domingo, 11 de setembro de 2011

O teatro do bem e do mal


Em nome do Bem contra o Mal, em nome da Verdade Única, todos resolvem tudo, matando primeiro e perguntando depois. E por esse caminho, terminam alimentando o inimigo que combatem.

Eduardo Galeano

Na luta do Bem contra o Mal, sempre é o povo quem dá os mortos.
Os terroristas mataram trabalhadores de cinqüenta países, em Nova York e Washington, em nome do Bem contra o Mal. E em nome do Bem contra o Mal o presidente Bush jura vingança: "Vamos eliminar o Mal deste mundo", anuncia.
Eliminar o Mal? Que seria do Bem sem o Mal? Não só os fanáticos religiosos necessitam de inimigos para justificar sua loucura. Também necessitam de inimigos para justificar sua existência, a indústria de armamentos e o gigantesco aparato militar dos EUA. Bons e maus, maus e bons: os atores mudam de máscaras, os heróis passam a ser monstros e os monstros heróis, segundo exigem os que escrevem o drama.
Isso não tem nada de novo. O cientista Werner von Braun foi mau quando inventou os foguetes V-2, que Hitler descarregou sobre Londres, mas se converteu em bom no dia em que pôs seu talento a serviço dos EUA.
Stalin foi bom durante a Segunda Guerra Mundial e mau depois, quando passou a dirigir o Império do Mal. Nos anos de guerra fria escreveu John Steinbeck: "Talvez todo o mundo precise dos russos. Aposto que também a Rússia precisa dos russos. Talvez eles os chamam de americanos". Depois, os russos se tornaram bonzinhos. Agora, também Putin disse: "O Mal deve ser castigado".
Saddam Hussein era bom, e boas eram as armas químicas que usou contra os iranianos e os curdos. Depois, se tornou mauzinho. Já se chamava Satã Hussein quando os EUA, que vinham da invasão do Panamá, invadiram o Iraque porque o Iraque havia invadido o Kuwait. Bush pai teve a seu cargo esta guerra contra o Mal. Com o espírito humanitário e compassivo característico de sua família, matou mais de cem mil iraquianos, civis em sua grande maioria.
Satã Hussein segue estando onde estava, mas este inimigo número um da humanidade foi rebaixado à categoria de inimigo número dois. O flagelo do mundo se chama agora Osama Bin Laden. A CIA lhe ensinou tudo o que sabe em matéria de terrorismo: Bin Laden, amado e armado pelo governo dos EUA, era um dos principais "guerreiros da liberdade" contra o comunismo no Afeganistão. Bush pai ocupava a vice-presidência quando o presidente Reagan disse que estes heróis eram "o equivalente moral aos Pais Fundadores da América (Foundation's Fathers)". Hollywood estava de acordo com a Casa Branca. Foi filmado Rambo 3: os afegãos mulçumanos eram os bons. Agora são os maus malíssimos, em tempos de Bush filho, treze anos depois.
    Henry Kissinger foi dos primeiros a reagir ante a tragédia iminente. "Tão culpados como os terroristas são os que lhes dão apoio, financiamento e inspiração", sentenciou, com palavras que o presidente Bush repetiu horas depois. Se é assim, teria-se que começar bombardeando Kissinger. Ele seria culpado de muitos mais crimes que os cometidos por Bin Laden e por todos os terroristas que no mundo o são. E em muitos mais países: atuando a serviço de vários governos norte-americanos, brindou "apoio, financiamento e inspiração" ao terror de Estado na Indonésia, Camboja, Chipre, Irã, África do Sul, Bangladesh e nos países sulamericanos que sofreram a guerra suja do Plano Condor.
