segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pela primeira vez, bancos lideram reclamações no Procon-SP


Setor foi o que registrou mais queixas no primeiro semestre e assumiu o posto ocupado nos últimos anos pela telefonia

Agência Estado
Os bancos foram as empresas que mais problemas causaram aos consumidores no primeiro semestre de 2011. Dados da Fundação Procon-SP, mostram que só contra os serviços bancários foram registradas 12.890 reclamações - 14% do total de 91.925 registradas no órgão no período. Se forem somadas as 12.501 queixas contra cartões de crédito (13,6%), as instituições financeiras totalizam 25.391 ocorrências (27,6% do total).
"Os principais problemas são cobrança de tarifas, movimentações (saques, compras, empréstimos, transferências) não reconhecidas ou cobranças de serviços que o consumidor não contratou, como seguros", diz Renata Reis, supervisora da Área de Assuntos Financeiros e Habitação do Procon-SP, sobre os questionamentos mais comuns.
Para se ter uma ideia do alto volume as reclamações contra sistema financeiro, outra fonte do Procon-SP informou que, pela primeira vez, um banco está (e deve terminar o ano) na liderança do ranking de reclamações da entidade - ultrapassando a Telefônica, que aparecia na primeira posição por cinco anos consecutivos (informação que o Procon-SP não divulgou). Além disso, cresce o número de bancos na lista das dez empresas mais reclamadas - hoje são quatro, enquanto em 2010 eram três.
No Banco Central (BC), as queixas contra os principais bancos do País aumentaram 40%, em relação ao primeiro semestre de 2010. Nos primeiros seis meses deste ano, a média mensal de reclamações foi de 790 ante 564 de janeiro a junho de 2010. A quantidade de clientes avançou 7% no período.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informa que o aumento no número de reclamações no primeiro semestre de 2011 reflete a elevação da base de clientes e o maior grau de exigência deles, os esforços de fusão dos bancos e, principalmente, a elevação no consumo de produtos tais como crédito, inclusive cartões, que estão crescendo a taxas de 20% ao ano.
A Febraban diz ainda que os bancos constantes do ranking do BC busca medidas conjuntas que possam reduzir o volume de reclamações no órgão. "As instituições não estão satisfeitas com os resultados do ranking. Embora o volume de reclamações represente um porcentual muito baixo (menos de 1 reclamação a cada 100 mil clientes) considerando o tamanho da operação dos bancos, os dados mostram que sistema bancário deve trabalhar redobrado para a satisfação dos nossos clientes", ressalta Francisco Calazans, diretor setorial de ouvidorias e relações com clientes da entidade.
A professora Ana Cláudia Ferreira de Paula, 44 anos, é uma das pessoas que tiveram de recorrer ao Procon-SP. Tudo porque ela passou um cheque de R$ 14 para um taxista, mas o banco descontou R$ 6.600 da sua conta. "Só no dia seguinte que o banco devolveu o valor", diz. Apesar do banco afirmar que o problema foi resolvido, ela ficou insatisfeita. "Tirei um extrato e eles registraram a devolução do meu dinheiro como ‘cheque devolvido sem fundos’. Tentei reclamar , mas dizem que não vão corrigir essa informação. Isso é um absurdo. O motivo tem que ser fraude ou erro do banco e não falta de fundos. Eu não sou caloteira. O banco só me ressarciu no dia seguinte e ainda quer me acusar de passar cheque sem fundos? Isso prejudica minha imagem e meu histórico", reclama.


Agência Estado – 19.08.2011
IN “Jornal A Cidade” – http://www.consumidorrs.com.br/rs2/inicial.php?case=2&idnot=17627              

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O controle avança mais que a gestão pública e o Judiciário



AS FAXINAS EM FOCOS DE CORRUPÇÃO SÓ TERÃO UM DIA SEGUINTE MENOS FRUSTRANTE QUANDO A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SE MODERNIZAR


