sábado, 7 de julho de 2012

Massacre na periferia


explodem as taxas de homicídio na capital paulista, sobretudo na periferia.


José Francisco Neto
Entre os dias 17 e 28 de junho deste ano, 127 pessoas foram assassinadas na capital paulista, representando 73% dos 174 assassinatos no Estado de São Paulo, uma média de quase 12 mortos por dia. Os números são do Sistema de Informações Criminais (Infocrim) da Secretaria da Segurança Pública. Ao total, o número de homicídios foi 53% maior em comparação a junho de 2011.
O aumento da violência começou no dia 28 de maio, quando policiais da Ronda Ostensiva Tobias Aguiar (Rota), após troca de tiros, na zona leste de São Paulo, mataram cinco homens e executaram um rapaz após o confronto. Há indícios de que os suspeitos mortos sejam da facção criminosa do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo testemunhas, o rapaz detido, ainda vivo, teria sido levado para a região do Parque Ecológico do Tietê, onde o teriam torturado e assassinado a tiros. Os policiais foram presos em flagrante pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil.
Imediatamente após o ocorrido, o policiamento se intensificou na zona leste da cidade. Segundo o morador da Cidade Tiradentes Wellington Lopes Goes, a polícia militar aumentou o cerceamento na região. “Desde aquele episódio, a polícia militar está em peso rodando aqui no bairro”, conta. Por outro lado, ele afirma que por ordem de pessoas ligadas ao crime, a escola em que leciona fechou de terça a sexta-feira. “A ordem era fechar a escola, a Unidade Básica de Saúde (UBS) e os comércios. A partir do meio dia não podia ficar mais nada aberto”, revela Wellington.
A partir desses episódios, uma onda de violência desencadeou-se em São Paulo no mês de junho: seis policiais militares foram mortos, 13 ônibus foram incendiados, bases da Polícia Militar foram baleadas, toques de recolher nos bairros foram anunciados pela própria polícia e grupos de extermínio agiram nas periferias, matando jovens durante a noite e madrugada.
No Parque Bristol, bairro da zona sul, a própria polícia militar entrou nos estabelecimentos e mandou fechar as portas dos comércios, segundo relata o morador da região, Paulo Rams. Segundo ele, na terça-feira, 26 de junho, os policiais foram até o bairro e falaram para ninguém ficar na rua a partir das 22h, pois quem não obedecesse seria averiguado e levado para a delegacia. “Aqui na região também incendiaram três ônibus. Tanto de um lado como do outro estão deixando a população acuada. Algumas pessoas estão dizendo que quem está colocando fogo nos ônibus são os próprios policiais.” Paulo afirmou ainda que na última semana de junho três jovens foram assassinados no Parque Bristol.

“Drogados”
Em apenas quatro dias, de 24 a 27 de junho, 25 pessoas foram mortas na parte leste da região metropolitana. Os crimes ocorreram em Ferraz de Vasconcelos, Poá, Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes.
A informação é do capitão Joel Chen, comandante da PM em Ferraz, concedida ao jornal Folha de São Paulo. Chen justifica as mortes dizendo que “muitos desses mortos são usuários de drogas” e que “os crimes ocorreram em áreas que são pontos de venda de entorpecentes”.
Para o assessor jurídico da Pastoral Carcerária, Rodolfo Valente, o comentário do comandante é um absurdo. “As vítimas não são as mesmas pessoas que vêm confrontando policiais e, ainda que fossem, não é dessa forma que se combate a suposta criminalidade”, salienta, referindo-se ao assassinato dos seis policiais desde o início do mês de junho.
“A polícia não tem prerrogativa de matar ninguém, ainda que seja perseguição ou situação de flagrante. Pelo menos o que dizem é que vivemos num estado democrático de direito, mas a gente sabe que não é assim. Eles [policiais] não estão de maneira nenhuma legitimados a executar as pessoas”, comenta Valente.

