quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deixem eu ser brasileiro!


Esqueçam o que dizem pasquales, sacconis e squarisis, esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz! Ouçam os apelos de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e idéias! Deixem eu ser brasileiro, deixem eu escrever para ser entendido pelos meus contemporâneos!
Marcos Bagno
Sou tradutor profissional há mais de vinte e cinco anos e a experiência acumulada nesse tempo me confere uma cristalina certeza: os revisores que trabalham nas nossas editoras pertencem a uma seita secreta com a missão de boicotar ao máximo o português brasileiro, impedir que ele se consagre na língua escrita para preservar tanto quanto possível a norma-padrão obsoleta que eles julgam ser a única forma digna de receber o nome de “língua portuguesa”.
Sempre fico irritado quando recebo os meus exemplares de tradutor e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de “correções” que representam a obsessão paranóica de expurgar do texto escrito qualquer “marca de oralidade”, qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever o português. É sistemático, é premeditado (só pode ser). Todos os “num” e “numa” que uso são devidamente desmembrados em “em um” e “em uma”, como se essas contrações, presentes na língua há mais de mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com “nesse”, “nisso” etc., ou com “no” e “na”. Por que essa perseguição estúpida ao “num”, “numa”? O mesmo acontece com o uso de “tinha” na formação do mais-que-perfeito composto: “tinha visto”, “tinha dito”, “tinha falado” são implacavelmente transformados em “havia visto” etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo “haver”, no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais…
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse boicote consciente ao português brasileiro é a putrefacta colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo, é veememente combatida, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos na nossa língua. O combate é tão furibundo que até mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como “não conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”. Isso para não mencionar a jurássica mesóclise, que alguns necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação pronominal, desprezando o fato de que se trata de um fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos brasileiros há séculos.
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, pelo amor de Oxum! Consultem os seus calendários: estamos no século 21! Vão estudar um pouco, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever “assisti o filme”, “deixa eu ver”, que a forma “entre eu e você” não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos “eu custo a crer”! Esqueçam o que dizem pasquales, sacconis e squarisis, esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz! Ouçam os apelos de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e idéias! Deixem eu ser brasileiro, deixem eu escrever para ser entendido pelos meus contemporâneos!



Marcos Bagno – Escritor, tradutor, lingüista e professor – fevereiro de 2009

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O apogeu do processo constituinte

Sob o incentivo propulsor da iniciativa popular (pouco visível por trás das emendas dos constituintes) e do trabalho original destes, processou-se um refinamento progressivo, que não levou a uma constituição ótima (ou a uma “boa constituição”, na linguagem dos psicólogos gestaltianos), mas nos deu uma constituição satisfatória, com vários pontos altos.


