quarta-feira, 4 de julho de 2012

Por que o futuro da Europa é importante?



Num cenário conturbado, Grécia e França empurram continente à esquerda, pressionando Alemanha. Se esta ceder, toda conjuntura global mudará.

Immanuel Wallerstein
As eleições nos sistemas parlamentares ocidentais sempre têm a ver com o centro. A situação mais comum é aquela em que existem dois partidos dominantes – um mais à direita e outro mais à esquerda do centro. Existem diferenças entre as políticas que esses partidos colocam em prática quando estão no poder, mas também enormes semelhanças. A eleição nunca expressa uma divisão política profunda. Seu papel é, em vez disso, o de de redefinir e relocalizar o centro – o ponto de alavanca, na gangorra entre os partidos.
Uma situação muito mais rara é o repúdio ao centro e, portanto, aos dois partidos – anteriormente principais – que se posicionam próximos ao ponto central. Esse resultado joga as políticas nacionais em um grande turbilhão, o que por vezes tem impactos consideráveis fora do país.
As últimas eleições na França e na Grécia ilustram bem essas duas situações. Na França, os socialistas derrotaram o partido conservador UMP, e deslocaram o centro. Num cenário caótico do sistema-mundo, e particularmente na União Europeia, o deslocamento o centro na França terá grande impacto. Mas não espere que as políticas reais de François Hollande sejam radicalmente diferentes daquelas de Nicolas Sarkozy.
Na Grécia, aconteceu o contrário. O centro foi dramaticamente repudiado. Os dois maiores partidos – o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok – perderam mais de metade dos votos que normalmente obtinham. Somados, caíram de aproximadamente 2/3 para 1/3 do eleitorado. O Pasok despencou para o terceiro lugar, ultrapassado por uma coalizão de partidos mais à esquerda, a Syriza, considerada a grande vencedora da eleição. O tema central das eleições foi o programa de austeridade imposto à Grécia pelas forças estrangeiras, e mais fortemente pela Alemanha. Todos os partidos, exceto os dois tradicionalmente maiores, anunciavam repúdio às medidas de austeridade. O líder da Syriza, Alexis Tsirpas, afirmou que os resultados da eleição anulam o comprometimento do governo anterior com o programa de austeridade.
O que acontecerá nos próximos meses? Na Grécia, como os três partidos com mais votos – Nova Democracia, Syriza e Pasok – não conseguiram formar um governo, haverá novas eleições [em 17/6]. A Syriza pode até ser o primeiro colocado, no próximo pleito. Como o governo grego não receberá mais apoio internacional, não conseguirá pagar os empréstimos. O ministro de relações exteriores da Alemanha já ameaçou uma expulsão da zona do euro. Porém, não existe forma legal de fazer isso. E como a população grega parece pensar que sair da zona do euro não resolveria nada e provavelmente pioraria a situação, haverá um impasse. Os gregos irão sofrer muito. Mas muitos bancos europeus também. Assim como a população alemã, mesmo que esta ainda não esteja consciente disso.
Enquanto isso, haverá novas eleições na França, agora para o Legislativo [em 10 e 17/6]. Analistas preveem uma ampla vitória socialista, porém com significativo contingente de votos para o equivalente francês da Syriza, a Frente de Esquerda. A clara posição de Hollande é que o crescimento europeu deve ter prioridade em relação à austeridade – um desafio direto à posição alemã. Por isso, o centro será ainda mais deslocado para a esquerda.
Os alemães estão agora sob enorme pressão. Existe um descontentamento interno, que leva a perdas eleitorais do partido da chanceler Angela Merkel, o CDU, e sua coalizão neoliberal parceira, a FDP. Os outros partidos social-democratas na Europa foram encorajados pela vitória de Hollande a se moverem de algum modo para a esquerda. Os dois partidos conservadores na coalizão do governo da Itália sofreram perdas graves nas eleições municipais de maio. Também existe pressão dos Estados Unidos sobre a Alemanha, para se mover na direção que Hollande apoia – o que é estranho, porém importante.
Os alemães podem resistir a tudo isso – até 31 de maio, a data do plebiscito irlandês. O governo irlandês é o único membro da zona do euro que depende de um plebiscito para aprovar o novo tratado de austeridade em que Merkel tanto insistiu, com apoio de Sarkozy. As pesquisas sugerem uma disputa acirrada. O governo irlandês está confiante de que poderia ganhar votos em favor do “sim”, mas a vitória de Hollande pode influenciar os eleitores para que o “não” prevaleça, o que anularia o tratado de austeridade. Isso iria enfraquecer a posição alemã ainda mais que o repúdio grego ao centro.
O que acontecerá, então? A chave é o cenário alemão. Angela Merkel, como qualquer líder político, tenta ver para que lado os ventos sopram. Por isso, sua linguagem já começa a evoluir. Pode ser até que, secretamente, ela comemore as pressões externas para fazer o que, do ponto de vista da Alemanha, é a coisa sensata: fortalecer o poder de compra (para produtos alemães, entre outras coisas) no resto da União Europeia.
Se a Alemanha se mover nessa direção, o euro e a União Europeia irão sobreviver, e continuar a ser um grande ator (ainda que chamuscado…) na cena geopolítica. No plano mundial, o deslocamento do centro na Europa como um todo não irá congelar o status quo, mas acelerar os realinhamentos geopolíticos que são inevitáveis. Além disso, o deslocamento do centro na Alemanha pode ajudar a Europa a resistir melhor ao tsunami – de colapso de fundos soberanos e do dólar como moeda de reserva – que se aproxima.
O mundo inteiro está nadando em águas muito agitadas. A Alemanha pode logo se juntar à lista de estados que começam a entender como navegar em meio ao caos. Governos inflexíveis são seus próprios piores inimigos.