Quatro horas, nove mortos
Somente na noite de segunda-feira, em 25 de junho, nove jovens, entre 16 e 20 anos, foram assassinados. Os crimes ocorreram nos bairros paulistanos Jardim Robru, Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luis, além do município de Poá, na região metropolitana da capital paulista.
Dessas nove mortes, quatro ocorreram no Jardim Picosse, em Poá. Os jovens Dênis Silva Aparecido e Estevam Marine de Campos, ambos de 19 anos, estavam na rua Pará, na altura do número 178, com Raimonde Anunciação Batista, de 20 anos, e Hederton José Cunha, de apenas 16.
Uma das moradoras do bairro que não quis se identificar por medidas de segurança, relatou ao Brasil de Fato que os jovens estavam indo a uma pizzaria que fica na mesma rua em que moravam. De repente, começou um tiroteio. “Teve um que foi assassinado nos pés da mãe, enquanto outro morreu agachado porque estava tentando se esquivar dos tiros”, conta.
A polícia militar foi acionada, e ao chegar ao local encontrou as quatro vítimas no meio da via pública. Os jovens foram levados ao pronto-socorro central da cidade, mas não resistiram e morreram.
Um dia após a chacina, a própria polícia militar mandou fechar todos os comércios do bairro, deixando os moradores acuados e com medo de saírem de suas residências.“No dia seguinte, os comércios estavam todos fechados. A dona de um bar disse que os policiais passaram avisando que era pra fechar tudo às 14h. Depois que isso aconteceu, ninguém sai mais na rua, pois o clima aqui está muito tenso”, conta a moradora.
A chacina foi registrada no Distrito Policial do município e está sendo investigada pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
Débora Maria, do Movimento Mães de Maio, ressalta que essas chacinas são semelhantes às que ocorreram em maio de 2006, quando grupos de extermínio ligados à polícia militar assassinaram mais de 500 pessoas em apenas oito dias. “Os policias pegam os ‘supostos autores’ dos crimes e assassinam. Antes deles acharem, deveriam procurar saber se são realmente criminosos e puni-los exemplarmente, mas acontece que primeiro eles matam pra depois saber quem é a vítima. A gente vê uma higienização da pobreza por parte da polícia do estado de São Paulo”, argumenta.

José Francisco Neto – 03.07.2012
IN “Brasil de Fato” – http://www.brasildefato.com.br/node/10006



Ciclos de vingança e impunidade se repetem há 50 anos

Em maio de 2011, relatório publicado pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Harvard apontou que 122 pessoas foram assassinadas por integrantes de grupos de extermínio. Nenhum dos autores chegou a ser punido pela Justiça.

Bruno Paes Manso
Uma das histórias mais obscuras da violência em São Paulo ocorreu depois dos ataques a policiais em maio de 2006. Entre os dias 12 e 20 daquele ano, 493 pessoas morreram a tiros no Estado - 43 delas eram agentes públicos -, assassinadas por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A reação da Polícia Militar nos dias que se seguiram, denunciada por entidades de direitos humanos, ficou conhecida como crimes de maio.
Em maio de 2011, relatório publicado pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Harvard apontou que 122 pessoas foram assassinadas por integrantes de grupos de extermínio. Nenhum dos autores chegou a ser punido pela Justiça.
Nos últimos 11 dias, apesar das denúncias feitas pela população acusando policiais militares como autores de execuções nas periferias, ainda não é possível apontar a responsabilidade pelos assassinatos. O crescimento dos homicídios na capital, contudo, já é, proporcionalmente, mais alarmante do que o verificado em maio. Nos nove dias de 2006, as 493 mortes no Estado representaram 97% dos 505 assassinatos mensais daquele ano. Já o total de 127 mortes dos últimos 11 dias é 53% maior do que o número de homicídios em junho de 2011.
O que é possível afirmar com tranquilidade é que os círculos de vingança envolvendo autoridades de segurança e bandidos sempre andaram juntas com a impunidade na história de São Paulo.
Ocorreu durante os crimes de maio e voltou a acontecer em abril de 2010 em São Vicente, quando 23 pessoas foram assassinadas em duas semanas depois da morte de um policial militar. História semelhante já ocorria nos anos 1960 e acabou servindo como justificativa para o surgimento do Esquadrão da Morte, dentro dos quadros da Polícia Civil. Integrantes do Esquadrão da Morte passaram a matar suspeitos em novembro de 1968 depois que um investigador da Polícia Civil foi assassinado por um traficante de drogas na zona norte. A falta de punição é sempre um incentivo para que as atitudes voltem a se repetir ao longo da história.


