sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Repórter não é polícia; imprensa não é justiça


É um bom momento para a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa – uma imprensa que não admite qualquer limite ou regra, e se coloca acima das demais instituições para investigar, denunciar, acusar e julgar quem bem lhe convier.

Ricardo Kotscho
Ao voltar de Barretos, o meu correio eletrônico já estava entupido de mensagens de amigos e leitores comentando e me pedindo para comentar a reportagem da revista Veja sobre as “atividades clandestinas” do ex-ministro José Dirceu, um dos denunciados no processo do “mensalão”, que tramita no Supremo Tribunal Federal e ainda não tem data para ser julgado.
Só agora, no começo da tarde de segunda-feira [29/8], consegui ler a matéria. Em resumo, como está escrito na capa, sob o título “O Poderoso Chefão”, ao lado de uma foto em que Dirceu aparece de óculos escuros e sorridente, a revista afirma:
“O ex-ministro José Dirceu mantém um “gabinete” num hotel de Brasília, onde despacha com graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma”.
A sustentar a grave “denúncia”, a revista publica dez reproduções de um vídeo em que, além de Dirceu, aparecem ministros, parlamentares e um presidente de estatal entrando ou saindo do “bunker instalado na área vip de um hotel cinco estrelas de Brasília, num andar onde o acesso é restrito a hóspedes e pessoas autorizadas”.
Nas oito páginas da “reportagem” – na verdade, um editorial da primeira à última linha, com mais adjetivos do que substantivos – não há uma única informação de terceiros que não seja guardada pelo anonimato do off ou declaração dos “acusados” de visitar o bunker de Dirceu confirmando a tese da Veja.
Perguntas sem respostas
Fiel a uma prática cada vez mais disseminada na grande mídia impressa, a tese da conspiração de Dirceu contra o governo Dilma vem antes da apuração, que é feita geralmente para confirmar a manchete, ainda que os fatos narrados não a comprovem.
Para dar conta da encomenda, o repórter se hospedou num apartamento no mesmo andar do ex-ministro. Alegando ter perdido a chave do seu apartamento, pediu à camareira que abrisse o quarto de Dirceu e acabou sendo por ela denunciado ao segurança do hotel Naoum Plaza, que registrou um boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial de Brasília, por tentativa de invasão de domicílio.
Li e reli a matéria duas vezes e não encontrei nenhuma referência à origem das imagens publicadas como “prova do crime”, o primeiro dos mistérios suscitados pela publicação da matéria. O leitor pode imaginar que as cenas foram captadas pelas câmeras de segurança do hotel, mas neste caso surgem outras perguntas:
** Se o próprio hotel denunciou o repórter à polícia, segundo O Globo de domingo, quem foi que lhe teria cedido estas imagens sem autorização da direção do Naoum?
** Se foi o próprio repórter quem instalou as câmeras, isto não é um crime que lembra os métodos empregados pela Gestapo e pelo império midiático dos Murdoch?
** As andanças pelo hotel deste repórter, que se hospedou com o nome e telefone celular verdadeiros, saiu sem fazer check-out e voltou dando outro nome, para supostamente entregar ao ex-ministro documentos da prefeitura de Varginha, são procedimentos habituais do chamado “jornalismo investigativo”?
As dúvidas se tornam ainda mais intrigantes quando se lê o que vai escrito na página 75 da revista:
“Foram 45 horas de reuniões que sacramentaram a derrocada de Antonio Palocci e durante as quais foi articulada uma frustrada tentativa do grupo do ex-ministro de ocupar os espaços que se abririam com a demissão. Articulação minuciosamente monitorada pelo Palácio do Planalto, que já havia captado sinais de uma conspiração de Dirceu e de seu grupo para influir nos acontecimentos que ocorriam naquela semana [6,7 e 8 de junho, segundo as legendas das fotos] – acontecimentos que, descobre-se agora, contavam com a participação de pessoas do próprio governo”.
A afirmações contidas neste trecho suscitam outras perguntas.
** Como assim? Quem do governo estava conspirado contra quem do governo?
** Por acaso a revista insinua que foi o próprio governo quem capturou as imagens e as entregou ao repórter da Veja?
** Por que a reportagem/editorial só publica agora, no final de agosto, fatos ocorridos e imagens registradas no começo de junho, no momento em que o diretor de Redação da revista está de férias?
Boa lembrança
Só uma coisa posso afirmar com certeza, depois de 47 anos de trabalho como jornalista: matéria de tal gravidade não é publicada sem o aval expresso dos donos ou dos acionistas majoritários. Não é coisa de repórter trapalhão ou editor descuidado.
Ao final da matéria, a revista admite que “o jornalista esteve mesmo no hotel, investigando, tentando descobrir que atração é essa que um homem acusado de chefiar uma quadrilha de vigaristas ainda exerce sobre tantas autoridades (...) E conseguiu. Mas a máfia não perdoa”.
Conseguiu? Há controvérsias... No elenco de nomes apresentados pela revista como frequentadores do “aparelho clandestino” de Dirceu, no entanto, não encontrei nenhum personagem que seja publicamente conhecido como inimigo do ex-ministro Antonio Palocci.
O texto todo foi construído a partir de ilações e suposições para confirmar a tese – não de informações concretas sobre o que se discutiu nestes encontros e quais as consequências efetivas para a queda de Palocci.
Não tenho procuração para defender o ex-ministro José Dirceu, nem ele precisa disso. Escrevo para defender a minha profissão, tão aviltada ultimamente pela falta de ética de veículos e profissionais dedicados ao vale-tudo de verdadeiras gincanas para destruir reputações e enfraquecer as instituições democráticas.
É um bom momento para a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa – uma imprensa que não admite qualquer limite ou regra, e se coloca acima das demais instituições para investigar, denunciar, acusar e julgar quem bem lhe convier.
Diante de qualquer questionamento sobre as responsabilidades de quem controla os meios de comunicação, logo surgem seus porta-vozes para denunciar ameaças à liberdade de imprensa.
Calma, pessoal. De vez em quando, convém lembrar que repórter não é polícia e a imprensa não é justiça, e também não deveria se considerar inimputável como as crianças e os índios. Vejam o que aconteceu com Murdoch, o ex-todo-poderoso imperador. Numa democracia, ninguém pode tudo.


