primera vez esas palavras te taladran, te joden. Sentís que te pones rojo, y no tenés modo de evitarlo. Rojo de rabia, rojo de vergüenza." (Con y sin nostalgia, Mário Benedetti)
"Quem pretende restaurar o comunismo não tem cabeça.Quem não sente saudades dele não tem coração." [Vladimir Putin]
Carlos Drummond de Andrade
La maza, Silvio Rodrigues |
O Tribunal
“Na escura prisão de Conciergerie, os que deviam morrer aguardavam se destino. Eram em número igual ao das semanas do ano. Dos vagalhões da cidade para oceano eterno e infinito, cinquenta e duas cabeças rolariam naquela tarde. Antes que esvaziassem suas celas, novos ocupantes eram designados; antes que seu sangue se misturasse ao sangue derramado na véspera, aquele que se misturaria ao deles já estava separado.
Cinquenta e dois condenados. Desde o rendeiro de setenta anos, que as riquezas não lhe podiam comprar a vida, até a costureira de vinte anos, cuja pobreza e obscuridade não a pudessem salvar. As doenças físicas, engendradas nos vícios e negligências dos homens, agarram suas presas em todas as classes sociais. E a temível desordem moral, nascida de um indescritível sofrimento, de uma opressão intolerável e de uma desalmada indiferença, também ceifava, sem fazer distinções de qualquer natureza. Charles Darnay, sozinho em sua cela, deixara de apegar-se a qualquer ilusão desde que saíra do tribunal. Em cada linha da narrativa que ouvira, ouvira sua condenação. Compreendera que nenhuma influência pessoal poderia salvá-lo, que fora virtualmente sentenciado por milhões de votos e que simples unidades nenhum benefício poderiam trazer-lhe.
Contudo, não era fácil, tendo diante dos olhos a imagem de sua amada esposa, convencer seu espírito a resignar-se com o. que deveria suportar. Laços poderosos o prendiam à vida e era muito, muito difícil rompê-los. Quando, por meio de esforços, conseguia aos poucos afrouxá-los, logo sentia-os apertarem-se ainda mais; e quando buscava energia em sua mente para apoiar-se, esta lhe faltava. Além disso, havia um sentimento de urgência em todos os seus pensamentos, uma turbulenta e acalorada batalha travada em seu coração contra o conformismo. Se, por um momento, ele se conformava com a sua sorte, parecia-lhe ouvir os protestos da esposa e da filha, que teriam que sobreviver a ele, recriminando-o pela atitude egoísta.
Esses conflitos, porém, assaltaram-no apenas no início. Não tardou em que a consideração de que não havia desonra no destino que o aguardava, que inúmeras pessoas seguiam o mesmo injusto caminho, trilhando-o com firmeza todos os dias, surgiu para estimulá-lo. Depois, seguiu-se a ideia de que muito da futura paz de espírito de que seus entes queridos desfrutariam dependia de ele demonstrar uma serena Fortitude. Assim, gradualmente, alcançou um estado de bem-vinda tranquilidade, que lhe permitiu elevar os pensamentos e deles extrair conforto.
Antes de se espalharem as trevas da noite de sua condenação, sua mente havia, assim, alçado seu derradeiro vôo. Tendo conseguido comprar papel, pena e tinta, além de uma vela, sentou-se para escrever até a hora em que as luzes da prisão teriam que extinguir-se.
(...)
Darnay teve tempo de terminar as cartas antes do apagar das luzes. Quando se estendeu no catre, refletiu que, para ele, tudo estava acabado neste mundo.