Immanuel Wallerstein - 28.05.2012

Publicado por Outras Palavras. Tradução: Daniela Frabasile.












Irlanda votó a los austeros

En un voto del miedo, los irlandeses respaldaron el tratado que rebaja los déficit en la Unión al 0,5 por ciento e impone sanciones al que no cumpla. Merkel expresó su satisfacción, Hollande fue muy reticente.

Pagina 12
Presionados por la posibilidad de no recibir ayuda financiera si no respaldaban los programas fondomonetaristas de Bruselas, los irlandeses apoyaron el pacto de austeridad de la Unión Europea (UE). El plan de control fiscal supranacional, impulsado fuertemente por Alemania, requería la aprobación de 12 de los 17 países de la Eurozona. De acuerdo con los resultados oficiales divulgados ayer sobre el referéndum realizado el jueves, el 60,4 por ciento de los votos apoyó la medida, mientras que los opositores sumaron el 39,6 por ciento de los sufragios, sobre un total de 995 mil votantes, aproximadamente el 50 por ciento del padrón electoral. El tratado aprobado por los irlandeses obliga a los países firmantes a reformar sus constituciones para implantar un límite al déficit al 0,5 por ciento del PBI y a aceptar sanciones cuando superen el tres por ciento del PBI. Con esta adhesión, el país –que fue rescatada en 2010 con una inyección de 85 mil millones de euros y la totalidad de su sistema bancario fue nacionalizado– se compromete, además, a limitar su déficit, lo que demandará, según los detractores del tratado, más sacrificios de las clases sociales pobres.
Tras conocerse los resultados, el primer ministro de Irlanda, Enda Kenny, declaró que el voto por el “sí” envió “una poderosa señal al mundo diciéndole que el país tenía una actitud seria sobre la superación de sus desafíos económicos”. En cuanto a cuál será el próximo paso, Kenny aseguró que la situación del sistema bancario europeo vuelve necesaria una solución de vasto alcance y la deuda bancaria irlandesa debe formar parte de esa solución. Por su parte, Gerry Adams, líder de Sinn Fein, el ex brazo político de la organización separatista IRA y opositor al tratado, aceptó sin cuestionamientos el resultado de la consulta, pero acusó al Ejecutivo de jugar con el temor de la gente.
“En el curso de la campaña, el gobierno hizo una serie de compromisos firmes en cuanto a la eliminación de la carga del rescate bancario de la gente y también sobre el crecimiento e incentivos al empleo. Vamos a reclamar el cumplimiento de esos compromisos”, anticipó resaltando que los problemas que la gente tiene hoy en día seguirán existiendo también mañana.
Los sondeos indicaron que el temor a perder acceso a los fondos de rescate de la UE y del Fondo Monetario Internacional (FMI) para países endeudados fue más fuerte que el enojo de los irlandeses por las medidas neoliberales que les redujeron los salarios y que eliminaron beneficios sociales e incrementaron el desempleo. Del resultado se desprendió que el “sí” obtuvo el apoyo en las áreas rurales y entre la clase media de los centros urbanos, mientras que el “no” tuvo fuerza y se impuso sobre todo en los condados del Norte y en zonas de clase trabajadora. Como también se conoció que de los 63 distritos electorales del país, sólo cinco rechazaron el tratado de la UE.
El desenlace del plebiscito tuvo repercusión internacional. Mientras que el presidente francés, François Hollande, se limitó ayer a “tomar nota de la decisión soberana y democrática del pueblo irlandés” en favor del pacto fiscal, sin hacer valoración alguna del resultado, la canciller alemana, Angela Merkel, mostró su satisfacción ante la noticia. Según fuentes gubernamentales la canciller destacó que el pueblo irlandés merece un reconocimiento especial por su decisión mayoritaria a favor de un pacto que lleva implícitos duros ajustes para la población del país. Asimismo, las instituciones de la UE celebraron ayer el resultado. “Con este voto, los irlandeses han dado su respaldo a su compromiso con la integración europea. El resultado es un paso importante hacia la recuperación y la estabilidad”, señaló el presidente del Consejo Europeo, Herman Van Rompuy, en un comunicado. En sintonía, el presidente de la Comisión Europea, José Manuel Durao Barroso, señaló que el resultado representa un paso significativo hacia su lugar en el corazón de la UE y destacó que el tratado es un elemento clave como la respuesta a la crisis. “Este es un día importante para Irlanda y para la Unión Europea”, aseveró el presidente de la Eurocámara, Martin Schulz.


Editorial Pagina 12 – 02.06.2012

domingo, 1 de julho de 2012

A ordem natural da economia política


Os incômodos causados por Keynes aos que postulam o paradigma da “racionalidade” foi e têm sido consideráveIS. A inexistência de bases “racionais” para a tomada das decisões econômicas cruciais, aproxima perigosamente a economia e suas pretensões científicas do “inferno irracional” que os economistas imaginam cercar as decisões políticas. A economia, transformada num “saber histórico”, converteria os economistas em cidadãos de segunda classe na hierarquia da comunidade científica. 