Bruno Paes Manso – 30.06.2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Por que o futuro da Europa é importante?



Num cenário conturbado, Grécia e França empurram continente à esquerda, pressionando Alemanha. Se esta ceder, toda conjuntura global mudará.

Immanuel Wallerstein
As eleições nos sistemas parlamentares ocidentais sempre têm a ver com o centro. A situação mais comum é aquela em que existem dois partidos dominantes – um mais à direita e outro mais à esquerda do centro. Existem diferenças entre as políticas que esses partidos colocam em prática quando estão no poder, mas também enormes semelhanças. A eleição nunca expressa uma divisão política profunda. Seu papel é, em vez disso, o de de redefinir e relocalizar o centro – o ponto de alavanca, na gangorra entre os partidos.
Uma situação muito mais rara é o repúdio ao centro e, portanto, aos dois partidos – anteriormente principais – que se posicionam próximos ao ponto central. Esse resultado joga as políticas nacionais em um grande turbilhão, o que por vezes tem impactos consideráveis fora do país.
As últimas eleições na França e na Grécia ilustram bem essas duas situações. Na França, os socialistas derrotaram o partido conservador UMP, e deslocaram o centro. Num cenário caótico do sistema-mundo, e particularmente na União Europeia, o deslocamento o centro na França terá grande impacto. Mas não espere que as políticas reais de François Hollande sejam radicalmente diferentes daquelas de Nicolas Sarkozy.
Na Grécia, aconteceu o contrário. O centro foi dramaticamente repudiado. Os dois maiores partidos – o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok – perderam mais de metade dos votos que normalmente obtinham. Somados, caíram de aproximadamente 2/3 para 1/3 do eleitorado. O Pasok despencou para o terceiro lugar, ultrapassado por uma coalizão de partidos mais à esquerda, a Syriza, considerada a grande vencedora da eleição. O tema central das eleições foi o programa de austeridade imposto à Grécia pelas forças estrangeiras, e mais fortemente pela Alemanha. Todos os partidos, exceto os dois tradicionalmente maiores, anunciavam repúdio às medidas de austeridade. O líder da Syriza, Alexis Tsirpas, afirmou que os resultados da eleição anulam o comprometimento do governo anterior com o programa de austeridade.
O que acontecerá nos próximos meses? Na Grécia, como os três partidos com mais votos – Nova Democracia, Syriza e Pasok – não conseguiram formar um governo, haverá novas eleições [em 17/6]. A Syriza pode até ser o primeiro colocado, no próximo pleito. Como o governo grego não receberá mais apoio internacional, não conseguirá pagar os empréstimos. O ministro de relações exteriores da Alemanha já ameaçou uma expulsão da zona do euro. Porém, não existe forma legal de fazer isso. E como a população grega parece pensar que sair da zona do euro não resolveria nada e provavelmente pioraria a situação, haverá um impasse. Os gregos irão sofrer muito. Mas muitos bancos europeus também. Assim como a população alemã, mesmo que esta ainda não esteja consciente disso.
Enquanto isso, haverá novas eleições na França, agora para o Legislativo [em 10 e 17/6]. Analistas preveem uma ampla vitória socialista, porém com significativo contingente de votos para o equivalente francês da Syriza, a Frente de Esquerda. A clara posição de Hollande é que o crescimento europeu deve ter prioridade em relação à austeridade – um desafio direto à posição alemã. Por isso, o centro será ainda mais deslocado para a esquerda.
Os alemães estão agora sob enorme pressão. Existe um descontentamento interno, que leva a perdas eleitorais do partido da chanceler Angela Merkel, o CDU, e sua coalizão neoliberal parceira, a FDP. Os outros partidos social-democratas na Europa foram encorajados pela vitória de Hollande a se moverem de algum modo para a esquerda. Os dois partidos conservadores na coalizão do governo da Itália sofreram perdas graves nas eleições municipais de maio. Também existe pressão dos Estados Unidos sobre a Alemanha, para se mover na direção que Hollande apoia – o que é estranho, porém importante.
Os alemães podem resistir a tudo isso – até 31 de maio, a data do plebiscito irlandês. O governo irlandês é o único membro da zona do euro que depende de um plebiscito para aprovar o novo tratado de austeridade em que Merkel tanto insistiu, com apoio de Sarkozy. As pesquisas sugerem uma disputa acirrada. O governo irlandês está confiante de que poderia ganhar votos em favor do “sim”, mas a vitória de Hollande pode influenciar os eleitores para que o “não” prevaleça, o que anularia o tratado de austeridade. Isso iria enfraquecer a posição alemã ainda mais que o repúdio grego ao centro.
O que acontecerá, então? A chave é o cenário alemão. Angela Merkel, como qualquer líder político, tenta ver para que lado os ventos sopram. Por isso, sua linguagem já começa a evoluir. Pode ser até que, secretamente, ela comemore as pressões externas para fazer o que, do ponto de vista da Alemanha, é a coisa sensata: fortalecer o poder de compra (para produtos alemães, entre outras coisas) no resto da União Europeia.
Se a Alemanha se mover nessa direção, o euro e a União Europeia irão sobreviver, e continuar a ser um grande ator (ainda que chamuscado…) na cena geopolítica. No plano mundial, o deslocamento do centro na Europa como um todo não irá congelar o status quo, mas acelerar os realinhamentos geopolíticos que são inevitáveis. Além disso, o deslocamento do centro na Alemanha pode ajudar a Europa a resistir melhor ao tsunami – de colapso de fundos soberanos e do dólar como moeda de reserva – que se aproxima.
O mundo inteiro está nadando em águas muito agitadas. A Alemanha pode logo se juntar à lista de estados que começam a entender como navegar em meio ao caos. Governos inflexíveis são seus próprios piores inimigos.