Mundo que, entretanto, acenou-lhe em seu sono, revelando-se nas cores mais brilhantes. Livre e feliz, de volta à velha casa do Soho (embora, no sonho, fosse totalmente diversa da casa real), indescritivelmente aliviado e de coração leve, ele estava novamente com Lucie, que lhe dizia que fora um pesadelo, que ele jamais havia partido. Uma pausa de esquecimento, e então ele foi executado, mas regressou para ela, morto e em paz, sem ter sofrido qualquer mudança. Outra pausa de esquecimento e ele acordou na cela sombria, inconsciente de onde estava e do que acontecera até que a lembrança assoumou-lhe à memória: ‘este é o dia da minha morte!’” [Um conto de duas cidades, Charles Dickens]
para decir: La amo a usted con locura.
para gritar: ¡La quiero tanto!
para llorar acurrucado en su seno.
para sentir, bajo la tierra húmeda de mis jugos,
que me crece una flor rompiéndome el pecho,
una flor, y decir:
Nicolas Guillen
A potência da leitura
“Digo aos estudantes que precisam passar um, dois anos escrevendo teses sobre um livro: ‘Só existe uma forma de ler, que consiste em se estar sempre em bibliotecas e livrarias, escolhendo livros que nos atraiam e lendo apenas esses, pondo-os de lado quando eles entediarem em pulando os trechos arrastados. Nunca, nunca leia nada porque você acha que deve ou porque seja parte de uma tendência ou de um movimento. Lembre-se de que o livro que o chateia quando você tem vinte ou trinta anos lhe abrirá portas quando você estiver com quarenta ou cinquenta anos – e vice-versa. Não leia um livro a não ser que esteja na hora certa. Lembre-se de que, para todos os livros impressos, há igual número que jamais foi impresso, nunca foi escrito. Mesmo hoje, nesta época de reverência compulsória pela palavra escrita, a história – até mesmo a ética social – é ensinada por meio de histórias, e as pessoas que foram condicionadas a pensar apenas em termos do que está escrito – e infelizmente quase todos os produtos de nosso sistema educacional não podem fazer mais do que isso – não percebem o que lhes está diante dos olhos. Por exemplo, a verdadeira história da África continua em poder de narradores negros e homens sábios, historiadores negros e curandeiros: é uma história verbal, ainda a salvo do homem branco e suas incursões predatórias. Em todos os lugares, quando se mantém a mente livre, encontra-se a verdade em palavras não escritas. Portanto, não permita jamais que a página escrita seja o seu senhor. Acima de tudo, você deve saber que o fato de precisar passar um ou dois anos em um livro ou um autor significa que lhe ensinam mal: deveriam ter-lhe ensinado a ler de acordo com sua própria escolha, você deveria estar aprendendo a seguir sua própria intuição sobre aquilo de que precisa: é isso o que você deveria estar desenvolvendo, e não a maneira de citar outras pessoas’.
Infelizmente, porém, quase sempre é tarde demais.
Durante certo tempo pareceu que as recentes rebeliões estudantis iam mudar as coisas, como se a impaciência dos jovens com as coisas mortas que lhes ensinam fosse forte o bastante para substituí-las por algo mais novo e útil. Parece, porém, que a revela terminou. Isso é triste. Durante uma época vibrante nos Estados Unidos, eu recebia cartas com narrativas de como classes de alunos haviam recusado as recomendações de leituras e estavam levando para a aula usas próprias escolhas de leituras, as que lhes haviam julgado importantes para suas vidas. As aulas eram impressionantes, às vezes violentas e tempestuosas, excitantes, vibrantes de vida, estavam preparados para apoiar os alunos contra as autoridades – os que estavam preparados para as consequências. Há professores que sabem que a foram pela qual devem lecionar é inadequada e aborrecida; felizmente ainda existem alguns que derrubam o que está errado, mesmo que os próprios estudantes já tenham perdido o entusiasmo". [Prefácio de O Carnê Dourado, (1971), Doris Lessing]
Salvador Dali...a
Arte visceral
“(...) A princípio pensei que o sorriso que me dirigiu fosse de admiração. Logo me dei conta de que não passava de desprezo. Os poetas mexicanos (suponho que os poetas em geral) detestam que lhes recordem sua ignorância. Mas não me atemorizei e, depois de ele destroçar um para de poemas meus na segunda semana de que participei, eu lhe perguntei se sabia o que era um ‘rispetto’. Álamo pensou que eu lhe exigia ‘respeito’ a meus poemas e desatou a falar da crítica objetiva (para variar) , que é um campo minado por onde se deve transitar todo jovem poeta, etcétera e tal, mas não o deixei prosseguir e, após lhe esclarecer que nunca em minha curta vida eu havia pedido respeito a minhas pobres criações, tornei a formular a pergunta, desta vez tentando pronunciar com a maior clareza possível.