Luiz Gonzaga Belluzzo
Na antiguidade clássica e na idade média, argumenta Hegel na Fenomenologia do Espírito , a subjetividade estava completamente submetida a uma ordem “objetiva”, imutável e implacável do mundo. Esta cosmologia estava presente na religião grega, no mundo jurídico romano e, com algumas diferenças, na “ordem revelada” da Idade Média cristã. Mesmo os que, como Heráclito, fundavam sua reflexão sobre o “movimento universal”, viam nele uma sucessão de desdobramentos da natureza e da sociedade que escapavam ou estavam acima da personalidade humana. O destino implacável não era, portanto, uma representação ilusória do movimento do mundo, mas uma forma histórica da consciência dos homens.
Na aurora da Idade Moderna, a expansão do comércio nos poros da ordem feudal, a ciência experimental de Bacon, o “cogito” de Descartes desembaraçaram o sujeito de sua submissão ao mundo objetivo e estimularam o projeto do controle da natureza e do destino humano pela razão. Desde então, o sujeito pretendeu cobrar os seus os seus direitos de dominação, reivindicando o poder de suas Luzes, abominando os obstáculos da tradição ou de tudo lhe figurasse contrário aos princípios de uma ordem natural, desvendada e comandada pela “razão”.
A Economia Política Clássica já estava “contida” no pensamento político e moral inglês do século XVII e na filosofia da Ilustração do século XVIII, que tentavam responder aos desafios colocadas pelo nascimento de uma sociedade de indivíduos, nos interstícios da ordem assegurada pelo Estado Absolutista. Carl Schmitt afirma que ninguém compreendeu tão bem a natureza da sociedade dos indivíduos como Hobbes. Quando Hobbes se refere ao estado de natureza, não está se referindo ao momento de constituição do Estado, mas a um momento em que o Estado está ausente, em que as hordas privadas mergulhavam a sociedade dos indivíduos na guerra civil. Isto o fez concluir que é o medo do aniquilamento que constrange os indivíduos a entregar a própria liberdade aos cuidados do Leviatã.
Para o Hobbes de Schmitt, a visão do estado de natureza como um estado em que os homens conviviam pacificamente, em que o homem era naturalmente bom, só pode surgir em uma sociedade em que o Estado está consolidado, em que a sociedade civil já está submetida às leis emanadas do Soberano. A visão do bom selvagem, do homem predisposto ao contrato com o outro, como Locke a formula, pressupõe o Estado já organizado.Hobbes, ao contrário, surpreende a sociedade dos indivíduos no momento em que o Estado submergiu na voragem da guerra religiosa, soçobrou na crise da sociedade governada pelo desejo e pelo medo. Para Hobbes, a possibilidade de o Estado ser destruído numa crise desencadeada pelas rivalidades “particularistas” da sociedade civil é permanente.
Na Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith dispõe-se a refutar “tão odiosa doutrina e provar que, anteriormente a qualquer lei ou instituição positiva, a mente estava dotada naturalmente da faculdade que permitia distinguir, em certas ações e afeições, as qualidades do certo, do louvável e do virtuoso, e, em outras, aquelas do errado, do condenável e do vicioso... É através da razão que descobrimos estas regras gerais de justiça que regulam nossas ações. ”Na Riqueza das Nações, Smith deriva a propensão para a troca a partir das inclinações naturais do indivíduo naquele “estado rude e primitivo da sociedade”. A troca de mercadorias decorre da disposição natural dos indivíduos privados à relação com o “outro”, cimentando em bases firmes e racionais a nova “sociabilidade”.
Os indivíduos, produtores independentes de mercadorias, buscando o seu interesse, “constituem” a sociedade. Smith procede, na verdade, a uma “despolitização” das relações sociais, buscando afirmar a autonomia da sociedade econômica em relação ao Estado Absolutista, sublinhando o seu caráter natural e “espontâneo”, que se deixa revelar na sabedoria providencial e impessoal da Mão Invisível. Enquanto permanecia a dependência do político, como sustentavam as teorias economicas do mercantilismo, não era possível pensar a economia como um sistema racional, submetido à operação de leis semelhantes às que comandam o mundo físico e biológico.
A economia surge, portanto, com a pretensão de se constituir numa esfera privilegiada da convivência, em que a liberdade é uma imposição das leis que regem a natureza humana. As leis naturais decorrem da “razão”dos indivíduos que os predispõem às relações contratuais, mediante a livre disposição da vontade. Tais leis devem seguir o seu curso, desembaraçadas da interferência e do arbítrio da política. “Laissez-faire, laissez-passer” clamavam os fisiocratas, imaginando o organismo econômico como um análogo dos organismos biológicos.
A economia, ao longo do século XIX, tomou como paradigma cientifico a imponente construção da mecânica clássica e como paradigma moral o utilitarismo da filosofia radical do final do século XVIII. O homo oeconomicus, dotado de conhecimento perfeito, busca maximizar sua utilidade ou os seus ganhos, diante das restrições de recursos que lhe são impostas pela natureza ou pelo estado da técnica. O programa de investigação da corrente dominante em Economia continua a apoiar a sua construção no homo oeconomicus. O ser racional e calculador fundamenta a sociedade, definida como a agregação dos indivíduos atomizados. Se a concepção é atomística, então todas as causas devem ser extrínsecas. E se os sistemas não dispõem de uma estrutura intrínseca (isto é, esgotam-se nas propriedades atribuídas aos indivíduos que os compõem) toda a ação deve se desenvolver pelo contato. Os indivíduos “atomizados” não são afetados pela ação dos demais, isto é, as partículas que executam os cânones da ação utilitarista jamais alteram o seu comportamento na interação com as outras partículas carregadas de “racionalidade”.
Os fundamentos da teoria econômica dominante definem coerentemente o mercado como um ambiente comunicativo cuja função é a de promover de modo mais eficiente possível a circulação da informação relevante. Essa “ontologia do econômico” tem uma expressão metafísica e outra epistemológica. A metafísica reivindica o caráter passivo e inerte da matéria e a causação é vista como um processo linear e unidirecional, externo e inconsistente com a geração do novo. Na versão epistemológica, reduto preferido do positivismo, os fenômenos são apresentados como qualidades simples e independentes, apreendidas através da experiência sensível.

