sábado, 15 de agosto de 2015

Não foi por decisão de Dilma que o gasto cresceu, diz Schymura


Luiz Guilherme Schymura – “Não tenho nenhuma prova concreta de que desacertos com a ‘nova matriz’ tenham causado a queda do PiB potencial”.

Cristiano Romero
O que provocou a forte desaceleração da economia não foi a “nova matriz macroeconômica” adotada pelo governo da presidente Dilma Rousseff. A queda do PIB está relacionada ao menor ritmo do crescimento da economia mundial e, principalmente, a um problema fiscal que, nos anos do governo Lula, foi “disfarçado” pelo aumento constante da arrecadação tributária.
O diagnóstico é de Luiz Guilherme Schymura, diretor do prestigioso Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), o “think tank” mais antigo do país, fundado em 1951 por três expoentes do pensamento liberal nacional: Eugenio Gudin, Alexandre Kafka e Roberto Campos. PhD pela EPGE, a escola de pós-graduação da FGV do Rio, há tempos Schymura vem destoando da opinião média de seus colegas liberais.
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Luiz Guilherme Schymura – Economista, Diretor do Ibre.
 Cristiano Romero – 07.08.2015
IN Valor Econômico, ed. impressa. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

São Paulo, 2015: sobre a guerra



Policiais e irmãos do PCC vivem em guerra cotidiana há 20 anos, na São Paulo democrática, ciclística, cosmopolita. Quero argumentar que esta constatação certamente não haveria de ser tão “estraga prazeres”, se o crime e o policiamento não se expandissem tanto, junto com a vigilância privada, como mercados cada vez mais lucrativos. Se um milhão de homens pobres das periferias de São Paulo não tivessem passado pelas prisões paulistas nesses últimos 20 anos – com suas famílias imediatas (pais, filhos, esposas) esse milhão de ex-presidiários pretos e pardos compõem hoje, só no estado de São Paulo, 10% da população. E, por fim, se percebêssemos que foi desde que se instalou a política de encarceramento massivo em São Paulo (em 1995, tínhamos 45 mil presos; hoje, em 2015, a cifra excede os 210 mil) que o conflito entre as partes não tivesse se tornado tão forte.



Gabriel de Santis Feltran.
Demorei, mas depois de quinze anos fazendo pesquisa nas periferias de São Paulo, compreendi que não temos apenas um sistema de justiça, nem apenas uma lei, operando em São Paulo. Que não temos uma democracia, nem uma ditadura, nem vivemos no totalitarismo neoliberal, mas que temos todos esses regimes coexistindo, a depender do recorte na população que se observe, e das diferentes situações que se apresentam a eles. O fato da lei do Estado ser formalmente democrática não impede que uma parcela da população viva em guerra, e creio que essa guerra tem se alastrado para camadas cada vez mais amplas da população.
Depois de estudar durante alguns anos o senso de justiça do Primeiro Comando da Capital (PCC) – nas favelas em que trabalhei, mas também nas universidades, e ainda escutando Racionais e Sabotage, ou lendo Luiz Antonio Machado da Silva – entendi, por exemplo, que a polícia de São Paulo não mata qualquer um, nem qualquer preto, exceto em tempos de guerra – como as que cobriram o território do estado em maio de 2006 ou meados de 2012, ou a que se instalou em Jandira em 28 de abril de 2015, e que boa parte da classe média sequer notou.
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Gabriel de Santis Feltran – Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisador do CEM e do CEBRAP. Coordenador do projeto do CEM “As margens da cidade” e do do NaMargem – Núcleo de Pesquisas Urbanas– 16.06.2015
IN Blog da Boitempo.

domingo, 9 de agosto de 2015

Geografia e estratégia


Esta nova situação obriga o Brasil a redefinir ´inevitavelmente  -  sua estratégia, e o cálculo de custos do seu próprio projeto de integração regional, incluindo a ocupação dos “espaços vazios” da América do Sul, e da “conquista” do seu acesso ao Oceano Pacífico e ao Mar do Caribe. Este tem que ser o ponto de partida do debate sobre a Unasul e o Mercosul, e sobre o fortalecimento da soberania política e econômica do continente, incluindo, como é óbvio, os países sul-americanos da Aliança do Pacífico.

José Luis Fiori
 “O Brasil terá que  descobrir um novo caminho de afirmação da sua liderança e do seu poder internacional, dentro e fora de sua zona de influência imediata. Um caminho  que não siga o mesmo roteiro das grandes potências do passado, e que não utilize a mesma arrogância e a mesma  violência que utilizaram os europeus e os norte-americanos para conquistar suas colônias e protetorados”
(J.L.Fiori, “História, Estratégia e Desenvolvimento. Para uma Geopolítica do Capitalismo”, Editora Boitempo, SP, 2014, p: 279).

A geografia teve um papel decisivo na formação e no desenvolvimento político e econômico da América do Sul.  Por um lado, ela permitiu e estimulou a formação de um região geopolítica e geoeconômica plana, homogênea, de alta fertilidade e de crescimento econômico quase contínuo na Bacia do Prata; mas, ao mesmo tempo, ela  impediu que os países e a economia do Prata – incluindo o Brasil - se expandissem na direção da Amazônia, do Caribe e do Pacífico.
No caso do Brasil, em particular, a topografia do seu território atrasou a sua própria interiorização demográfica e econômica, e enviesou os seus processos de urbanização, crescimento e internacionalização, na direção do Atlântico. A  Floresta Amazônica, com suas planícies tropicas de baixa fertilidade e alto custo de exploração, dificultou a sua própria ocupação, e bloqueou o caminho do Brasil  na direção da Venezuela, Guiana, Suriname, e Mar do Caribe. O Pantanal e o Chaco boliviano, com suas montanhas e florestas  tropicais limitaram a presença do Brasil nos territórios entre a  Guiana e a Bolívia; e  a Cordilheira dos Andes, com seus 8 mil km de extensão e 6.900 metros de altitude, obstruiu o acesso do Brasil ao Chile e ao Peru, e o que é ainda mais importante, ao Oceano Pacífico com todas as suas  conexões asiáticas. 
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José Luís Fiori – Professor de Economia Política da UFRJ – 30.12.2014
IN Valor Econômico, ed. Impressa.