Immanuel Wallerstein - 28.05.2012

Publicado por Outras Palavras. Tradução: Daniela Frabasile.












Irlanda votó a los austeros

En un voto del miedo, los irlandeses respaldaron el tratado que rebaja los déficit en la Unión al 0,5 por ciento e impone sanciones al que no cumpla. Merkel expresó su satisfacción, Hollande fue muy reticente.

Pagina 12
Presionados por la posibilidad de no recibir ayuda financiera si no respaldaban los programas fondomonetaristas de Bruselas, los irlandeses apoyaron el pacto de austeridad de la Unión Europea (UE). El plan de control fiscal supranacional, impulsado fuertemente por Alemania, requería la aprobación de 12 de los 17 países de la Eurozona. De acuerdo con los resultados oficiales divulgados ayer sobre el referéndum realizado el jueves, el 60,4 por ciento de los votos apoyó la medida, mientras que los opositores sumaron el 39,6 por ciento de los sufragios, sobre un total de 995 mil votantes, aproximadamente el 50 por ciento del padrón electoral. El tratado aprobado por los irlandeses obliga a los países firmantes a reformar sus constituciones para implantar un límite al déficit al 0,5 por ciento del PBI y a aceptar sanciones cuando superen el tres por ciento del PBI. Con esta adhesión, el país –que fue rescatada en 2010 con una inyección de 85 mil millones de euros y la totalidad de su sistema bancario fue nacionalizado– se compromete, además, a limitar su déficit, lo que demandará, según los detractores del tratado, más sacrificios de las clases sociales pobres.
Tras conocerse los resultados, el primer ministro de Irlanda, Enda Kenny, declaró que el voto por el “sí” envió “una poderosa señal al mundo diciéndole que el país tenía una actitud seria sobre la superación de sus desafíos económicos”. En cuanto a cuál será el próximo paso, Kenny aseguró que la situación del sistema bancario europeo vuelve necesaria una solución de vasto alcance y la deuda bancaria irlandesa debe formar parte de esa solución. Por su parte, Gerry Adams, líder de Sinn Fein, el ex brazo político de la organización separatista IRA y opositor al tratado, aceptó sin cuestionamientos el resultado de la consulta, pero acusó al Ejecutivo de jugar con el temor de la gente.
“En el curso de la campaña, el gobierno hizo una serie de compromisos firmes en cuanto a la eliminación de la carga del rescate bancario de la gente y también sobre el crecimiento e incentivos al empleo. Vamos a reclamar el cumplimiento de esos compromisos”, anticipó resaltando que los problemas que la gente tiene hoy en día seguirán existiendo también mañana.
Los sondeos indicaron que el temor a perder acceso a los fondos de rescate de la UE y del Fondo Monetario Internacional (FMI) para países endeudados fue más fuerte que el enojo de los irlandeses por las medidas neoliberales que les redujeron los salarios y que eliminaron beneficios sociales e incrementaron el desempleo. Del resultado se desprendió que el “sí” obtuvo el apoyo en las áreas rurales y entre la clase media de los centros urbanos, mientras que el “no” tuvo fuerza y se impuso sobre todo en los condados del Norte y en zonas de clase trabajadora. Como también se conoció que de los 63 distritos electorales del país, sólo cinco rechazaron el tratado de la UE.
El desenlace del plebiscito tuvo repercusión internacional. Mientras que el presidente francés, François Hollande, se limitó ayer a “tomar nota de la decisión soberana y democrática del pueblo irlandés” en favor del pacto fiscal, sin hacer valoración alguna del resultado, la canciller alemana, Angela Merkel, mostró su satisfacción ante la noticia. Según fuentes gubernamentales la canciller destacó que el pueblo irlandés merece un reconocimiento especial por su decisión mayoritaria a favor de un pacto que lleva implícitos duros ajustes para la población del país. Asimismo, las instituciones de la UE celebraron ayer el resultado. “Con este voto, los irlandeses han dado su respaldo a su compromiso con la integración europea. El resultado es un paso importante hacia la recuperación y la estabilidad”, señaló el presidente del Consejo Europeo, Herman Van Rompuy, en un comunicado. En sintonía, el presidente de la Comisión Europea, José Manuel Durao Barroso, señaló que el resultado representa un paso significativo hacia su lugar en el corazón de la UE y destacó que el tratado es un elemento clave como la respuesta a la crisis. “Este es un día importante para Irlanda y para la Unión Europea”, aseveró el presidente de la Eurocámara, Martin Schulz.


Editorial Pagina 12 – 02.06.2012

domingo, 1 de julho de 2012

A ordem natural da economia política


Os incômodos causados por Keynes aos que postulam o paradigma da “racionalidade” foi e têm sido consideráveIS. A inexistência de bases “racionais” para a tomada das decisões econômicas cruciais, aproxima perigosamente a economia e suas pretensões científicas do “inferno irracional” que os economistas imaginam cercar as decisões políticas. A economia, transformada num “saber histórico”, converteria os economistas em cidadãos de segunda classe na hierarquia da comunidade científica. 