Nesse caso, a causalidade é vista como a concomitância regular de eventos que se expressa, depois de processada pelo sujeito do conhecimento, sob a forma de leis naturais. Não é surpreendente, portanto, que a suposição fundamental das teorias novo-clássicas, com expectativas racionais, afirme que a estrutura do sistema econômico no futuro já está determinada agora. Isto porque a função de probabilidades que governou a economia no passado é a mesma distribuição de probabilidades que a governa no presente e a governará no futuro. Haveria por detrás das ações humanas estruturas naturais capazes de garantir a reprodução, quase sem atritos, das relações sociais. Tudo o que é sólido não se desmancha no ar.

A Lógica e o Tempo
No livro Epistemics and Economics, o economista George Shackle cuida de encarar a questão da racionalidade, tão cara aos economistas. “O tempo e a lógica”, comenta Shackle, “são estranhos um ao outro. O primeiro implica a ignorância, o segundo demanda um sistema de axiomas, um sistema envolvendo tudo o que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”. George Shackle está simplesmente afirmado que a economia é um saber que está obrigado a formular suas hipóteses levando em consideração o tempo histórico, dimensão em que se desenrola a ação humana. Ela deve se entregar ao estudo do comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, no marco de instituições sociais e políticas produzidas ou construídas pelas ações e decisões do passado.
A especificidade da ação econômica, numa sociedade em que as decisões são “descentralizadas”, é definida pelo carater crucial das antecipações do grupo social que detêm o controle da riqueza e que deve decidir o seu uso a partir do critério da vantagem privadas. Por um lado, os planos individuais de utilização da riqueza não podem ser pré-reconciliados; de outra parte, os resultados não-intencionais do turbilhão de ações egoístas modificam irremediavelmente as circunstâncias em que as decisões foram concebidas.
Há, portanto, uma dupla incerteza. Shackle, combinando criativamente Hayek e Keynes, está conferindo às decisões empresariais de investimento um caráter crucial, na medida em que “criam o futuro”. Esta criação do futuro é, para ele, um ato que decorre do poder originário e irredutível dos que controlam a criação de riqueza no capitalismo. É um ato praticado em condições de incerteza radical que muda, a cada momento, a configuração da economia.
Sir Isaiah Berlin valeu-se de Arquíloco para distinguir dois tipos de sabedoria e de ciência: “A raposa sabe muitas coisas, o ouriço sabe uma grande coisa”. Shackle usou o texto de Berlin para definir Keynes e a Teoria Geral, diante do desencontro de idéias que assolou a chamada teoria econômica durante os anos 30. Shackle sugeria que, sob vistosa pelugem de raposa, escondia-se Keynes, o ouriço. A Teoria Geral parece ter muitas ideias, mas apenas uma é fundamental: a acumulação de riqueza numa economia descentralizada e monetária é um salto no vazio. Os detentores de riqueza sob a forma monetária são obrigados a apostar que nenhum fenômeno perturbador vai ocorrer, entre o momento em que tomam a decisão de empregar o seu dinheiro na contratação de fatores de produção e a recuperação, no futuro, deste valor monetário acrescido do lucro. Tais decisões são tomadas individualmente na suposição ilusória de que o futuro vai continuar reproduzindo o passado.
Keynes não estava negando a possibilidade de funcionamento das economias descentralizadas. Estava sugerindo que, ao contrário do que procurava demonstrar a bela arquitetura dos modelos de equilíbrio geral, a reprodução destas sociedades não estava garantida. Estava sim amparada em convenções precárias, que poderiam ser desfeitas por impulsos, medos e súbitas mudanças no estado de expectativas da classe social que detem o monopólio dos meios de produção. Esta classe de empresários e de senhores da finança têm a faculdade de usar o seu poder - conferido pela posse dos meios de produção e pelo controle do dinheiro e do crédito - para promover o próprio enriquecimento, em benefício do conjunto da sociedade ou simplesmente entregar-se ao“amor do dinheiro” e à proteção patrimonial, produzindo a pobreza coletiva.
O nascimento das ciências sociais e da economia tem a ver basicamente com a questão das condições de reprodução de uma sociedade fundada na divisão social do trabalho, na “separação” entre os indivíduos e na busca do enriquecimento privado. Keynes e Marx, como Hobbes, trataram desta questão, acima de todas as demais. O importante, porém, não foi a forma específica como cada um deles a tratou, mas o fato de que procuraram demostrar o caráter problemático da reprodução desse sistema social e econômico. Não falaram apenas de crises de funcionamento, de desajustes passageiros quase auto-regeneráveis, mas da possibilidade de um colapso nos processos de coordenação que permitem a compatibilização das decisões descentralizadas .
Um determinado grupo de indivíduos é responsável, nestas sociedades, pelas decisões cruciais. Não é suficiente que sejam sábios, prudente e virtuosos. Não haverá sabedoria ou virtude capaz de livrá-los de decisões socialmente insensatas, simplesmente porque eles não podem abandonar seus impulsos de acumular riqueza abstrata, nem - recorrendo à lógica e ao cálculo de probabilidades - adivinhar o futuro. Estão condenados a construir o futuro a cada momento, com o precário conhecimento do passado.
Keynes era organicista. Aceitava o entendimento conservador -antiliberal e anti-iluminista - que concebia a sociedade e o indivíduo como produtos da tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária, anti-vitoriana e, sobretudo anti-utilitarista. Não é casual, portanto, que ele tenha começado a sua vida intelectual criticando a racionalidade instrumental, operativa. Isso não quer dizer que recusasse o programa da modernidade, empenhado na progressiva liberdade e autonomia do indivíduo. Mas não acreditava que esta promessa pudesse ser cumprida numa sociedade individualista em que os possuidores de riqueza orientam o seu comportamento dentro das regras estabelecidas pelo ganho monetário. O “amor ao dinheiro”, sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista é um obstáculo ao processo de emancipação do sujeito, a menos que seus efeitos negativos sejam neutralizados pela atuação jurídica e política do Estado Racional.
Os incômodos causados por Keynes aos que postulam o paradigma da “racionalidade” foi e tem sido considerável. A inexistência de bases “racionais” para a tomada das decisões econômicas cruciais, aproxima perigosamente a economia e suas pretensões científicas do “inferno irracional” que os economistas imaginam cercar as decisões políticas. Um observador atento e participante ativo do debate econômico notou, com razão, que a corrente dominante considera não-científica qualquer teoria construída a partir da hipótese que afirma o caráter crucial das decisões capitalistas. Se há decisões que podem “criar o futuro” o processo econômico está mergulhado no fluxo do tempo histórico, que, dizem, só passa uma vez pelo mesmo lugar. A economia, transformada num “saber histórico”, converteria os economistas em cidadãos de segunda classe na hierarquia da comunidade científica.