Fernando Luiz Abrucio
O combate à corrupção melhorou muito nos últimos anos, especialmente no plano federal. À primeira vista, este diagnóstico só pode ser feito por alguém que não está acompanhando o noticiário recente, com escândalos pipocando por vários ministérios, por um governista inveterado, que não quer ver nada a sua frente, ou, pior, por um sujeito que se beneficia de atos ilícitos.
Pesquisas atuais, porém, revelam que, de fato, o sistema de controles se aperfeiçoou e se tornou mais sofisticado na busca por irregularidades e outros malfeitos.
Esse processo se iniciou com a Constituição de 1988, quando os órgãos de fiscalização ganharam maior autonomia, em particular o Ministério Público.
No decorrer da década de 1990, o clamor social por maior transparência, impulsionado pela campanha do impeachment e por várias CPIs, obrigou os governos e congressistas a melhorar o arcabouço legal.
No início do século 21, a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal criou maiores obstáculos a ações perdulárias ao estilo "quebrei o Estado, mas elegi meu sucessor". Finalizando essa trajetória de mudança, o governo Lula fortaleceu a Controladoria-Geral da União e a Polícia Federal, bem como, em paralelo, o TCU tornou-se mais ativo e poderoso.

Sísifo
Os alarmes de incêndio contra a corrupção foram ampliados de um modo inédito em nossa história. Não há mais atos corruptos hoje do que havia no passado, mas uma maior capacidade de mostrá-los para a opinião pública. Então, por que prevalece a sensação de que os escândalos são cada vez mais frequentes?
Aparentemente, os órgãos de controle estão fazendo um trabalho de Sísifo, levando a denúncia até o "cume da montanha", para que essa pedra volte ao mesmo lugar no dia seguinte.
Para sair dessa armadilha, é preciso enfrentar dois grandes problemas. O primeiro é a questão da impunidade. Enquanto o sistema de Justiça não julgar rapidamente os acusados de corrupção, a impressão será a de que a "roubalheira só aumenta".
As faxinas em focos de corrupção, impulsionadas pelos órgãos de controle ou pela mídia, apenas terão um dia seguinte menos frustrante se a gestão pública passar por um processo de grande mudança. Nesse ponto, três temas são essenciais.
Em primeiro lugar, é fundamental espraiar por toda a Esplanada dos Ministérios um modelo profissional e meritocrático de burocracia.
Embora haja nichos burocráticos de alta qualificação no Executivo (como o Itamaraty ou a Fazenda), muitas áreas não têm pessoal adequado para suas funções. Não basta tirar os corruptos da ocasião e mudar o ministro. É preciso estruturar os ministérios, como o dos Transportes ou do Turismo.

Mérito
Além disso, é preciso criar mecanismos para selecionar melhor os cargos comissionados. Sabe-se que, na comparação internacional, esses postos são verdadeiramente numerosos. Mesmo assim, se o Executivo federal estabelecesse limites institucionais mais claros ao preenchimento do alto escalão, em termos de mérito e transparência na seleção, os próprios partidos seriam obrigados a profissionalizar suas indicações.
A modernização da administração pública depende, ainda, da criação de capacidades institucionais vinculadas ao mérito e à "accountability" (prestação de contas) nos Estados e, sobretudo, municípios.
Todos os escândalos parecem começar em Brasília, mas terminam sempre no mesmo lugar: nas bases locais dos parlamentares. Esse é o elo mais complicado do sistema político. Por enquanto, o controle avançou mais do que a gestão no Brasil. Somente quando houver mudanças estruturais na administração pública é que as denúncias, tais quais pedras de Sísifo, deixarão de cair tanto em nossas cabeças.


Fernando Luiz Abrucio – Cientista político, coordenador do curso de graduação em administração pública da FGV-SP e pesquisador – 04.09.2011
IN “Folha de São Paulo” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj0409201110.htm

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cheio de contradições, governo Kirchner caminha para o 3° mandato


       Com a metade dos votos – e uma vantagem de 40% sobre seus adversários –, Cristina Kirchner, presidente da Argentina, venceu com sobras a primária de 14 de agosto. A menos que ocorra uma grande surpresa, ela deve ser eleita para um segundo mandato no dia 23 de outubro. Sua política, entretanto, não é uma unanimidade

