segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pensando América Latina com Raúl Prebisch


O protagonismo do Estado até a década de 1970, com raízes no pensamento keynesiano e de Prebisch, tinha guiado o desenvolvimento na América Latina através do impulso à diversificação produtiva, a industrialização e, em alguns casos, a construção de um mercado de trabalho organizado e de emprego com direitos.

Alicia Bárcena y Antonio Prado 
Raúl Prebisch (1901-1986) Economista argentino, dirigiu a Cepal desde sua fundação em 1948. Com Celso Furtado promoveu teoria do planejamento estratégico para o desenvolvimento com base nos abundantes recursos nacionais.
“Antes de pensar, observe”, recomendava o senhor Raúl Prebisch em uma de suas frases mais emblemáticas. Esta ideia, que representa um desafio para os que interpretam a América Latina de seu tempo, mantém grande vigência hoje na hora de enfrentar os problemas atuais de nossa região.
Até a crise dos anos 1930, o paradigma do pensamento liberal tinha dominado os corações e as mentes dos formuladores e gestores das políticas econômicas da América Latina. O protagonismo do Estado até a década de 1970, com raízes no pensamento keynesiano e de Prebisch, tinha guiado o desenvolvimento na América Latina através do impulso à diversificação produtiva, a industrialização e, em alguns casos, a construção de um mercado de trabalho organizado e de emprego com direitos.


Alicia Bárcena y Antonio Prado – Secretaria executiva e secretario executivo adjunto da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) – 07.09.2013
IN Revista Diálogos do Sul.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Os muitos perdedores da América


Packer nos mostra que os Estados Unidos ainda são uma superpotência, porém seus problemas já deixaram de ser um traço isolado no gráfico. Segundo ele, quem nasceu por volta de 1960 "viu estruturas que estavam no seu lugar desde antes do seu nascimento entrarem em colapso como colunas de sal através da vasta paisagem".

Robson Viturino
 Ao longo de três décadas, Dean Price viu caírem, uma a uma, suas esperanças no sonho americano. Inflamado por discursos de Ronald Reagan e livros de autoajuda, ele perseguiu durante boa parte da vida a ideia de que no seu país as oportunidades existiam - e eram fartas - para todos. O mundo mudou rápido, mas a ficha de Price caiu cruel e lentamente. Depois da passagem frustrante por uma grande corporação, ele decidiu se tornar empreendedor. Seria o início de uma bela história, não tivesse o seu país mudado tanto.
Como muitos americanos retratados no ambicioso "Unwinding: An Inner History of a New America" (Farrar, Straus and Giroux, 448 págs., US$ 16,20), do jornalista George Packer, Price é um homem que caiu do cavalo. Ele é um dos milhões de cidadãos comuns para quem o sonho fica a cada dia mais vaporoso. Ao seu lado, estão fazendeiros quebrados, órfãos de fábricas fechadas, comerciantes esmagados pelo Walmart, "associados" que ganham uma miséria por hora e não têm benefícios trabalhistas, além de pobres desdentados e obesos lotados em comunidades tomadas por viciados em crack.
É, sim, um novo país, Packer insiste em nos dizer com suas histórias tristes e comoventes. Aclamado pela crítica nos Estados Unidos, "Unwinding" recebeu em novembro o National Book Award na categoria não ficção (a Companhia das Letras prepara sua tradução e deve lançá-lo no Brasil no próximo semestre). Que ele tenha levado um dos prêmios literários mais concorridos do país não chegou a ser uma novidade. Packer é um jornalista experiente que escreve sobre política externa para a revista "New Yorker" e também autor de um importante livro sobre a guerra no Iraque.



Robson Viturino – Repórter, de Chicago – 20,21 e 22 de dezembro de 2013
IN Valor Econômico. 



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Amizade a conta-gotas


para sentir mais, e nos sentirmos mais donos da própria personalidade, nós nos conectamos. Mas, em nossa busca apressada pela conexão, fugimos da solidão, da nossa capacidade de nos separar da multidão e organizar o próprio indivíduo. Sem capacidade de suportar a solidão, nos voltamos para outras pessoas, sem no entanto vivenciá-las como realmente são. É como se as usássemos, como se precisássemos delas como peças capazes de sustentar nosso ser, cada vez mais frágil.

Sherry Turkle  
Vivemos num universo tecnológico no qual estamos sempre nos comunicando. Mas parece que estamos sacrificando a conversa plena em nome de uma mera conexão.
Em casa, as famílias se sentam juntas e ao mesmo tempo mandam mensagens de texto e leem e-mails. No trabalho, executivos trocam SMS no meio das reuniões. Enviamos mensagens (além de fazer compras e atualizar o Facebook) durante as aulas e até encontros românticos. Meus alunos me contaram sobre uma nova habilidade: olhar nos olhos da pessoa enquanto digitamos uma mensagem no celular para outra; é difícil, mas não impossível.
Nos últimos 15 anos, estudei tecnologias móveis e conversei com centenas de pessoas sobre suas vidas plugadas. Aprendi que os pequenos aparelhos que carregamos são tão poderosos a ponto de mudarem não apenas o que fazemos, mas quem somos.
Nós nos acostumamos a uma nova situação: estar “juntos sozinhos”. Munidos da tecnologia, podemos estar em contato com qualquer um, em qualquer lugar, conectados ao ambiente que desejarmos. Queremos personalizar nossas vidas. Queremos entrar e sair de onde quer que estejamos. E com isso, nos acostumamos a estar em uma tribo de uma pessoa só, leais ao nosso próprio partido.
Colegas de trabalho querem participar das reuniões, mas só prestam atenção no que lhes interessa. Para alguns, é uma boa ideia, mas é possível que acabemos nos escondendo, mesmo constantemente conectados.

(...)





Sherry Turkle – Psicóloga, professora do MIT e autora de Alone Together - 22.05.2012
Reproduzido do suplemento “Link” do Estado de S.Paulo, 21.05.2012; tradução de Augusto Calil.
IN “Observatório de Imprensa”, edição 695.