Em 11 de setembro de 1973, exatamente 28 anos antes dos fogos de agora, ardeu o palácio presidencial no Chile. Kissinger tinha antecipado o epitáfio de Salvador Allende e da democracia chilena, ao comentar o resultado das eleições: "Não temos de aceitar que um país se faça marxista pela irresponsabilidade de seu povo".
O desprezo pela vontade popular é uma das muitas coincidências entre o terrorismo de Estado e o terrorismo privado. Para ficar em apenas um exemplo, o ETA, que mata gente em nome da independência do país Basco, disse através de um de seus porta-vozes: "Os direitos não têm nada que ver com maiorias e minorias".
Muito se parecem entre si o terrorismo artesanal e o de alto nível tecnológico, o dos fundamentalistas religiosos e o dos fundamentalistas do mercado, o dos desesperados e o dos poderosos, o dos loucos soltos e o dos profissionais de uniforme. Todos compartilham o mesmo desprezo pela vida humana: os assassinos dos cinco mil e quinhentos cidadãos triturados sob os escombros das Torres Gêmeas, que desmoronaram como castelos de areia, e os assassinos dos duzentos mil guatemaltecos, em sua maioria indígenas, que foram exterminados sem que jamais a televisão nem os jornais do mundo lhe prestassem a menor atenção. Eles, os guatemaltecos, não foram sacrificados por nenhum fanático muçulmano, senão pelos militares terroristas que receberam "apoio, financiamento e inspiração" dos sucessivos governos dos EUA.
Todos os enamorados da morte coincidem também em sua obsessão por reduzir a termos militares as contradições sociais, culturais e nacionais. Em nome do Bem contra o Mal, em nome da Verdade Única, todos resolvem tudo, matando primeiro e perguntando depois. E por esse caminho, terminam alimentando o inimigo que combatem. Foram as atrocidades do Sendero Luminoso que incubaram o presidente Fujimori que, com considerável apoio popular, implantou um regime de terror e vendeu o Peru a preço de banana. Foram as atrocidades dos EUA no Oriente Médio que incubaram a guerra santa do terrorismo de Alá.
***
Ainda agora o líder da Civilização está exortando a nova Cruzada, Alá é inocente dos crimes que se cometem em seu nome. No final das contas, Deus não ordenou o holocausto nazista contra os fiéis de Jeová, e não foi Jeová quem ditou a matança de Sabra e Chatila, nem quem mandou expulsar os palestinos de sua terra. Por acaso Jeová, Alá e Deus não são três nomes de uma mesma divindade?
Uma tragédia de equívocos: já não se sabe quem é quem. A fumaça das explosões faz parte de uma cortina de fumaça muito maior que nos impede de ver. De vingança em vingança, os terroristas nos obrigam a caminhar aos tombos. Vejo uma foto, publicada recentemente, onde uma mão escreveu em uma parede de Nova York: "Olho por olho e o mundo acaba cego".
A espiral da violência engendra violência e também confusão: dor, medo, intolerância, ódio, loucura. Em Porto Alegre, no começo deste ano, o argelino Ahmed Ben Bella advertiu: "Este sistema, que já enlouqueceu as vacas, está enlouquecendo a gente". E os loucos, loucos de ódio, atuam igualmente ao poder que os gera.
Um menino de 3 anos, chamado Luca, comentou estes dias: "O mundo não sabe onde está sua casa". Ele estava olhando um mapa. Podia estar olhando um jornal.