Excursus Científico
Os economistas podem revigorar seu orgulho, se aceitarem, como consolo, ficar na companhia dos meteorologistas. Nos 50 e 60, o físico e matemático Von Neumann, pai do computador, imaginou a possibilidadede aumentar a precisão das previsões meteorológicas e de controlar as condições do tempo. O aparecimento dos satélites e da computação digital impulsionou ainda mais a confiança na transformação dos modelos de previsão em instrumentos tão precisos quanto a equação que descreve a queda dos corpos.
Nesse tempo, mais exatamente em 1960, o meteorologista e matemático Edward Lorenz construiu um sistema de 12 equações, um modelo puramente determinista. Dado um ponto de partida, as condições meteorológicas se desenvolveriam da mesma maneira, a cada vez. Alterado ligeiramente o ponto de partida, o tempo evoluiria de uma maneira diferente. Lorenz descobriu, no entanto, ao longo de suas simulações, que pequenas alterações nas condições iniciais podem tornar qualquer previsão sem qualquer valor. Os erros e incertezas interagem, se multiplicam e formam processos cumulativos. Uma brisa em Porto Alegre pode provocar uma tempestade em São Paulo.
Uma velha canção do folclore ilustra o que na Teoria do Caos foi designado como dependência sensível das condições iniciais. ”Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura/ Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo/Por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro/ Por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha/ Por falta da batalha, perdeu-se o reino”.
Sabe-se muito bem que, tanto na ciência quanto na vida, uma cadeia de acontecimentos pode ter um ponto de crise que vai aumentando com pequenas mudanças. Mas o caos significa que estes pontos estão por toda parte. Em sistemas como o do tempo, a dependência sensível das condições iniciais é a consequência inevitável da maneira pela qual as pequenas escalas se combinam com as grandes.
Se a companhia dos cientistas do clima não satisfaz, os economistas podem buscar arrimo na física do século XX . A termodinâmica, a física dos quanta e a teoria da relatividade – vem descobrindo que os caminhos na Natureza não podem ser previstos com exatidão. As pequenas diferenças, as flutuações insignificantes podem, se produzidas em circunstâncias apropriadas, invadir todo o sistema e engendrar um novo regime de funcionamento.
Uma das novidades da ciência contemporânea está em sua capacidade de revelar que a Natureza é muito mais rica em suas determinações do que supunha a nossa vã filosofia. Ilya Prigogine e Isabelle Stengers mostram que a fenomenologia descrita pela termodinâmica, pela física das partículas e pela teoria da relatividade “não só afirmam a seta do tempo, mas tambem nos conduzem atualmente a compreender um mundo em evolução, um mundo onde a “emergência do novo” reveste um significado irreversível... O ideal da razão suficiente supunha a possibilidade de definir a causa e o efeito, entre os quais uma lei de evolução estabeleceria uma equivalência reversível...” “Comecemos pelo próprio big bang. Como iremos ver, trata-se de uma consequência inevitável do próprio modelo standard atualmente dominante: se seguimos a evolução do universo em relação ao passado, chegamos a uma singularidade, a um ponto sem extensão” onde se encontra concentrada a totalidade da matéria e da energia do universo..., mas curiosamente, nem este modelo, nem a física em geral nos permitem descrevê-la: as leis físicas não se podem aplicar a um ponto de densidade infinita de matéria e energia.
”Prigogine e Stengers, nas considerações finais do livro “Entre o Tempo e a Eternidade”, concluem que as ciências não refletem a identidade estática de uma razão à qual era necessário submeter-se ou resistir, mas participam da criação de sentido (itálicos meus, LGMB) ao mesmo nível que o conjunto das práticas humanas. “Elas não nos podem dizer o que “é ” o homem, a natureza ou a sociedade de tal maneira que, a partir desse saber, possamos decidir a nossa história.”