Cécile Raimbeau
Sejamos francos! Néstor e Cristina tomaram medidas que nem mesmo os governos socialistas tomaram!”, lança Valdemar, advogado de meia-idade que adora provocar. Sua reflexão surpreende o bando de amigos, reunidos em um modesto galpão em Florencio Varela, na periferia de Buenos Aires. Nesse dia de julho, a algumas semanas das prévias das eleições presidenciais (que acontece no dia 23 de outubro), a conversa esquenta com o tema dos Kirchner: os “K”, como dizem os argentinos para evocar o casal na Presidência do país desde 2003. Ele, que assumiu o cargo com a promessa de “consolidar a burguesia nacional”,1 depois, desde 2007, ela, comprometida com as mudanças na continuidade e, atualmente, candidata à reeleição.
Assim como Neka e seu companheiro Alberto, os anfitriões, Valdemar fez parte de uma organização de extrema esquerda que rejeitava o conjunto da “classe política”. Seu objetivo era “mudar o mundo sem tomar o poder”. Portanto, nada predispõe esse militante a estar de acordo com os “K” ou apoiá-los. Mas os mais “antigos” da organização – que nunca contou com mais de quatrocentos membros – terão o mesmo discurso de Valdemar hoje em dia? “Todos!”, afirma ele, talvez com um pouco de exagero: “A sociedade é tão polarizada que, se você não se opõe aos K, todo mundo considera que você os apoia”.
Vinte anos atrás, a Argentina era como a menina dos olhos do FMI. Desde sua chegada à Presidência, em 1989, Carlos Menem optou pelo neoliberalismo, agradando milhares no setor financeiro. Durante seu governo, vendeu uma grande parte das empresas públicas para investidores estrangeiros e, decidido a acabar com a inflação, instaurou uma paridade fixa entre o dólar e o peso. A inflação caiu, assim como as exportações: pressionada pela moeda supervalorizada, a produção nacional deixou de ser competitiva. A dívida explodiu: de US$ 7,6 bilhões no início dos anos 1970, passou a US$ 132 bilhões em 2001 − uma alta de 1.700%. O desemprego logo chegou a oficiais 18%.2 Quando, no dia 5 de dezembro de 2001, o FMI se recusou a fazer um acordo com o governo argentino para um empréstimo, o país já não podia mais honrar com suas obrigações. Crise da dívida, pânico bancário: a economia estava paralisada. Os argentinos não demoraram a sair para as ruas. O Movimento dos Trabalhadores Desocupados de Solano (MTD), do qual participavam Neka, Alberto e Valdemar, fazia parte de uma miríade de organizações de piqueteiros (desempregados militantes), unidos em torno das palavras de ordem: “¡Que se vayan todos!” [Que saiam todos!].
“Nos enganamos em 2001. Não deveríamos ter esperado que fossem embora. Não, deveríamos ter expulsado todos!”, intervém Alberto. No país, e nesse grupo de velhos amigos, o debate permanece vivo: a “classe política” contra a qual os cidadãos se revoltaram ao som de panelaços realmente se renovou? Em outras palavras, os Kirchner representam uma ruptura ou a continuidade?
Após dois anos de instabilidade política, Néstor Kirchner ascendeu ao poder em 2003. Pouco conhecido (governava o estado de Santa Cruz, na Patagônia), encarnou a ideia de mudança graças a um discurso de tradição peronista,3 que clamava pela defesa dos interesses nacionais. Desde os primeiros meses de seu mandato, obteve na Corte Suprema a anulação das leis de anistia e a reabertura dos processos de militares suspeitos de crime de Estado na época da ditadura (1976-1983): sua popularidade estava garantida. Em 2011, sua esposa está no topo das pesquisas de opinião e pode assumir um terceiro mandato “K”.
“Se o MTD Solano se dissolveu em 2005, isso se deve, em parte, à repressão e à política contrainsurreição de Néstor Kirchner”, afirma Alberto, antigo padre que passou à militância política, sugerindo que os piqueteiros que não se dissolveram foram cooptados. Neka modera: “Sim, os K vampirizaram algumas organizações populares, dividiram outras, mas sua política teve origem em nossa rebelião”. E Valdemar lembra as medidas tomadas pelos “K”. Como bom advogado, começa pelos direitos trabalhistas, em particular pela assinatura de mais de mil convenções coletivas, principalmente no setor industrial. Para conter os protestos sociais, o governo reatou relações com a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), herdeira de um sindicalismo burocrático, verdadeira coluna vertebral do governo na história peronista. As reuniões paritárias levadas adiante pelo governo, esse poderoso sindicato e o patronato permitiram a negociação de melhores condições de trabalho nos setores de couro, alimentação, transporte e comunicações.