Eduardo Galeano – Narrador, ensaísta, novelista uruguaio – 21.09.2001
IN “La Jornada” – http://www.consciencia.net/opiniao/arquivo/galeano.html

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Fraco demais para chorar



Vítimas da fome, crianças refugiadas na Somália não têm força nem para choro


Marcelo Ninio


Um silêncio perturbador domina o campo de refugiados de Badbaabo, o maior de Mogadício, capital da Somália. Surpreendentemente, o choro de criança é raro.
Apesar do estado agudo de desnutrição de milhares de pessoas precariamente acampadas em tendas feitas com galhos de árvores, o instinto infantil mais básico parece ter sido derrotado.
"Ela tem muita fome, mas acho que ficou fraca demais para chorar", diz Shukri Mohamed, 28, embalando seu bebê de oito meses. Pele e osso, a criança tem os olhos vidrados, indiferente ao bando de moscas que passeiam sobre seu rosto.
O silêncio dos refugiados é produto da debilidade física, mas também da impotência diante de um desastre natural agravado por duas décadas de guerra civil na Somália e pelo atraso das agências internacionais em reagir.
Vivendo a pior seca em 60 anos, a região conhecida como "Chifre da África" fez ressurgir as imagens das crianças etíopes esqueléticas que comoveram o mundo no meio da década de 80.
Mergulhada em caos e dividida entre um governo inoperante e o fanatismo da milícia islâmica Shabab, a Somália é o testemunho mais eloqüente de uma combinação mortal: tragédia climática, escalada nos preços de alimentos e conflito armado.
Grande parte do território do país é controlado pela milícia islâmica, que dificulta o deslocamento populacional e impede a chegada de assistência humanitária, alegando que as organizações ocidentais são "antiislâmicas".
Somente nos últimos três anos, foram assassinados 14 funcionários do PMA (Programa Mundial de Alimentação), principal fornecedor de ajuda alimentar na região.
Reféns da insana disputa armada que rachou o país e do temor da comunidade internacional em atuar num território sem lei, a população é presa fácil da seca.
Os rostos da fome na África, estampados em jornais do mundo inteiro, contam apenas parte da história. Em muitos casos, o fim. Iman Abdi Noono, 60, caminhou com a família durante dez dias até Mogadício para escapar da seca que aniquilou o rebanho de 30 vacas e 60 ovelhas que garantiam sua subsistência no distrito de Bu"ale (sul).
Para driblar os achaques do Shabab, que controla a região sul, a mais atingida pela seca, Iman foi obrigado a fazer uma rota alternativa. O desvio prolongou a caminhada e o sofrimento.
Agachado dentro de uma barraca no campo de refugiados, ele conta que viu seis de seus nove filhos morrer de fome no caminho.
"Carreguei o último nas costas e achei que iria salvá-lo. Mas ele morreu pouco depois de chegarmos a Mogadício", lamenta, em voz baixa.
Até algumas semanas atrás, o campo de Badbaado era apenas mais uma área em ruínas de Mogadício. Hoje abriga cerca de 30 mil refugiados internos, que se alinham em longas filas à espera de rações oferecidas por organizações humanitárias.
As tradicionais vestes islâmicas em tons fortes de amarelo, verde, vermelho e outras cores berrantes, contrastam com o semblante soturno das mulheres somalis.
De acordo com o PMA, 200 mil somalis chegaram à capital nos últimos dois meses fugindo da seca. Em sua maioria gente simples, que perdeu o pouco que tinha e ainda teve que deixar para trás parte da família.
Fatma Maha, 32, que aparenta ter pelo menos dez anos a mais, tinha chegado no mesmo dia a Mogadício. Com uma bacia de metal na mão, esperava na fila para receber um punhado de arroz que mal daria para alimentar os quatro filhos que conseguiu levar à capital.
"Deixei os dois mais velhos para trás com meu marido, porque não tive dinheiro para pagar a viagem de caminhão", diz Fatma, explicando que o motorista cobrou algo em torno de R$ 0,15 por passageiro. "Foi muito difícil, mas precisava salvar os mais novos".
Tragédia anunciada
Nas últimas três semanas, as estradas esburacadas de Mogadício passaram a ser rota do tráfego intenso de caminhões com comida e medicamentos destinados a aplacar a crise.
Embora os sinais de um desastre iminente na Somália terem começado a ser emitidos em novembro pelo sistema de alerta contra a fome do governo americano (FEWS NET), a ONU só declarou estado de emergência na região no início de julho.
A demora foi fatal para dezenas de milhares de crianças e adultos que o PMA estima terem morrido na Somália em conseqüência da seca nos últimos três meses. Segundo a agência, mais 10 mil poderão morrer no sul do país até o fim do mês.


Marcelo Ninio – Enviado especial a Mogadício (Somália) – 14.08.2011
IN “Folha de São Paulo” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1408201110.htm

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Genocídio racial estatístico


Para corrigir os males de uma sociedade em preto e branco, os americanos começaram a valorizar todas as etnias


José Murilo de Carvalho
Está em andamento no Brasil uma tentativa de genocídio racial perpetrado com a arma da estatística. A campanha é liderada por ativistas do movimento negro, sociólogos, economistas, demógrafos, organizações não-governamentais, órgãos federais de pesquisa. A tática é muito simples. O IBGE decidiu desde 1940 que o Brasil se divide racialmente em pretos, brancos, pardos, amarelos e indígenas. Os genocidas somam pretos e pardos e decretam que todos são negros, afro-descendentes.Pronto. De uma penada, ou de uma somada, excluem do mapa demográfico brasileiro toda a população descendente de indígenas, todos os caboclos e curibocas. Escravizada e vitimada por práticas genocidas nas mãos de portugueses e bandeirantes, a população indígena é objeto de um segundo genocídio, agora estatístico. A não ser pelos trezentos e tantos mil índios, a América desaparece de nossa composição étnica. Restam Europa e África.