Luiz Gonzaga Belluzzo – Economista e professor – 18.10.2011
IN “Carta Maior” – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18727

sexta-feira, 29 de junho de 2012

México, a bola da vez?


as elites dominantes se voltaram para o candidato do PRI como seu favorito para dar continuidade à mesma politica neoliberal e de subordinação externa aos EUA.

Emir Sader
A um mês das eleições presidenciais mexicanas, o resultado está em aberto, depois que a queda do até então favorito, Pena Nieto, do PRI, se acentuou, assim como a subida do candidato da esquerda, Lopez Obrador, do PRD, enquanto a candidata do PAN, Josefina Vazquez, ficou definitivamente relegada ao terceiro lugar.

Até há pouco Pena Nieto tinha grande vantagem nas pequisas, com até mais de 20 pontos, apoiado por quase toda a grande mídia monopolista mexicana. Com o fracasso do governo Calderon - a começar pela “guerra ao tráfico”, mas pelo conjunto do governo ortodoxamente neoliberal -, as elites dominantes se voltaram para o candidato do PRI como seu favorito para dar continuidade à mesma politica neoliberal e de subordinação externa aos EUA.

As manifestações de jovens de protesto contra o privilégio que a imprensa dá a Pena Nieto estão contribuindo para mudar as opções do eleitorado. A um mês das eleições começaram a aparecer pesquisas em que a diferença entre os dois diminui significativamente. A partir desse momento é uma corrida contra o tempo e contra a possibilidade de fraude.

A direita fará tudo para impedir que isso aconteça. Os EUA seriam pegos de surpresa, não apenas no país fronteiriço na América Latina, mas em um dos poucos países aliados de peso no continente. Um governo de Lopez Obrador não poderá simplesmente sair do Tratado de Livre Comércio da América do Norte mas, como faz o Peru, avançar na diversificação do comércio internacional, aproximar-se politicamente dos países da America do Sul, mudar a política econômica, bloquear a privatização da Pemex – a empresa mexicana do petróleo -, revitalizar o Estado mexicano, centrar a ação governamental em políticas sociais. Seria uma mudança interna muito importante e significativa no plano externo.

Desde que a vantagem folgada do candidato do PRI foi diminuindo e o apoio a Lopez Obrador foi aumentando, desatou-se com força a campanha contra o candidato da esquerda. Antes praticamente ignorado pela mídia privada, para não propiciar-lhe espaço, passaram a atacá-lo com falsas denúncias, buscando reativar um nível de rejeição que Lopez Obrador está conseguindo superar, enquanto as mobilizacoes estudantis fazem aumentar fortemente a rejeição a Pena Nieto.

O processo eleitoral mexicano é especialmente deformado, porque não há segundo turno e o presidente tem mandato de 6 anos, mesmo que ganhe com evidências de fraude, como foi o caso de Calderon. A disputa final deve ser acirrada. Se Lopez Obrador não conseguir abrir uma vantagem significativa, pode ser vítima, novamente, da fraude que lhe tirou a presidência há 6 anos. O grande fator de mudança a seu favor vem das belas manifestações estudantis, a que se opõem as campanhas de difamação da velha mídia mexicana.

Emir Sader – 07.06.2012



México deve mudar o governo, mas manter a política econômica

a possibilidade de mudança de governo no México (com a possível vitória de peña nieto) não alimenta preocupação ou estresse entre investidores e analistas. Isso porque a percepção geral é de que não haverá mudanças na condução da política econômica. No entanto, também não se esperam muitos avanços na economia para os próximos seis anos.
(...)
Analistas preveem que o problema da concentração da atividade em poucas empresas não acabará.