Ricardo Kotscho – Jornalista – 29.08.2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ricos pagam pouco


A Ascensão da nova classe média seria ainda mais facilitada se a carga tributária brasileira parasse de privilegiar o consumo, e focasse a renda. Uma carga focada no consumo, ou seja, embutida em produtos, é mais sentida por quem ganha menos.

Vladimir Safatle
Há alguns dias, uma pesquisa veio mostrar o que todos aqueles que realmente se preocupam com reforma tributária no Brasil sabem: os ricos pagam pouco imposto.
Quem recebe R$ 3.300 por mês, leva para casa, descontados Imposto de Renda e Previdência, 84% do seu salário. Já alguém que ganha R$ 26.600 por mês, leva 74%.
Um profissional holandês, por exemplo, pode contar apenas com 55% de seu salário, e mesmo um norte-americano traz para casa menos que um brasileiro: 70%.
Ao mesmo tempo em que descobríamos a vida tranquila dos ricos brasileiros, chega a notícia de que a quantidade de milionários no Brasil aumentou 5,9% em 2010, atingindo a marca de 115,4 mil pessoas com fortuna de, ao menos, US$ 1 milhão.
O que não deveria nos surpreender. Afinal, vivemos em um país onde o processo de concentração de renda está tão institucionalizado que as classes mais abastadas têm um sistema de defesa de seus rendimentos sem par em outros países industrializados.
Dentro de alguns anos, a chamada nova classe média descobrirá que não conseguirá mais continuar sua ascensão social. Entre outras coisas, ela tomará consciência de como seu orçamento é brutalmente corroído por despesas com educação e saúde.
Um Estado preocupado com seu povo taxaria os ricos e as grandes fortunas a fim de ter dinheiro suficiente para criar um verdadeiro sistema público de educação e saúde.
Por que não criar, por exemplo, um imposto sobre grandes fortunas vinculado exclusivamente à educação? Isto permitiria que essa nova classe média continuasse sua ascensão social.
Tal ascensão seria ainda mais facilitada se a carga tributária brasileira parasse de privilegiar o consumo, e focasse a renda. Uma carga focada no consumo, ou seja, embutida em produtos, é mais sentida por quem ganha menos.
Há pouco, um estudo mostrou como o 0,1% mais bem pago no Reino Unido recebia, em 1979, 1,3% dos salários.
Hoje, recebe 5% e, em 2030, deve receber 14%.
Costuma-se dizer que uma das maiores astúcias do Diabo é nos convencer de que ele não existe. Uma das maiores astúcias do discurso conservador é nos convencer, diante de dados dessa natureza, de que conflito de classe é um delírio de esquerdista centenário.
Mesmo que vejamos um processo brutal de concentração de renda institucionalizado e intocado por qualquer partido que esteja no poder, mesmo que vejamos a tendência de espoliação dos recursos de países industrializados por camadas mais ricas da população, tudo deve ser um complô dos incompetentes contra aqueles que bravamente venceram na vida graças apenas a seu entusiasmo e capacidade visionária, não é mesmo?