- Não me venha com merda, García Madero – Álamo disse.
- Um ‘rispetto’, querido mestre, é um tipo de poesia lírica, amorosa, para ser mais exato, semelhante ao ‘strambotto’, que tem seis ou oito hendecassílabos, os quatro primeiros em forma de sirvente e os seguintes construídos em parelhas. Por exemplo... – eu já me dispunha a lhe dar um ou dois exemplos, quando Álamo se levantou de um pulo e deu por encerrada a discussão. O que aconteceu em seguida está envolto em brumas (apesar de eu ter boa memória: lembro da risada de Álamo e das risadas dos quatro ou cinco colegas de oficina, possivelmente coroando uma piada às minhas custas.
Outro, em meu lugar, não teria posto novamente os pés ali, mas, apesar de minhas infaustas recordações (ou da ausência de recordações, no caso tão ou mais infausta que a retenção menmotécnica destas), na semana seguinte lá estava eu, pontual como sempre.
Creio que foi o destino que me fez voltar. Era minha quinta sessão na oficina de Álamo (mas pode ter sido a oitava ou a nona, ultimamente notei que o tempo se encolhe ou se estica a seu arbítrio), e a tensão, a corrente alternada da tragédia se sentia no ar, sem que ninguém conseguisse explicar a que isso se devia. Para começar, estávamos todos presentes, os sete aprendizes de poeta inscritos inicialmente, coisa que não havia acontecido nas sessões precedentes. Também: estávamos nervosos. O próprio Álamo, normalmente tranquilo, mal se aguentava. Por um momento pensei que talvez houvesse acontecido algo na universidade, uma fuzilaria no campus de que não estivesse a par, uma greve surpresa, o assassinato do decano da faculdade, o sequestro de um professor de Filosofia ou algo do gênero. Mas nada disso havia acontecido, e a verdade era que ninguém tinha motivos para ficar nervoso. Pelo menos objetivamente, ninguém tinha motivos. Mas a poesia (a verdadeira poesia) é assim: ela se deixa pressentir, se anuncia no ar, como os terremotos que, segundo dizem, alguns animais especialmente aptos a tal propósito pressentem. (Esses animais são as cobras, as minhocas, os ratos e certos pássaros.) O que aconteceu em seguida foi tumultuado mas dotado de algo que, mesmo correndo o risco de ser cafona, eu me atreveria a chamar de maravilhoso. Chegaram os dois poetas real-visceralistas, e, a contragosto, Álamo os apresentou a nós, embora só conhecesse pessoalmente um deles; o outro conhecia de ouvir falar, ou seu nome não lhe era estranho, ou alguém lhe havia falado dele, mas mesmo assim o apresentou.
Não sei o que eles teriam ido fazer lá. A visita parecia claramente de natureza beligerante, embora não isenta de um matiz propagandístico e proselitista. A princípio, os real-visceralistas se mantiveram calados ou discretos. Álamo, por sua vez, adotou uma postura diplomática, levemente irônica, de esperar os acontecimentos, mas, pouco a pouco, ante a timidez dos estranhos, foi se encorajando, e ao cabo de meia hora a oficina já era a mesma de sempre. Então começou a batalha. Os real-visceralistas puseram em dúvida o sistema crítico que Álamo adotava; este, por sua vez, chamou os real-visceralistas de surrealistas de araque e de falsos marxistas, sendo apoiado no debate por cinco membros da oficina, ou seja, por todos menos por um cara muito magro, que andava sempre com um livro de Lewis Carroll debaixo do braço e quase nunca falava, e por mim, atitude que com toda franqueza me deixou surpreso, pois os que apoiavam Álamo com todo rancor eram os mesmos que recebiam com atitude estóica suas críticas implacáveis e que agora se revelavam (o que me pareceu surpreendente) seus mais fieis defensores. Nesse momento decidi pôr meu grão de areia e acusei Álamo de não ter ideia do que era um ‘rispetto’; intrepidamente, os real-visceralistas reconheceram que eles também não sabiam o que era isso, mas minha observação lhes pareceu pertinente e assim afirmaram; um deles me perguntou que idade eu tinha, eu disse que tinha dezessete anos e tentei explicar mais uma vez o que era um ‘rispetto’. Álamo estava rubro de raiva; os membros da oficina me acusaram de pedante (um disse que isso não passava de um academicismo meu); os real-visceralistas me defenderam; já embalado, perguntei a Álamo e à oficina em geral se pelo menos lembravam o que era um nicárqueo ou um tetrástico. E ninguém soube me responder.