Luiz Gonzaga Belluzzo
Na antiguidade clássica e na idade média, argumenta Hegel na Fenomenologia do Espírito , a subjetividade estava completamente submetida a uma ordem “objetiva”, imutável e implacável do mundo. Esta cosmologia estava presente na religião grega, no mundo jurídico romano e, com algumas diferenças, na “ordem revelada” da Idade Média cristã. Mesmo os que, como Heráclito, fundavam sua reflexão sobre o “movimento universal”, viam nele uma sucessão de desdobramentos da natureza e da sociedade que escapavam ou estavam acima da personalidade humana. O destino implacável não era, portanto, uma representação ilusória do movimento do mundo, mas uma forma histórica da consciência dos homens.
Na aurora da Idade Moderna, a expansão do comércio nos poros da ordem feudal, a ciência experimental de Bacon, o “cogito” de Descartes desembaraçaram o sujeito de sua submissão ao mundo objetivo e estimularam o projeto do controle da natureza e do destino humano pela razão. Desde então, o sujeito pretendeu cobrar os seus os seus direitos de dominação, reivindicando o poder de suas Luzes, abominando os obstáculos da tradição ou de tudo lhe figurasse contrário aos princípios de uma ordem natural, desvendada e comandada pela “razão”.
A Economia Política Clássica já estava “contida” no pensamento político e moral inglês do século XVII e na filosofia da Ilustração do século XVIII, que tentavam responder aos desafios colocadas pelo nascimento de uma sociedade de indivíduos, nos interstícios da ordem assegurada pelo Estado Absolutista. Carl Schmitt afirma que ninguém compreendeu tão bem a natureza da sociedade dos indivíduos como Hobbes. Quando Hobbes se refere ao estado de natureza, não está se referindo ao momento de constituição do Estado, mas a um momento em que o Estado está ausente, em que as hordas privadas mergulhavam a sociedade dos indivíduos na guerra civil. Isto o fez concluir que é o medo do aniquilamento que constrange os indivíduos a entregar a própria liberdade aos cuidados do Leviatã.
Para o Hobbes de Schmitt, a visão do estado de natureza como um estado em que os homens conviviam pacificamente, em que o homem era naturalmente bom, só pode surgir em uma sociedade em que o Estado está consolidado, em que a sociedade civil já está submetida às leis emanadas do Soberano. A visão do bom selvagem, do homem predisposto ao contrato com o outro, como Locke a formula, pressupõe o Estado já organizado.Hobbes, ao contrário, surpreende a sociedade dos indivíduos no momento em que o Estado submergiu na voragem da guerra religiosa, soçobrou na crise da sociedade governada pelo desejo e pelo medo. Para Hobbes, a possibilidade de o Estado ser destruído numa crise desencadeada pelas rivalidades “particularistas” da sociedade civil é permanente.
Na Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith dispõe-se a refutar “tão odiosa doutrina e provar que, anteriormente a qualquer lei ou instituição positiva, a mente estava dotada naturalmente da faculdade que permitia distinguir, em certas ações e afeições, as qualidades do certo, do louvável e do virtuoso, e, em outras, aquelas do errado, do condenável e do vicioso... É através da razão que descobrimos estas regras gerais de justiça que regulam nossas ações. ”Na Riqueza das Nações, Smith deriva a propensão para a troca a partir das inclinações naturais do indivíduo naquele “estado rude e primitivo da sociedade”. A troca de mercadorias decorre da disposição natural dos indivíduos privados à relação com o “outro”, cimentando em bases firmes e racionais a nova “sociabilidade”.