Florestan Fernandes
O processo constituinte foi cercado de condições negativas insanáveis. Algumas provêm da sociedade civil. Dominada por categorias sociais privilegiadas e dirigida pelas elites de classes burguesas conservadoras, a sociedade civil deteriorou o processo constituinte de duas maneiras. A primeira, porque determinou a composição da maioria parlamentar. Dados os tipos de partidos políticos que possuímos, a vigência de uma “transição democrática”, que é uma transição conservadora, e o peso econômico das classes dominantes nos processos eleitorais, tal sociedade civil só podia gerar uma maioria parlamentar de “centro direita” (eufemismo pelo qual a reação dissimula a sua verdadeira face). A segunda, porque ela dispõe de uma capacidade de pressão tentacular. Ela define e impõe, como moeda corrente, o que entende como natureza “pacífica” e “moderada” do Povo brasileiro. E, acima das contingências, manipula todas as instituições-chave, da escola, da Igreja, e da empresa ao Estado. Podem-se introduzir algumas limitações aos privilégios. Mas não suprimi-los. A Assembléia Nacional Constituinte curvou-se a esse arco convencional imbatível e tentou conciliar a “modernização conservadora” com os “interesses estabelecidos pela ordem existente”. Nas atuais condições históricas, isso era sociologicamente fatal.
Para quem participa do processo constituinte, a estrutura que foi programada, das subcomissões às comissões temáticas, À comissão de sistematização e ao plenário, fazia prever uma fragmentação das correntes inovadoras e o fortalecimento concomitantes dos “moderados”. O ambiente criado pela “transição democrática” e as interferências de um governo empenhado em impedir a sua “derrota” (estranhamente posta no desenvolvimento normal do processo constituinte) agravaram esse efeito. Em um dado momento, parecia que o Brasil estava condenado a ter uma “constituição possível” (e muitos chegaram a proclamar que ela seria pior do que a de 1946 e, mesmo, do que as de 1967 e 1969, frutos da ditadura militar).
Outros constrangimentos vinham da tradição parlamentar brasileira. A debilidade dos partidos corre paralelamente com o vigora das lideranças e o despotismo dos líderes. O fator pessoa decisivo é sempre o líder, elemento autocrático predominante e um um processo parlamentar subdemocrático. A Assembléia Nacional Constituinte absorveu e imprimiu grande vitalidade aos papéis constitutivos e negativos da liderança e da figura do líder. Obedeceu-se , de modo estrito, ao princípio da proporcionalidade, da representação , o que era extremamente vantajoso ao PMDB. E os acordos entre os partidos (de fato, acordo entre lideranças e, por vezes, entre certos líderes) fez com que a competência fosse subestimada em função da autoridade. O Sr. Mário Covas não escolheu arbitrariamente os presidentes e os relatores da subcomissões e das comissões temáticas. Ele compôs habilmente as indicações que tinham essa origem (de partido para partido e entre correntes mais ou menos decisivas dentro do PMDB). A sorte (ou o azar) gerou, assim, o perfil final da composição do quadro dirigente e eventualmente de maior influência daquelas entidades, e condicionou a formação do núcleo fundamental da comissão de sistematização. As lideranças dos partidos maiores escolheram os critérios pelos quais iriam ser selecionados seus representantes nessa comissão. O PMDB e o PFL tiveram  espaço para alçar vôo, e os partidos pequenos viram-se esmagados pela proporcionalidade, pois tinham de se virar, com uma representação diminuta, reduzida ao líder, ao vice-líder (como suplente) e ao relator (se chegassem a ter algum). Se compararmos esses critérios, por exemplo, com os que orientaram a elaboração da Constituição de Weimar, descobriremos que estrangulamos o talento e a competência profissional ( ou técnica) e realçamos a liderança e a autoridade como princípios organizativos e de produção intelectual.
Um segundo elemento  negativo interno era ocasional. O presidente e, em particular, os relatores eram componentes nucleares da qualidade do relatório inicial e do substitutivo, que vinha em seguida. A variação foi do ótimo ao sofrível (os exemplos salientados, quanto ao que apareceu de melhor, dizem respeito a José Paulo Bisol, Almir Gabriel ou Severo Gomes e Artur da Távola, apesar da sabotagem dos trabalhos dos dois últimos). Além disso, a Assembléia Nacional Constituinte não coibiu a interferência direta e os “interesses inconfessáveis” corriam soltos. O resultado final foi a incongruência não só ideológica e política, mas de qualidade e prevaricação. O primeiro relatório composto por Bernardo Cabral ilustra esse fato. Era uma concha de retalhos, em que engenho e arte ajudavam; na forma e no fundo, o todo assustava, como um Quasímodo ou mesmo um Frankenstein: a racionalidade sucumbia  à contingência. Todos ficaram horrorizados com o monstrengo, e Bernardo Cabral passou maus bocados, segurando um filho que não era seu...
Pois bem, sob o incentivo propulsor da iniciativa popular (pouco visível por trás das emendas dos constituintes) e do trabalho original destes, processou-se um refinamento progressivo, que não levou a uma constituição ótima (ou a uma “boa constituição”, na linguagem dos psicólogos gestaltianos), mas nos deu uma constituição satisfatória, com vários pontos altos. Como explicar isso? De um lado, pelo centro autêntico do PMDB, que ao longo da trajetória se converteu em MUP, o PDT, o PT, o PSB, o PC do B e o PCB). Um partido pequeno como o PT, por exemplo, manteve um combate acesso permanente pelas melhores causas e enervou o processo constituinte. O mesmo ocorreu com a contribuição de outros partidos ou correntes de partidos da “esquerda”. Acresce que, nesta área, o princípio da liderança revelou-se mais construtivo. Tome-se Lula como ponto de referência. Um líder operário na Assembléia Nacional Constituinte! O que falava sempre continha peso político e terminava por polarizar o processo constituinte, compelindo os “moderados” ou os “centristas” a se desnudarem política e ideologicamente. Além disso, as lideranças dessa área colaboraram entre si com relativa organicidade (que declinou ou empalideceu em certos momentos). Juntos, Lula, Brandão Monteiro, Roberto Freire, Haroldo Lima, Jamil Hadad, com quem representasse o MUP (Otávio Elísio, Jorge Hage, Nelton Friedrich, Cristina Tavares ou outros) e a colaboração de Euclides Scalco (ou outros), lograram conduzir os debates para fins que envolviam a qualidade da Constituição – não sua congruência com os interesses patrocinados pela “defesa da ordem”. Esses partidos e grupos mantinham seus quadros e seus corpos de assessores no plenário em atividade constante, elaboravam cooperativamente emendas coletivas e incentivavam a combatividade dos suplentes, o que explica, por exemplo, o êxito marcante de José Genoíno.
Operou-se, assim, a metamorfose do monstrengo em uma constituição com espinha vertebrada e com sentido moderno, e de conteúdo democrático inegável.  Os avanços foram feitos em diferentes direções, o que não impediu contradições formais e lógicas ou omissões injustificáveis: a comunicação, os índios e a parte relativa à família, ao menor e ao idoso ficaram sem revisão. Além disso, todos os constituintes foram vitimizados pelo encurtamento progressivo drástico do tempo de duração dos trabalhos da Comissão de Sistematização. Este corte não foi técnico, mas político. Representou um meio para reduzir o alcance inovador (e, para alguns, iconoclasta) da contribuição constitucional dessa comissão. Todos sofremos com isso, mas o golpe fatal foi desfechado sobre o crânio da “ala esquerdista ou radical”. Os que compõem o que se autobatizou de “Centrão” não possuem razão para se sobreporem aos demais e exigir uma mudança das normas do Regimento para recomeçar o jogo. O protesto deveria ter sido feito no momento exato, no qual se consentiu que o presidente da Assembléia Nacional Constituinte baixasse um conjunto de decisões que amputava a massa de destaques indiscriminadamente (segundo acordo com as lideranças, mas, na verdade, de forte cunho pessoal). Agora, o que se busca é um retrocesso. Os “interesses inconfessáveis” ressurgem sob diversas roupagens, com o fito de extirpar certos avanços, como, por exemplo, os conseguidos nos direitos sociais, e de mitigar ou extinguir da Constituição o que ela possui de mais significativo para a implantação de uma sociedade civil civilizada e de um Estado capitalista democrático no Brasil. Há muita gente que não quer dizer adeus à barbárie! Os constituintes não fogem a essa regra, açulados ou não por imperativos dos interesses de classes contrariados, pelo medo de perder suas posições na monopolização do poder político estatal ou por uma tradição de mandonismo obscurantista, ameaçada pelo advento de uma democracia de participação política ampliada.