A discussão não acabou, contrariamente ao que eu esperava, num quebra-pau generalizado. Sou obrigado a reconhecer que eu teria adorado. E, embora um dos membros da oficina tenha prometido a Ulisses Lima que um dia iria quebrar a cara dele, no final não aconteceu nada, quer dizer, nada violento, ainda que eu tenha reagido à ameaça (que, repito, não foi dirigida a mim) garantindo ao ameaçador que eu me punha à sua inteira disposição em qualquer canto do campus, no dia e na hora que ele quisesse.
O fim do sarau foi surpreendente. Álamo desafiou Ulisses Lima a ler um de seus poemas. Este não se fez de rogado e tirrou do bolso do blusão uns papeis sujos e amarfanhados. Cacete, pensei, esse panaca se meteu sozinho na boca do lobo. Creio que fechei os olhos de pura vergonha por ele. Há momentos para recitar poesias e há momentos para boxear. Para mim, aquele era um destes últimos. Fechei os olhos, como já disse, e ouvi Lima pigarrear. Ouvi o silêncio (se isso é possível, embora eu duvide) um tanto incômodo que foi fazendo à sua volta. E finalmente escutei sua voz, que lia o melhor poema que jamais havia ouvido”. (Os detetives selvagens, Roberto Bolaño)
Maturidade
Aprendizado da arte
“- Não é obrigação do educador de homens preservá-los do erro, mas sim orientar o errado; e mais, a sabedoria dos mestres está em deixar que o errado sirva de taças repletas seu erro. Quem só saboreia parcamente seu erro, nele se mantém por muito tempo, alegra-se dele como de uma felicidade rara; mas quem o esgota por completo, deve reconhece-lo como erro, conquanto não seja demente.
Cerrou-se novamente a cortina, e Wilhelm teve tempo para refletir: ‘De que outro erro esse homem poderá estar falando’, disse a si mesmo, ‘senão daquele que me perseguiu ao longo de toda minha vida, que me fazia buscar formação ali onde não havia nenhuma e imaginar que podia adquirir um talento para o qual não tinha a menor disposição?’.
A cortina se abriu bruscamente, agora com maior rapidez, e um oficial se aproximou, dizendo como de passagem:
- Aprenda a conhecer os homens nos quais pode confiar!
Cerrou-se a cortina, e Wilhelm não precisou refletir muito tempo para reconhecer naquele oficial o homem que lhe abraçara no parque do conde e que fora culpado por haver ele considerado Jarno um recrutador. Como chegara ali e quem poderia ser, era para Wilhelm um total enigma.
-Se tantos homens se interessavam por ti, se conheciam o curso da tua vida e sabiam o que te era conveniente fazer, por que não te guiaram de um modo mais rigoroso, mais sério? Por que favoreciam teus jogos, ao invés de te afastarem deles?
- Não discutas conosco! – clamou uma voz. – Estás salvo e a caminho de tua meta. Não te arrependerás de nenhuma de tuas loucuras, tampouco sentirás falta delas; não pode haver para um homem destino mais venturoso.
Abriu-se de par a par a cortina e o velho rei da Dinamarca, com todas as suas armas, adentrou o recinto.
- Sou o espírito de teu pai – disse a imagem – e me despeço consolado, pois meus desejos por ti se cumpriram, mais do que me foi dado compreendê-los. Regiões íngremes só podem ser escaladas por atalhos; na planície, caminhos retos conduzem de um lugar a outro. Adeus, e pensa em mim quando estiveres desfrutando o que te preparei.