Os indivíduos, produtores independentes de mercadorias, buscando o seu interesse, “constituem” a sociedade. Smith procede, na verdade, a uma “despolitização” das relações sociais, buscando afirmar a autonomia da sociedade econômica em relação ao Estado Absolutista, sublinhando o seu caráter natural e “espontâneo”, que se deixa revelar na sabedoria providencial e impessoal da Mão Invisível. Enquanto permanecia a dependência do político, como sustentavam as teorias economicas do mercantilismo, não era possível pensar a economia como um sistema racional, submetido à operação de leis semelhantes às que comandam o mundo físico e biológico.
A economia surge, portanto, com a pretensão de se constituir numa esfera privilegiada da convivência, em que a liberdade é uma imposição das leis que regem a natureza humana. As leis naturais decorrem da “razão”dos indivíduos que os predispõem às relações contratuais, mediante a livre disposição da vontade. Tais leis devem seguir o seu curso, desembaraçadas da interferência e do arbítrio da política. “Laissez-faire, laissez-passer” clamavam os fisiocratas, imaginando o organismo econômico como um análogo dos organismos biológicos.
A economia, ao longo do século XIX, tomou como paradigma cientifico a imponente construção da mecânica clássica e como paradigma moral o utilitarismo da filosofia radical do final do século XVIII. O homo oeconomicus, dotado de conhecimento perfeito, busca maximizar sua utilidade ou os seus ganhos, diante das restrições de recursos que lhe são impostas pela natureza ou pelo estado da técnica. O programa de investigação da corrente dominante em Economia continua a apoiar a sua construção no homo oeconomicus. O ser racional e calculador fundamenta a sociedade, definida como a agregação dos indivíduos atomizados. Se a concepção é atomística, então todas as causas devem ser extrínsecas. E se os sistemas não dispõem de uma estrutura intrínseca (isto é, esgotam-se nas propriedades atribuídas aos indivíduos que os compõem) toda a ação deve se desenvolver pelo contato. Os indivíduos “atomizados” não são afetados pela ação dos demais, isto é, as partículas que executam os cânones da ação utilitarista jamais alteram o seu comportamento na interação com as outras partículas carregadas de “racionalidade”.
Os fundamentos da teoria econômica dominante definem coerentemente o mercado como um ambiente comunicativo cuja função é a de promover de modo mais eficiente possível a circulação da informação relevante. Essa “ontologia do econômico” tem uma expressão metafísica e outra epistemológica. A metafísica reivindica o caráter passivo e inerte da matéria e a causação é vista como um processo linear e unidirecional, externo e inconsistente com a geração do novo. Na versão epistemológica, reduto preferido do positivismo, os fenômenos são apresentados como qualidades simples e independentes, apreendidas através da experiência sensível.