O problema da cor ou raça persegue nossos demógrafos e estatísticos desde 1849. Haddock Lobo, organizador do censo do Rio de Janeiro desse ano, rejeitou o item cor por considerar essa classificação odiosa, além de inconfiável pela “infidelidade com que cada indivíduo faria de si próprio a necessária declaração”. O primeiro censo nacional, feito em 1872, enfrentou o problema e dividiu as raças (não se diferenciava raça de cor) em branca, preta, parda e cabocla (indígena). Os responsáveis pelo censo de 1890 substituíram pardo por mestiço, argumentando, corretamente, que a cor parda “só exprime o produto do casamento do branco com o preto”. O censo de 1920 eliminou o item raça porque “as respostas ocultavam em grande parte a verdade”, sobretudo as respostas dos mestiços. O registro de cor foi reintroduzido no censo em 1940, quando voltaram os pardos e se estabeleceu o padrão atual, com a única diferença que hoje se separam amarelos (asiáticos) e indígenas.

Retrocedeu-se a 1872, ignorado o alerta feito em 1890. Os descendentes de indígenas ficaram embutidos na classificação de pardos, da qual são agora definitivamente enxotados. Ora, é óbvio para qualquer um que os 39% de pardos do censo de 2000 se compõem em boa parte de descendentes de indígenas. Aí está, aliás, a razão de ser do tribunal racial da Universidade de Brasília, destinado a apontar entre os pardos os afro-descendentes. A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, de 1998, mostrou que as pessoas classificadas como pardas pelos critérios impostos, quando deixadas livres para se autoclassificarem se disseram morenas e morenas claras em 60% dos casos. Apenas 34% dos pardos concordaram com essa classificação e apenas 2% se disseram mulatos. Pesquisa feita na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 1997 revelou que 50% dos que foram classificados de pardos pelos entrevistadores se disseram morenos ou brancos. Outra pesquisa no Rio, de 2000, mostrou que 48% dos pardos diziam ter antecedentes indígenas. Nos estados do Norte, onde foi fraca a presença da escravidão africana, os descendentes de indígenas formam sem dúvida a grande maioria dos pardos.

A inspiração do genocídio vem naturalmente dos Estados Unidos. Mas a operação é falaciosa. Para corrigir os males de uma sociedade em preto e branco, os americanos começaram a valorizar todas as etnias. Como se sabe, não existem mais americanos. Lá, as pessoas são euro, afro, latino, nativo, asiático-americanas. Professores brasileiros quando vão dar aulas por lá têm que se autoclassificar racialmente. Eu sou latino. Importou-se essa valorização das etnias. A falácia consiste em ter sido ela importada não para acabar com a polarização, mas para implantá-la num país em que ela não existia. Valorizam-se duas cores, raças, etnias, seja lá o que for, com exclusão das outras. Viramos um país em preto e branco, ou melhor, em negro e branco.

Deixados livres para definir sua cor, os brasileiros exibem enorme variedade e grande ambigüidade. Essa riqueza foi aprisionada no leito de Procusto das cinco categorias pré-codificadas do IBGE. Os americanizantes querem mutilá-la ainda mais, reduzindo-a à polarização branco-negro. Se é para valorizar as etnias, vamos copiar direito os americanos. Vamos incluir todas as etnias, sem esquecer a dos primitivos habitantes do país, instaurando entre nós a sociedade hifenizada. Para isso, nenhuma das opções dos censos, de 1872 a 2000, é satisfatória.



José Murilo de Carvalho – Historiador e cientista político – 27.12.2004