Vladimir Safatle – Filósofo e Professor da FFLCH/USP – 28.06.2011
IN “Folha de São Paulo” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2806201106.htm         

sábado, 8 de outubro de 2011

Activistas ocupan las dos cabezas de la bestia: Wall Street y Washington



A la protesta contra la avaricia de los financieros se suma la demanda de terminar con las guerras
Expresan las frustraciones que siente el pueblo estadunidense, comentó Barack Obama


David Brooks
 Nueva York, 6 de octubre. El nivel de las protestas contra la injusticia económica y el poder del sector financiero sobre el sistema político estadunidense se elevó con la concurrencia de los sindicatos a este esfuerzo y la multiplicación de las protestas por el país –incluyendo la instalación de otro plantón hoy en Washington–, y provocó que hasta el presidente Barack Obama se viera obligado a comentar sobre Ocupa Wall Street.
En Washington, varios cientos llegaron a la Plaza Libertad, cerca de la Casa Blanca, para comenzar un plantón de tiempo indefinido, organizado desde hace seis meses por diversas agrupaciones antibélicas y comunitarias, para demandar el fin de las guerras (es el inicio del undécimo año del conflicto armado en Afganistán) y la generación de empleo y apoyo social, demandas que no eran la idea inicial, pero que ahora se suman a las crecientes acciones relacionadas con Ocupa Wall Street por todo el país.
Algunos participantes dicen que con la acción en la capital, ahora están ocupadas las dos cabezas de la bestia: Wall Street y Washington.
Así, con la sorpresiva erupción de Ocupa Wall Street en Nueva York y decenas de ciudades más, se genera lo que un activista llamó una confluencia de manifestaciones planeadas y no planeadas por el país.
La movilización empieza a llamar la atención de las cúpulas políticas. En su conferencia de prensa de hoy, se le preguntó a Obama si estaba enterado del movimiento Ocupa Wall Street. “Obviamente sé de eso –respondió–. Lo he visto en televisión. Creo que expresa las frustraciones que siente el pueblo estadunidense”.
Agregó: creo que la gente está frustrada y los manifestantes dan voz a una frustración sobre cómo funciona nuestro sistema financiero. Indicó que los manifestantes sienten que Wall Street no ha seguido las reglas y que esa frustración se expresará políticamente en 2012 y más.
Que el presidente se haya visto obligado a abordar el asunto demuestra que Ocupa Wall Street, que surgió de una acción poco organizada de unos cientos de estudiantes, se está transformando en asunto de la agenda nacional. De hecho, algunos legisladores federales liberales recientemente han expresado apoyo al movimiento, como los representantes Raúl Grijalva y Keith Ellison.
Mientras tanto, algunos candidatos presidenciales republicanos también han tenido que responder ante el movimiento, Mitt Romney, el que acusa de promover la guerra de clases.