Nesse caso, a causalidade é vista como a concomitância regular de eventos que se expressa, depois de processada pelo sujeito do conhecimento, sob a forma de leis naturais. Não é surpreendente, portanto, que a suposição fundamental das teorias novo-clássicas, com expectativas racionais, afirme que a estrutura do sistema econômico no futuro já está determinada agora. Isto porque a função de probabilidades que governou a economia no passado é a mesma distribuição de probabilidades que a governa no presente e a governará no futuro. Haveria por detrás das ações humanas estruturas naturais capazes de garantir a reprodução, quase sem atritos, das relações sociais. Tudo o que é sólido não se desmancha no ar.

A Lógica e o Tempo
No livro Epistemics and Economics, o economista George Shackle cuida de encarar a questão da racionalidade, tão cara aos economistas. “O tempo e a lógica”, comenta Shackle, “são estranhos um ao outro. O primeiro implica a ignorância, o segundo demanda um sistema de axiomas, um sistema envolvendo tudo o que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”. George Shackle está simplesmente afirmado que a economia é um saber que está obrigado a formular suas hipóteses levando em consideração o tempo histórico, dimensão em que se desenrola a ação humana. Ela deve se entregar ao estudo do comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, no marco de instituições sociais e políticas produzidas ou construídas pelas ações e decisões do passado.
A especificidade da ação econômica, numa sociedade em que as decisões são “descentralizadas”, é definida pelo carater crucial das antecipações do grupo social que detêm o controle da riqueza e que deve decidir o seu uso a partir do critério da vantagem privadas. Por um lado, os planos individuais de utilização da riqueza não podem ser pré-reconciliados; de outra parte, os resultados não-intencionais do turbilhão de ações egoístas modificam irremediavelmente as circunstâncias em que as decisões foram concebidas.
Há, portanto, uma dupla incerteza. Shackle, combinando criativamente Hayek e Keynes, está conferindo às decisões empresariais de investimento um caráter crucial, na medida em que “criam o futuro”. Esta criação do futuro é, para ele, um ato que decorre do poder originário e irredutível dos que controlam a criação de riqueza no capitalismo. É um ato praticado em condições de incerteza radical que muda, a cada momento, a configuração da economia.
Sir Isaiah Berlin valeu-se de Arquíloco para distinguir dois tipos de sabedoria e de ciência: “A raposa sabe muitas coisas, o ouriço sabe uma grande coisa”. Shackle usou o texto de Berlin para definir Keynes e a Teoria Geral, diante do desencontro de idéias que assolou a chamada teoria econômica durante os anos 30. Shackle sugeria que, sob vistosa pelugem de raposa, escondia-se Keynes, o ouriço. A Teoria Geral parece ter muitas ideias, mas apenas uma é fundamental: a acumulação de riqueza numa economia descentralizada e monetária é um salto no vazio. Os detentores de riqueza sob a forma monetária são obrigados a apostar que nenhum fenômeno perturbador vai ocorrer, entre o momento em que tomam a decisão de empregar o seu dinheiro na contratação de fatores de produção e a recuperação, no futuro, deste valor monetário acrescido do lucro. Tais decisões são tomadas individualmente na suposição ilusória de que o futuro vai continuar reproduzindo o passado.