Florestan Fernandes – Sociólogo, político e professor – 02.11.1987
IN “Jornal do Brasil” (“A Constituição Inacabada” – São Paulo: Estação Liberdade, 1989)

sábado, 2 de abril de 2011

'A desuniversidade' e 'A reuniversidade'


A desuniversidade


Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda única sem unificar as políticas públicas, a política fiscal e os orçamentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias.


Boaventura de Souza Santos
O processo de Bolonha — a unificação dos sistemas universitários europeus com vista a criar uma área europeia de educação superior — tem sido visto como a grande oportunidade para realizar a reforma da universidade europeia. Penso, no entanto, que os universitários europeus terão de enfrentar a seguinte questão: o processo de Bolonha é uma reforma ou uma contra-reforma?
A reforma é a transformação da universidade que a prepare para responder criativamente aos desafios do século XXI, em cuja definição ela activamente participa. A contra-reforma é a imposição à universidade de desafios que legitimam a sua total descaracterização, sob o pretexto da reforma. A questão não tem, por agora, resposta, pois está tudo em aberto. Há, no entanto, sinais perturbadores de que as forças da contra-reforma podem vir a prevalecer. Se tal acontecer, o cenário distópico terá os seguintes contornos.
Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda única sem unificar as políticas públicas, a política fiscal e os orçamentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias. As consequências previsíveis serão estas: abandonam-se os princípios do internacionalismo universitário solidário e do respeito pela diversidade cultural e institucional em nome da eficiência do mercado universitário europeu e da competitividade; as universidades mais débeis (concentradas nos países mais débeis) são lançadas pelas agências de rating universitário no caixote do lixo do ranking, tão supostamente rigoroso quanto realmente arbitrário e subjectivo, e sofrerão as consequências do desinvestimento público acelerado; muitas universidades encerrarão e, tal como já está a acontecer a outros níveis de ensino, os estudantes e seus pais vaguearão pelos países em busca da melhor ratio qualidade/preço, tal como já fazem nos centros comerciais em que as universidades entretanto se terão transformado.
O impacto interno será avassalador:
a relação investigação/docência, tão proclamada por Bolonha, será o paraíso para as universidades no topo do ranking (uma pequeníssima minoria) e o inferno para a esmagadora maioria das universidades e universitários.
Os critérios de mercantilização reduzirão o valor das diferentes áreas de conhecimento ao seu preço de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia só serão mantidos se algum macdonald informático vir neles utilidade. Os gestores universitários serão os primeiros a interiorizar a orgia classificatória, objectivomaníaca e indicemaníaca; tornar-se-ão exímios em criar receitas próprias por expropriação das famílias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destruição da criatividade e da diversidade universitárias, normalizando tudo o que é normalizável e destruindo tudo o que o não é.
Os professores serão proletarizados por aquilo de que supostamente são donos — o ensino, a avaliação e a investigação — zombies de formulários, objectivos, avaliações impecáveis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na substância, workpackages, deliverables, milestones, negócios de citação recíproca para melhorar os índices, comparações entre o publicas-onde-não-me-interessa-o-quê, carreiras imaginadas como exaltantes e sempre paradas nos andares de baixo.
Os estudantes serão donos da sua aprendizagem e do seu endividamento para o resto da vida, em permanente deslize da cultura estudantil para cultura do consumo estudantil, autónomos nas escolhas de que não conhecem a lógica nem os limites, personalizadamente orientados para as saídas do desemprego profissional. O serviço da educação terciária estará finalmente liberalizado e conforme às regras da Organização Mundial do Comércio.
Nada disto tem de acontecer, mas para que não aconteça é necessário que os universitários e as forças políticas para quem esta nova normalidade é uma monstruosidade definam o que tem de ser feito e se organizem eficazmente para que seja feito. Será o tema da próxima crónica.