De Filadelfia a Anchorage
Manifestantes vinculados con Ocupa Wall Street marcharon en varias ciudades, entre ellas Filadelfia, Salt Lake City, en Utah, hasta Anchorage, en Alaska, coreando las denuncias contra la avaricia empresarial y la corrupción de la política por los dueños del dinero.
En Los Ángeles, unos mil manifestantes marcharon por el centro financiero de la ciudad acompañados por agremiados del sindicato de servicios SEIU y organizaciones comunitarias. Coreaban: Desde Nueva York a Los Ángeles, ocupa EU, y Dinero para empleos, no para bancos, reportó Elizabeth Coll, colaboradora de La Jornada. Se detuvieron frente a sucursales de Citibank, Bank of America y Chase coreando en inglés y español. Una docena fueron detenidos al ingresar a una sucursal de Bank of America en la calle Figueroa y ocupar el vestíbulo. A la vez, varios se plantaron en un cruce de calles en el centro, durante una hora. Unos 100 permanecen acampados a un lado de la alcaldía.
En Washington, cientos marcharon a la Cámara de Comercio de Estados Unidos, frente a la Casa Blanca y el Departamento de Tesoro, y se identificaron, como en todas estas acciones, como representantes del ‘’99 por ciento” que sufre a manos del uno por ciento más rico (ver: october2011).
Aquí en Nueva York, la Plaza Libertad está cada vez más llena de diversidad de caras, tanto jóvenes como maduras, mientras se escuchan multiplicidad de acentos, que pintan un mosaico muy diferente al casi monótono de los jóvenes blancos universitarios con el que comenzó esta acción el 17 de septiembre.
Como prueba de lo anterior, hoy se anunció que el domingo se realizará la primera asamblea general en español. Hasta ahora Ocupa Wall Street ha hablado sólo en inglés. Es hora de que empiece a tejer y hacerse escuchar también en español. Somos millones. Somos parte del 99 por ciento, se anunció.
Como casi todos los días, hoy se celebró un foro en la plaza con un invitado, en esta ocasión se presentó Naomi Klein, autora de No Logo y la Doctrina Shock, y articulista (colaboradora de La Jornada), ante cientos de asistentes. Utilizando el sistema de micrófono humano para superar la prohibición de recurrir a sistemas de amplificación, sus palabras fueron repetidas a coro para que todos lograran escuchar.
“Al uno por ciento le encantan las crisis porque es justo durante una crisis, en medio del pánico y el miedo, que puede promover sus deseos… como la privatización de la educación o reducir el seguro social”, explicó Klein. Indicó que todos podemos ver que el sistema está fuera de control, e insistió en que los daños al planeta y a las grandes mayorías sólo se pueden frenar con un movimiento masivo y un cambio de los valores básicos de nuestra cultura. Y aseguró que eso es lo que está sucediendo en esta plaza. Señaló que el mundo entero ha estado esperando que nosotros aquí libremos nuestra lucha.
Mañana está programada la presentación de activistas del movimiento en Grecia.

Nuevos actores: Yoko Ono
La lista de personalidades famosas que asisten continúa en ascenso. Yoko Ono tuiteó su apoyo: “Amo #OccupyWallStreet. Como dijo John, ‘un héroe no lo puede lograr. Cada uno de nosotros tenemos que ser héroes’. Y ustedes lo son. Gracias”, reportó el Washington Post.
El actor Tim Robbins pasó por la Plaza Libertad anoche, y dijo al Financial Times: “esto es como se ve un movimiento de base real… un poco desordenado y desorganizado, pero lleno de pasión”.
Otros que han acudido y/o expresado su apoyo son Michael Moore, el actor Mark Ruffalo y la actriz Susan Sarandon, entre muchos más.


David Brooks – 07.10.2011
IN “La Jornada”http://www.jornada.unam.mx/2011/10/07/economia/029n1eco