Wilhelm estava profundamente impressionado; acreditava ouvir a voz de seu pai e, no entanto, não era ela; através da presença e da lembrança ele se encontrava num estado de tremenda confusão.
Não pôde refletir por muito tempo, pois nesse momento entrou o abade e colocou-se atrás da mesa verde.
- Aproxime-se! – ordenou a seu atônito amigo.
Ele se aproximou e subiu os degraus. Sobre o tapete havia um pequeno rolo.
- Aí está sua carta de aprendizado – disse o abade. – Tome-a e peito, pois seu conteúdo é importante.
Wilhelm apanhou-a, abriu-a e leu.
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Carta de Aprendizado
‘Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião. Agir é fácil, difícil é pensar; incômodo é agir de acordo com o pensamento. Todo começo é claro, os umbrais são o lugar da esperança. O jovem se assombra, a impressão o determina, ele aprende brincando, o sério o surpreende. A imitação nos é inata, mas o que se deve imitar não é fácil de reconhecer. Raras as vezes em que se encontra o excelente, mais raro ainda apreciá-lo. Atraem-nos a altura, não os degraus; com os olhos fixos no pico caminhamos de bom grado pela planície. Só uma parte da arte pode ser ensinada, e o artista a necessita por inteiro. Quem a conhece pela metade, engana-se sempre e fala muito; quem a possui por inteiro, só pode agir, fala pouco ou tardiamente. Aqueles não têm segredo nem força; seu ensinamento é como pão cozido, que tem sabor e sacia por um dia apenas; mas não se pode semear a farinha, e as sementes não devem ser moídas. As palavras são boas, mas não o melhor. O melhor não se manifesta pelas palavras. O espírito, pelo qual agimos, é o que há de mais elevado. Só o espírito compreende e representa a ação. Ninguém sabe o que ele faz quando age com justiça; mas do injusto temos sempre consciência. Quem só atua por símbolos é um pedante, um hipócrita ou um embusteiro. Estes são numerosos e se sentem bem juntos. Sua verborragia afasta o discípulo, e sua pertinaz mediocridade inquieta os melhores. O ensinamento do verdadeiro artista abre o espírito, pois onde faltam as palavras, falta a ação. O verdadeiro discípulo aprende a desenvolver do conhecido o desconhecido e aproxima-se do mestre’.” [Os anos de aprendizado de Wilhelm Meinster , Johann Wolfgang Goethe]
Sessão de análise
"(...) Pois embora na vida coisas como ir ao banheiro ou trocar um tampão quando se está menstruada sejam tratadas em nível quase inconsciente, sou capaz de recordar todas as minúcias de um dia de dois anos atrás porque me lembro de que Molly tinha sangue na saia e precisei preveni-la para que subisse e trocasse de roupa antes que o filho chegasse.
Evidentemente, isso não tem nada a ver com um problema literário; é o mesmo que a ‘experiência’ com [a psicanalista] Mamãe Doçura. Lembro-me de lhe haver dito que, na maior parte das vezes em que estávamos juntas, sua tarefa era fazer-me consciente ou tornar-me preocupada com fatos físicos que passamos a infância aprendendo a ignorar de forma a poder viver. Ela então deu a a resposta óbvia: que o ‘aprendizado’ na infância era errado, pois, se não o fosse, eu não precisaria sentar-me em frente dela três vezes por semana pedindo-lhe para que me ajudasse. Eu então repliquei, sabendo que não receberia resposta ou, pelo menos , não no nível que eu desejava, pois sabia que o que eu estava dizendo era a ‘intelectualização’ à qual ela atribuía meus problemas emocionais.