Experiências progressistas
Valdemar cita também as reformas da lei de falência de empresas (junho de 2011), mais favoráveis à autogestão e às cooperativas: ela permite que os assalariados utilizem suas indenizações de demissão para adquirir as máquinas e os edifícios das empresas falidas onde trabalhavam. “É certo, mas poderíamos ter ido mais longe!”: a lei de falência não responde às demandas de expropriação a favor dos trabalhadores que recuperaram as empresas nos anos de crise.4
É possível citar também a nova lei de meios de comunicação (outubro de 2009), que atravanca a formação de monopólios e atribui um terço do espectro eletromagnético às organizações sem fins lucrativos; a lei do casamento de homossexuais (julho de 2010); e a renacionalização das aposentadorias privatizadas por Menem (novembro de 2008).5 Sem mencionar os novos programas sociais.
 Em 2002, nas periferias os piqueteiros sobreviviam graças aos restaurantes populares que impulsionavam coletivamente. “Hoje, com a Pensão Universal por Filho e o programa Argentina Trabalha, não falamos em abundância, mas a fome está erradicada”, testemunha Neka. Criado há dois anos, o auxílio por filho (Asignación Universal por Hijo, em espanhol) é a medida mais aplaudida: essa realocação de recursos públicos equivale a 230 pesos (R$ 97) por filho e é concedida a 1,8 milhão de lares. Contrariamente aos planos sociais anteriores, em geral considerados “favores” a um número restrito de pobres, esse se tornou um direito. Quanto ao programa Argentina Trabalha, trata-se de incentivo financeiro a empregos dentro do espectro da economia social e do cooperativismo. Mais de 200 mil postos de trabalho foram abertos na Região Metropolitana de Buenos Aires. Contudo, apesar das remunerações inferiores ao salário mínimo (cerca de 2.300 pesos, ou R$ 970), algumas organizações de desocupados se queixam do clientelismo na atribuição do incentivo.
A Argentina, contudo, despertou o sonho europeu com o crescimento superior a 9% de 2010. Esse sucesso tem origem em uma medida tomada antes da chegada de Kirchner ao poder: o abandono da paridade dólar-peso no fim de 2001. Subitamente liberada, a moeda nacional afundou. O valor real médio dos salários caiu 30%, e a desvalorização reaqueceu o comércio exterior. Ao mesmo tempo, a decolagem do preço mundial das matérias-primas beneficiou o setor primário, cada vez mais dedicado à exportação de soja transgênica. O PIB, que havia caído mais de 10% em 2002, subiu 8% no ano seguinte. Com essa onda positiva, os “K” financiaram uma política de redistribuição de renda. Os gastos públicos alimentam um “círculo virtuoso” econômico. Até quando?
Desde 2002, os “especialistas” estão alarmados. De 2005 a 2008, observa o economista Pierre Salama, “não houve um ano sequer em que as previsões [sobre o crescimento argentino] não fossem extremamente pessimistas”.6 Ainda hoje, esses “ortodoxos” aliados à oposição liberal preveem graves dificuldades e o retorno da hiperinflação. Aplaudem, contudo, e à sua maneira, a reestruturação das dívidas levada adiante pelo casal Kirchner, o que permitiu a redução dos gastos públicos.
Em 2005, a equipe de Kirchner conseguiu convencer seus credores privados a trocar seus títulos, em queda, por um abatimento de 60%. Em 2006, com o apoio da Venezuela – que emprestou US$ 2,5 bilhões ao país –, o governo reembolsou de maneira antecipada a totalidade de sua dívida, de US$ 9,8 bilhões, com o FMI, economizando, assim, US$ 900 milhões em juros. A instituição que até então ditava as políticas no país viu sua influência consideravelmente reduzida. De qualquer forma, a política econômica “K” não é desprovida de ambiguidades. Cinco anos depois, a presidente propõe uma nova troca aos detentores de títulos que recusaram a oferta de 2005 – investidores esses que haviam sido alertados por Néstor de que não seriam reembolsados... “À exceção de alguns empréstimos novos, a dívida atual é a mesma que a contraída na ditadura, declarada ilegítima por um tribunal federal em 2000. Foi reciclada e refinanciada por um mecanismo absurdo, cheio de contratos ilegais, do qual participa o sistema financeiro internacional”, revolta-se Olmos, partidário de uma auditoria da dívida argentina, como o exemplo lançado pelo equatoriano Rafael Correa.
Entre 2002 e 2009, a pobreza despencou de 45% para 11% da população, segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal).7 Mas a desigualdade segue gritante. Ademais, 36% da população ativa ainda trabalha no setor informal. “Uma melhora substancial foi registrada em todas as dimensões do desenvolvimento humano, mas, a partir de 2008, a criação de empregos estagnou, e essas melhoras chegaram ao teto”, expõe Dan Adaszko, pesquisador do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA). A causa: alta dos preços. O governo minimizou essa realidade antes de reconhecer a inflação, estimada por organismos independentes em cerca de 25% ao ano.