Suzi Katzumata
Depois de um intervalo de 12 anos, o tradicional Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México de 1929 a 2000, prepara-se para voltar ao poder em julho, com Enrique Peña Nieto, que lidera as pesquisas de intenção de voto com ampla vantagem sobre os demais candidatos. Contudo, ao contrário de eleições passadas, a possibilidade de mudança de governo no México não alimenta preocupação ou estresse entre investidores e analistas. Isso porque a percepção geral é de que não haverá mudanças na condução da política econômica. No entanto, também não se esperam muitos avanços na economia para os próximos seis anos.
Na avaliação de Paulo Vieira da Cunha, chefe de pesquisa para mercados emergentes e sócio da Tandem Global Partners, uma possível vitória do candidato do PRI seria uma transição positiva para o México, uma vez que Peña Nieto é integrante da ala mais moderna do partido.
Segundo a mais recente pesquisa "El Universal"/Buendía&Laredo, de 14 de maio, realizada na sequência de um debate entre os principais candidatos, Peña Nieto segue na frente na disputa, com 49,6% das intenções de voto (os números excluem os eleitores que não declararam opção por nenhum nome), com larga vantagem sobre os rivais Andrés Manuel López Obrador (24,8%), do Partido da Revolução Democrática (PRD), de centro-esquerda, e Josefina Vázquez Mota (23,1%), do governista Partido da Ação Nacional (PAN), de centro-direita, ambos tecnicamente empatados na segunda posição.
A empresa de análise de risco Standard & Poor"s - que no fim de abril publicou uma série de relatórios abordando a eleição mexicana - avalia que o ambiente tranquilo desta eleição reflete, em parte, "uma agenda política estável e previsível e uma ausência de grandes desequilíbrios macroeconômicos". O analista da S&P Mauricio Tello observa que a economia do México está mais forte em comparação com anos eleitorais anteriores, apesar da crise econômica global. "Portanto, não esperamos que a nova administração queira colocar em risco a estabilidade desta vez através de uma mudança radical na política econômica", diz o analista.
"Durante os últimos 15 anos, vimos um compromisso às políticas econômicas prudentes do Ministério das Finanças, do Banco Central e do Congresso do México. Além disso, o crescimento da classe média do México tem reforçado essa ênfase em políticas estáveis e previsíveis com objetivo de preservar e avançar nos padrões de vida do país", diz a S&P.
Outro elemento que contribui para tranquilizar os investidores é o fato de o mandato do atual presidente do Banco Central do México(Banxico), Agustín Carstens, terminar apenas em 2016. Ele foi nomeado pelo presidente Felipe Calderón (PAN) em 2010 e ratificado pelo Senado com amplo apoio do PRI. Carstens, um ex-ministro das Finanças e ex-vice-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), prega o equilíbrio das contas públicas como uma obrigação e considera a estabilidade de preços como a melhor contribuição que o BC pode fazer para a prosperidade do país.
Desde que assumiu a presidência do Banxico, Carsten não promoveu nenhuma alteração na taxa de juro básica, que se mantém estável em 4,5% desde julho de 2009. O Banxico tem como principal mandato preservar o poder de compra do peso mexicano e, para alcançar tal objetivo, usa a política de meta de inflação.
Se Peña Nieto confirmar o favoritismo e for eleito presidente em 1º de julho, tudo indica que Carstens não terá dificuldade em manter o atual rumo da política do BC. Em entrevista à Dow Jones Newswires no início do mês, Luis Videgaray, gerente de campanha e estreito colaborador do candidato do PRI, afirmou que seu grupo tem três metas: primeira, total respeito à autonomia do Banxico; segunda, estabilidade de preços como prioridade; e, terceira, evitar uma valorização excessiva do peso.
Videgaray, que está entre os cotados para ser o ministro das Finanças de Peña Nieto, discorda dos críticos que defendem que o Banxico deve ter um mandato duplo, para incluir o crescimento, como o Federal Reserve, dos Estados Unidos. Para ele, o BC deve se ater à estabilidade de preços como único mandato.
Analistas preveem que o problema da concentração da atividade em poucas empresas não acabará.
"Em um país em desenvolvimento, que pode ser vítima de ataques especulativos dos mercados globais de capital, a prioridade da política monetária é proteger a moeda. Parte de nossa credibilidade vem disso e quando a política monetária se torna difícil de prever, isso pode criar alguns incentivos para a especulação financeira", diz Videgaray.
Dois temas que têm dominado o debate nesta eleição são a violência provocada pela guerra declarada pelo atual presidente, Felipe Calderón, contra os cartéis de drogas e como elevar a taxa de crescimento do México.
No lado econômico, as campanhas dos principais candidatos têm como ponto comum a necessidade de modernizar a economia, melhorar a competitividade, gerar mais empregos e crescimento.
Na última década, na média, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do México tem sido inferior ao de seus pares emergentes, mas para os próximos vários anos a S&P estima que o país vai crescer a taxas superiores às de economias avançadas, entre 3% e 3,5%.
No primeiro trimestre do ano, o México surpreendeu os analistas com um crescimento anual de 4,6%, impulsionado pelo aumento da produção industrial (4,5%), da atividade no setor de serviços (5%) e da produção agrícola (6,8%). Em relação ao quarto trimestre de 2011, o PIB mexicano cresceu 1,31%, provavelmente acima do ritmo de expansão da economia brasileira nessa mesma base de comparação. O dado oficial brasileiro será divulgado no dia 1º de junho pelo IBGE. Mas o IBC-Br, calculado pelo Banco Central e considerado uma espécie de prévia do PIB brasileiro, mostrou crescimento de apenas 0,15% no primeiro trimestre do ano em relação aos três meses anteriores.