- Parece-me que ser analisada é essencialmente um processo no qual a pessoa é levada a voltar à infância e é depois salva desse período pela cristalização do que se aprende numa espécie de privitivismo intelectual; a pessoa é forçada a se engajar no mito, no folclore e em tudo o que pertence Às etapas selvagens ou subdesenvolvidas da sociedade. Pois se eu lhe digo que reconheço num sonho tal e tal mito, ou numa emoção a respeito de meu pai um conto popular, ou que o ambiente de uma lembrança é o mesmo de uma balada inglesa, você sorri e fica satisfeita. No que lhe diz respeito, eu ultrapassei a infância, eu a transmudei e salvei ao incorporá-la num mito. Na verdade, porém, tudo o que faço, ou você faz, é esquadrinhar as lembranças infantis de uma pessoa e fundi-las com a arte ou as ideias que pertencem à infância de um povo.
A essa altura, ela evidentemente sorriu e eu disse:
- Estou usando suas próprias armas contra você. Não me refiro ao que você diz, mas a como você reage. Porque os momentos em que você fica realmente contente e animada, os momentos em que seu rosto vibra são aqueles em que digo que o sonho que tive na véspera era do mesmo material da história de Hans Andersen sobre a Pequena Sereia. Mas quando tento usar uma experiência, uma lembrança ou um sonho em termos modernos, quando tento comentá-lo critica ou aridamente ou com complexidade, você se chateia ou se impacienta. Portanto, deduzo que o que realmente a satisfaz, o que realmente a emociona é o mundo do primitivo. Você se dá conta de que eu nunca, nem mesmo uma vez, falei de uma experiência que tive, ou de um sonho, da maneira que alguém falaria a uma amiga, ou da maneira que você mesma falaria sobre ele, fora desta sala, a uma amiga, sem que você fechasse a cara? Tenho certeza de que o cenho franzido e a impaciência são algo que você nem percebe. Ou você vai dizer que a testa franzida é proposital, porque você acha que não estou pronta para progredir para fora do mundo do mito?
- E daí? – indagou ela, sorrindo.
Digo:
- Muito bem: você sorriria assim se eu estivesse conversando com você numa sala de visitas. Eu sei que você vai dizer que não estamos numa sala de visitas, e que estou aqui porque tenho problemas.
- E daí? – repete ela, sorrindo.
- Vou afirmar o óbvio: que talvez a palavra neurótico signifique a condição de ser altamente consciente e desenvolvido. A essência da neurose é o conflito. Porém, a essência de viver plenamente, sem bloquear o que acontece, é o conflito. Na verdade, já cheguei ao estágio em que olho as pessoas e digo: ele ou ela é inteiro porque escolheu o bloqueio nessa ou naquela fase. As pessoas continuam mentalmente sãs porque se utilizam do bloqueio do autolimite.
- Você direita que melhorou ou piorou em sua experiência comigo?
- Mas agora você está de volta a esta sala. É evidente que melhorei. Mas esse é o termo clínico. Temo estar melhor ao custo de viver dentro de mitos e sonhos. A psicanálise é boa ou má quando é capaz ou não de fazer melhores seres humanos, moralmente melhores, não clinicamente mais saudáveis. O que você está me perguntando é: eu hoje sou capaz de viver mais facilmente do que antes? Estarei menos em conflito e em dúvida, em suma, menos neurótica? Você sabe que sim.
Lembro-me que ela estava sentada À minha frente, uma mulher atenta e vigorosa, com um traje eficiente de blusa e saia, cabelo branco puxado para trás num nó apressado, testa franzida para mim. Gostei da testa franzida; por um instante estávamos fora do relacionamento analista-paciente” (O Carnê Dourado, Doris Lessing)
Lullabye, Billy Joel
Gratidão e saudade
“-Veja a posição que ocupa aos setenta e oito anos. Quantos sentirão a sua falta quando a deixar vaga?
- Ora, um velho e solitário solteirão – retrucou o senhor Lorry, sacudindo a cabeça. – Ninguém chorará por mim.
- Como pode afirmar isso? Ela não choraria pelo senhor? E também a filha?
- Sim, sim, graças a Deus. Eu realmente não quis dizer isso.
- Tem motivos para agradecer a Deus, não acha?
- Certamente, certamente.