Boaventura de Souza Santos – “revista Visão – 26.08.2010


A Reuniversidade

As universidades formam seres humanos e cidadãos plenos e não capital humano sujeito como qualquer outro capital às flutuações do mercado.

 
Boaventura de Souza Santos
Na minha última crónica descrevi um cenário perturbador do futuro da universidade em resultado dos processos de reforma actualmente em curso. Fiz questão de salientar que se trata apenas de um cenário possível e que a sua ocorrência pode ser evitada se forem tomadas algumas medidas exigentes.
Primeiro, é preciso começar por reconhecer que a nova normalidade criada pelo cenário descrito significaria o fim da universidade tal como a conhecemos.
Segundo, é necessário tirar as consequências dos vícios da universidade anterior ao processo de Bolonha: inércia e endogamia por detrás da aversão à inovação; autoritarismo institucional disfarçado de autoridade académica; nepotismo disfarçado de mérito; elitismo disfarçado de excelência; controle político disfarçado de participação democrática; neofeudalismo disfarçado de autonomia departamental ou facultária; temor da avaliação disfarçado de liberdade académica; baixa produção científica disfarçada de resistência heróica a termos de referência estúpidos e a comentários ignorantes de referees.
Terceiro, o processo de Bolonha deve retirar do seu vocabulário o conceito de capital humano. As universidades formam seres humanos e cidadãos plenos e não capital humano sujeito como qualquer outro capital às flutuações do mercado. Não se pode correr o risco de confundir sociedade civil com mercado. As universidades são centros de saber no sentido mais amplo do termo, o que implica pluralismo científico, interculturalidade e igual importância conferida ao conhecimento que tem valor de mercado e ao que o não tem.
A análise custo/benefício no domínio da investigação e desenvolvimento é um instrumento grosseiro que pode matar a inovação em vez de a promover. Basta consultar a história das tecnologias para se concluir que as inovações com maior valor instrumental foram desenvolvidas sem qualquer atenção à análise custo/benefício. Será fatal para as universidades se a reforma for orientada para neutralizar os mecanismos de resistência contra as imposições unilaterais do mercado, os mesmos que, no passado, foram cruciais para resistir contra as imposições unilaterais da religião e do Estado.
Quarto, a reforma deve incentivar as universidades a desenvolverem uma concepção ampla de responsabilidade social que se não confunda com instrumentalização. No caso português, os contratos celebrados entre as universidades e o Governo no sentido de aumentar a qualificação da população tornam ridícula a ideia do isolamento social das universidades mas, se nem todas as condições forem cumpridas, podem sujeitar as instituições a um stress institucional destrutivo que atingirá de maneira fatal a geração dos docentes na casa dos trinta e quarenta anos.
Quinto, para que tal não suceda, é necessário que a todos os docentes universitários sejam dadas iguais oportunidades de realizar investigação, não as fazendo depender do ranking da universidade nem do tópico de investigação, não sendo toleradas nem cargas lectivas asfixiantes, nem a degradação dos salários (mantendo as carreiras abertas e permitindo que os salários possam ser pagos, em parte, pelos projectos de investigação).
Sexto, o processo de Bolonha deve tratar os rankings como o sal na comida, ou seja, com moderação. Para além disso, deve introduzir pluralidade de critérios na definição dos rankings à semelhança do que já vigora noutros domínios: nas classificações dos países, o índice do PIB co-existe hoje com o índice de desenvolvimento humano do PNUD.
Tudo isto só será possível se o processo de Bolonha for cada vez mais uma energia endógena e cada vez menos uma imposição de peritos internacionais que transformam preferências subjectivas em políticas públicas inevitáveis; e se os encarregados da reforma convencerem a UE e os Estados a investir mais nas universidades, não para responder a pressões corporativas, mas porque este é o único investimento capaz de garantir o futuro da ideia da Europa enquanto Europa de ideias.

Boaventura de Souza Santos – Sociólogo e professor português – 23.09.2010
IN “Revista Visão” –  http://aeiou.visao.pt/a-reuniversidade=f573200