Na semana passada, o Banxico elevou sua projeção de crescimento para 2012 para uma faixa entre 3,25% e 4,25%, de um intervalo entre 3% e 4% anteriormente, citando os dados mais fortes que o esperado apresentados neste ano e melhores perspectivas para o crescimento econômico dos Estados Unidos - seu principal mercado de exportação. O BC classificou suas estimativas de crescimento para2012 e 2013 como "moderadas", em linha com as expectativas para a economia global e renovou seus apelos para que a classe política mexicana promova reformas econômicas para elevar o potencial de crescimento do país.
Contudo, no geral, os economistas não esperam após as eleições grandes mudanças ou reformas que enfrentem um dos principais defeitos da economia do México: a concentração da atividade em poucas empresas.
"A falta de uma concorrência mais vibrante na economia mexicana é o principal fator que pesa sobre o crescimento" do país, observa a S&P. Segundo a agência, os monopólios e oligopólios, nos setores público e privado, mantêm elevados os custos nas áreas de telecomunicações, energia e serviços públicos, que pesam particularmente sobre as pequenas e médias empresas. "Isso reforça o domínio de grandes companhias na economia formal", diz a S&P.
O México está atraindo investidores interessados em usar o país como plataforma de exportação para os EUA
"O problema não é de legislação, mas de "enforcement" [fiscalização e controle]", observa Paulo Vieira da Cunha, da Tandem Global Partners.
Quanto à questão da violência no México, as expectativas são de mudança na abordagem de confronto adotada pelo presidente Calderón e que resultou em mais de 50 mil mortes desde o início de sua gestão, em 2006. Para Cunha, essa política não deve ter continuidade, porque não tem o apoio da população.
"Não há a menor dúvida de que a abordagem de Calderón exacerbou a situação de conflito, principalmente no norte. Na Cidade doMéxico, no centro e no sul, a situação não é tão grave assim", disse Cunha, que acredita que o novo governo vai tentar "desmilitarizar o problema".
"Vão deixar de entrar tanto nas brigas internas dos cartéis, isso vai melhorar a sensação de segurança interna no México, mas por razões negativas", avalia.
"Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos." A frase célebre é atribuída ao ex-presidente do México José de la Cruz Porfirio Díaz Mory, que governou o país de 1876 a 1910. Porém, os tempos mudaram e essa proximidade com a maior economia do mundo hoje é favorável ao México, que está atraindo investidores, de curto e longo prazo, interessados em usar o país como plataforma de exportação para o mercado americano ou simplesmente para aproveitar as facilidades de se investir no mercado local, mais "amigável" ao investimento estrangeiro em comparação com outros emergentes latino-americanos mais valorizados, como o Brasil.
Contudo, esse interesse ainda não se traduz em um aumento significativo no fluxo de investimentos para o México. Em 2011, o país recebeu US$ 19,4 bilhões em investimento estrangeiro direto (IED), um aumento de 10% sobre o ano anterior, e ficou em segundo lugar na lista dos países que mais receberam investimentos na região, de acordo com dados divulgados no início do mês pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Mas essa soma ainda está distante dos níveis pré-crise financeira internacional de 2008, quando o México recebeu US$ 31,3 bilhões, e é bem inferior aos US$ 66,6 bilhões em IED atraídos pelo Brasil no ano passado.
Uma outra medida de fluxo de investimentos, o MSCI (Morgan Stanley Capital International), uma referência para diversos fundos de investimento, mostra que seu índice para o México exibia até o dia 10 de maio uma alta acumulada de 9,9%, enquanto o índice Brasil apresentava uma queda de 1,84%. Contudo, a escalada da crise na Europa - agravada pelos temores de uma saída da Grécia da zona do euro - reduziu esses ganhos e, até 23 de maio, o índice MSCI México apontava uma alta de 1,03%, enquanto o índice Brasil acentuava a queda para 13,9%.
"Não há uma avalanche de entusiasmo, mas há um sentimento bastante positivo, que tem a ver com a forma como a economia [mexicana] é manejada", diz Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. "Trata-se de uma economia com uma inflação baixa [de 3,40% ao ano em abril], com um Banco Central de credibilidade muito alta, que não intervém no câmbio, que não tem uma retórica agressiva antimercado", acrescenta.
"Aqui [no Brasil] é um pouco mais incerto e essa incerteza tem um spread, tem um risco... Além disso, a retórica vinda das autoridades brasileiras é bastante agressiva em relação ao mercado, que indica que o capital não é necessariamente muito bem-vindo no Brasil", diz Ramos.
Segundo o economista, a mudança no sentimento em relação ao México começou há dois anos. Antes, há três ou quatro anos, havia uma preocupação muito grande de que o México estava ficando para trás, apesar de o país ter promovido reformas econômicas mais cedo em comparação aos seus pares emergentes.
"O México manejou o quadro macro de uma maneira muito mais responsável, mais cedo que o Brasil, e de repente o Brasil descolou, cresceu bastante, havia muito entusiasmo em relação ao futuro do Brasil e agora a coisa equilibrou um pouco mais", diz Ramos.
Ele destaca ainda os avanços obtidos pelo México na redução dos custos produtivos, especialmente frente à China. Há dez anos, o custo unitário do trabalho no México era quase duas vezes e meia maior do que o da China e hoje alguns bancos internacionais estimam que é mais barato produzir no México do que na China.
"Hoje, com um aumento de salário real muito contido nos últimos anos, cerca de 1% ou menos ao ano, com o preço de transporte alto e com os preços do derivado de petróleo bastante alto, o México fechou muito essa diferença [com a China], ao ponto que tem algumas empresas chinesas pensando em investir no México, porque veem isso como uma oportunidade para ficar perto dos EUA", diz Ramos. (Com agências internacionais)


Suzi Katzumata – 25.05.2012