Nem Menem, nem Perón
Para combater a alta de preços, Cristina busca conter as reivindicações salariais por meio do diálogo social, com apoio da CGT. “O controle da alta dos salários beneficia principalmente as empresas”, sublinha Eduardo Lucita, da organização Economistas de Esquerda. Apesar da alta dos salários, o custo da mão de obra praticamente estagnou desde 2001, em razão do aumento de 25% da produtividade por trabalhador. De acordo com Lucita, a inflação decorre, em grande parte, das taxas de benefícios absurdas de um punhado de corporações dominantes. Esse assunto também revolta Julio Gambina, professor de Economia Política e membro da Associação pela Taxação das Transações Financeiras para Auxílio dos Cidadãos (Attac) na Argentina: “Desde 2003, a economia continua a se concentrar nas mãos de algumas grandes empresas, das quais grande parte é estrangeira e cujos lucros são repatriados!”.
Inúmeros coletivos denunciam também a extensão crescente da cultura de soja transgênica, que já cobre mais da metade da superfície cultivada do país (ou seja, 18 milhões de hectares) e avança expulsando camponeses e indígenas para bairros precários nas cidades. Da mesma forma, a luta contra as minas a céu aberto que utilizam mercúrio e cianetos enfrenta muitos obstáculos: uma lei de proteção aos glaciares foi votada no Congresso, mas foi bloqueada por um veto da presidente. Suspeita-se da intervenção da empresa canadense Barrik Gold, que pretende extrair cerca de 500 toneladas de metal precioso da cordilheira, sem muita preocupação com o derretimento desse patrimônio natural.
À esquerda, muitos militantes gostariam de ver o Estado impor “mais força” diante dos interesses transnacionais. Os “K” sempre tentaram manter a imagem de capitalismo “sério” e “produtivo”. “Os correios e a companhia aérea Aerolineas Argentinas, duas entidades com a saúde debilitada, foram renacionalizadas, mas não os grandes serviços públicos privatizados nos anos 1990”, lamenta Gambina. Ele evoca as subvenções que o governo concede às empresas privadas de transporte e do setor energético para baixar os custos do consumidor. “Mas a exploração de riquezas – gás, petróleo, minas – continua nas mãos de grandes empresas europeias ou norte-americanas!”, insiste o professor, sublinhando que a presidente Kirchner passa longe dos intervencionismos realizados por Juan Domingo Perón, o modelo evocado pelos “K”. Perón, pelo menos em seu primeiro mandato, criou um Banco de Crédito Industrial, uma Frota Mercante do Estado e a Aerolineas Argentinas. Também nacionalizou o Banco Central, as estradas de ferro, a telefonia, a eletricidade, o gás...




1 Citado por Raúl Zibechi, “Globalización o burguesía nacional” [Globalização ou burguesia nacional], Alai.net, 9 out. 2003.
2 Ler Carlos Gabetta, “Crise totale en Argentine”, Le Monde diplomatique, jan. 2002.
3 Do nome de Juan Domingo Perón, presidente argentino de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974. Seu primeiro mandato encarnou uma forma de nacionalismo político, caracterizado por uma forte intervenção do Estado na economia.
4 Ler “En Argentine, occuper, résister, produire!” [Na Argentina, ocupar, resistir, produzir!], Le Monde diplomatique, set. 2005.
5 Ler Manuel Riesco, “Séisme sur les retraites en Argentine et au Chili” [Terremoto nas aposentadorias  na Argentina e no Chile], Le Monde diplomatique,dez. 2008.
6 Artigo a ser publicado, cujo título é “Croissance et inflation en Argentine sous les mandatures Kirchner” [Crescimento e inflação na Argentina sob os mandatos Kirchner], em Problèmes d’Amérique Latine, Paris, n.82, out. 2011.
7 Segundo o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), a pobreza  atingiria cerca de 30% da população.

Cécile Raimbeau – Jornalista, autora de Argentine rebelle, un laboratoire de contre-puvoirs, Paris, Éditions Alternatives, 2006 – 30.09.2011
IN “Le Monde Diplomatique Brasil” – http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=1027