- Se o senhor pudesse confessar esta noite, com toda a sinceridade, para o seu próprio coração: ‘não conquistei o amor, nem o apreço, nem a gratidão ou o respeito de ninguém neste mundo; não granjeei a estima ou o carinho de ninguém; nada fiz de bom ou de útil para ser lembrado por quem quer que seja!’, os seus setenta e oito anos equivaleriam a setenta e oito maldições'. Não é?
- É verdade, senhor Carton. Julgo que seria assim.
Sydney tornou os olhos para o fogo e, após uma pausa, indagou:
- Gostaria de perguntar-lhe... sua infância parece muito distante? Os dias em que o senhor se sentava no colo de sua mãe lhe parecem muito longínquos?
Sensível à suavidade de seus modos, o senhor Lorry respondeu:
- Há vinte anos, sim. Nesta época e minha vida, não. Quanto mais me aproximo do fim, como se andasse em círculo, chego cada vez mais perto do início. Deve ser uma forma de abrandar e preparar o caminho. Meu coração, agora, comove-se com muitas lembranças que havia muito estavam adormecidas... lembranças de minha mãe, linda e jovem (e eu tão velho), e, por meio de uma série de associações, recordo os dias quando o que chamamos de ‘mundo’ ainda não era tão real para mim, e minhas falhas ainda não se haviam cristalizado em meu caráter.” [Um conto de duas cidades, Charles Dickens]
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| Parque de la Memória, Buenos Aires. Foto: Otávio D. S. Ferreira. |
Felicidade
“(...) Terminada a corrida – em último lugar que seja - , Felipe faz a festa do vencedor, levantando os braços, feliz da vida: é o Campeão. Nas primeiras vezes, o pai tenta lhe explicar, paciente: Filho, você tirou quarto lugar; veja, são seis raias; só o primeiro é o campeão – mas na metade da explicação o ridículo daquilo vai contaminando a voz. Se o filho não consegue contar até dez (a rigor, não conta conscientemente até cinco – apenas repete nomes decorados, às vezes acertando a sequência), que sentido tem para ele ‘quarto lugar’? Trata-se apenas de um jogo, ou, antes ainda, trata-se da encenação de um jogo, no qual o filho reproduz o que se espera dele. – nadar daqui até ali – e o mundo lhe dará a taça de campeão. Não é assim? Se ele nadou o percurso, por que não?, perguntaria o filho, se todo o meandro dessa lógica absurda e alucinada tivesse a mais remota ligação com a cabeça de seu filho, osmose pura com o instante presente. Olhe bem para o filho, ambos impregnados daquela agitação fantasmagórica do ginásio, em que todos parecem ter o que fazer a cada instante, naquela sequência de competições com nomes repetidos em alto-falantes que chegam a ensurdecer, reverberantes: Foi legal a corrida, filho? A criança sorri: Olhe! Olhe! Sou Campeão! E mostra os braços e os bíceps ainda pingando a água da piscina, como se a competição fosse de luta livre. Eu sou forte! – completa, feliz, olhos pregados no desenho animado ou as mãos entretidas no jogo de montar, balbuciando alguma história em torno de seu inexpugnável silêncio.
A felicidade. Sempre sentiu medo dessa palavra, que lhe soa arrogante, quando levada a sério; quando usada ao acaso, gastou-se completamente pelo uso e não corresponde mais a coisa alguma, além de um anúncio de tevê ou de uma foto de calendário. O pai, entretanto, é movido a alegria, um sentimento fácil na sua alma – tanto que às vezes se pergunta se o idiota não seria ele, não o filho, por usar tão mal suas habilidades e competências, em favor das miudezas. Para manter a alegria, entretanto, é preciso desenvolver algumas técnicas de ocultação da realidade, ou morreríamos todos.” ( O filho eterno, Cristóvão Tezza)
sucumbindo-a sob tuas tranças grisalhas?
por algum capricho sublime.
serenam rebanhos e gélidas cascatas.
no vale fundo, o espelho do céu.
E as engole sob a surda sinfonia da finitude.
Otávio Dias de Souza Ferreira























