quinta-feira, 8 de outubro de 2015

PSDB e movimentos de rua devem tomar posição sobre Eduardo Cunha


FERNANDO LIMONGI – “Tem um exagero antipetista. Se olharmos a coisa da corrupção que a Lava Jato desvenda, de um lado não tem nada novo. Se olhar o que foi, são as mesmas empresas envolvidas no impeachment do Collor. Se olhar o [escândalo] do orçamento dos anões [de 1993] são as mesmas empreiteiras e a mesma forma de agir, e a forma como elas geram sua própria demanda. Trabalham pelos seus contratos e financiam o sistema político. Isso desde a redemocratização. Então como eu regulo esse mercado? Como ter mercado de obras do Estado que não seja tão corrupta? As doações de campanha financiaram tanto a Dilma quanto o Aécio Neves.

Carla Gimenez
O professor da Universidade de São Paulo, Fernando Limongi, concedeu uma entrevista por telefone ao EL PAÍS há um mês para avaliar o cenário político, mas considerou que era melhor falar de novo. “Está tudo mudando muito rápido e o que falei antes já não vale mais”, disse ele, resumindo um pouco do quadro brasileiro, que vive no sobressalto da crise política de Brasília. Doutor pela Universidade de Chicago, Limongi entende que a fraqueza do Governo Dilma garantiu espaço a uma certa hipocrisia, ao colocar o PT no centro de todas as responsabilidades por atos ilícitos.

Pergunta. É possível ter um diagnóstico preciso sobre o quadro político neste momento?
Resposta. Há um jogo em curso difícil de decifrar porque não se fecham alianças. Há uma possibilidade de uma força de oposição se consolidar e derrubar a Dilma. Há outra, que é ela conseguir montar uma base mais ou menos e funcionar. Mas o principal que aparece continua a ser um movimento extremamente radicalizado peloimpeachment, com raiz fora do sistema político, que são esses movimentos organizados, com uma base estranha, apoio externo. Isso não acontece só no Brasil. Tem uma coisa de direita forte em toda a América Latina. Tem apoio do establishment, de um jeito doentio. Irracional e totalmente despropositada. O PT não é tudo isso que estão pintando. Ele não vai socializar os meios de produção. Ele já está fazendo política neoliberal, como já foi feita no passado.
(...)







Carla Gimenez – 05.10.2015
Fernando Limongi – Cientista político e professor da USP.
IN El País Brasil.



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Quando a periferia será o lugar certo, na hora certa?


A maior chacina de 2015, em São Paulo, mostra que as palavras começam a matar antes da morte e seguem assassinando os vivos depois.

  
Eliane Brum
As fotos do 13 de agosto mostram mulheres lavando o sangue dos mortos com rodo, como nos filmes B de terror. Se o rio vermelho escorre pelos degraus, as palavras ecoam para além da extensa fila de cadáveres. Elas matam lentamente, como balas em câmera lenta, que perfuram os corpos, se espatifam por dentro e vão corroendo os órgãos. Dia após dia, dia após dia, dia após dia. Mata-se e morre-se também na linguagem. As palavras silenciam os mortos para além da morte. E calam os vivos, mesmo quando eles pensam gritar.
1) “Estava no lugar errado, na hora errada”
“Ele nunca teve nada a ver com crime. Era pacato, de família.Estava no lugar errado na hora errada. O nome Deivison foi porque meu pai gostava das motos Harley-Davidson.”
(Jorge Henrique Lopes Ferreira, 31, técnico de celulares, sobre o irmão, Deivison Lopes Ferreira, 26, assassinado em 13 de agosto. O pai de ambos foi assassinado há 18 anos, no mesmo bairro, da mesma maneira, num crime jamais esclarecido.)
“O Thiago estava desempregado havia um mês, mas era uma pessoa excelente e infelizmente estava na hora errada, no lugar errado.”
(Alessandra de Lima, 37, dona de casa, sobre o irmão Thiago Marcos Damas, 32, assassinado.)
“Eu vou ter de voltar à normalidade, seguir a minha vida. Perdi um companheiro e um amigo. Por mais que eu queira, infelizmente não posso mudar de casa. Foi o caso de estar no lugar errado e na hora errada.”
(Jean Fábio Lopes, 34, ajudante em lanchonete, sobre o companheiro, Eduardo Oliveira dos Santos, 41, artesão, assassinado)
“Foi muito rápido e muito trágico. Estava no lugar errado e na hora errada.”
(Alberto Martins, sobre o irmão, Fernando Luiz de Paula, 34, pintor, assassinado)
“Estava no lugar errado e na hora errada” foi o comentário mais frequente dos familiares dos 18 mortos, seis feridos, na periferia deOsasco e Barueri, na Grande São Paulo, na maior chacina de 2015. A expressão dá conta de uma máxima: “na periferia há preto ladrão, branco ladrão e aquele que está no lugar errado e na hora errada”. A frase também culpa, ainda que indiretamente, aquele que morre.
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Eliane Brum – Escritora, repórter e documentarista – 19.08.2015.
IN El País Brasil.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O paradoxo e a insensatez


nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos Estado e menos política”. (...)
É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo” entender que não existe vida econômica sem política e sem Estado. É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo Estado.


José Luís Fiori
“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim: Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós-doutorado, trabalha num lugar com ar-condicionado, com vista para o Cristo Redentor. Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado.” Luiz G. Schymura, “Não foi por decisão de Dilma que o gasto cresceu”, Valor, 7/8/2015.
Duas coisas ficaram mais claras nas últimas semanas, com relação à tal da “crise brasileira”. De um lado, o despudor golpista, e de outro, a natureza ultraliberal do seu projeto para o Brasil.
Do ponto de vista político, ficou claro que dá absolutamente no mesmo o motivo dos que propõem um impeachment, o fundamental é sua decisão prévia de derrubar uma presidente da República eleita por 54,5 milhões de brasileiros, há menos de um ano, o que caracteriza um projeto claramente golpista e antidemocrático, e o que é pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral.
Talvez, por isto mesmo, nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos Estado e menos política”.
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José Luís Fiori professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – 25.09.2015.
IN Valor Econômico, ed. Impressa (republicado no Portal Vermelho).