Keynes não estava negando a possibilidade de funcionamento das economias descentralizadas. Estava sugerindo que, ao contrário do que procurava demonstrar a bela arquitetura dos modelos de equilíbrio geral, a reprodução destas sociedades não estava garantida. Estava sim amparada em convenções precárias, que poderiam ser desfeitas por impulsos, medos e súbitas mudanças no estado de expectativas da classe social que detem o monopólio dos meios de produção. Esta classe de empresários e de senhores da finança têm a faculdade de usar o seu poder - conferido pela posse dos meios de produção e pelo controle do dinheiro e do crédito - para promover o próprio enriquecimento, em benefício do conjunto da sociedade ou simplesmente entregar-se ao“amor do dinheiro” e à proteção patrimonial, produzindo a pobreza coletiva.
O nascimento das ciências sociais e da economia tem a ver basicamente com a questão das condições de reprodução de uma sociedade fundada na divisão social do trabalho, na “separação” entre os indivíduos e na busca do enriquecimento privado. Keynes e Marx, como Hobbes, trataram desta questão, acima de todas as demais. O importante, porém, não foi a forma específica como cada um deles a tratou, mas o fato de que procuraram demostrar o caráter problemático da reprodução desse sistema social e econômico. Não falaram apenas de crises de funcionamento, de desajustes passageiros quase auto-regeneráveis, mas da possibilidade de um colapso nos processos de coordenação que permitem a compatibilização das decisões descentralizadas .
Um determinado grupo de indivíduos é responsável, nestas sociedades, pelas decisões cruciais. Não é suficiente que sejam sábios, prudente e virtuosos. Não haverá sabedoria ou virtude capaz de livrá-los de decisões socialmente insensatas, simplesmente porque eles não podem abandonar seus impulsos de acumular riqueza abstrata, nem - recorrendo à lógica e ao cálculo de probabilidades - adivinhar o futuro. Estão condenados a construir o futuro a cada momento, com o precário conhecimento do passado.
Keynes era organicista. Aceitava o entendimento conservador -antiliberal e anti-iluminista - que concebia a sociedade e o indivíduo como produtos da tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária, anti-vitoriana e, sobretudo anti-utilitarista. Não é casual, portanto, que ele tenha começado a sua vida intelectual criticando a racionalidade instrumental, operativa. Isso não quer dizer que recusasse o programa da modernidade, empenhado na progressiva liberdade e autonomia do indivíduo. Mas não acreditava que esta promessa pudesse ser cumprida numa sociedade individualista em que os possuidores de riqueza orientam o seu comportamento dentro das regras estabelecidas pelo ganho monetário. O “amor ao dinheiro”, sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista é um obstáculo ao processo de emancipação do sujeito, a menos que seus efeitos negativos sejam neutralizados pela atuação jurídica e política do Estado Racional.
Os incômodos causados por Keynes aos que postulam o paradigma da “racionalidade” foi e tem sido considerável. A inexistência de bases “racionais” para a tomada das decisões econômicas cruciais, aproxima perigosamente a economia e suas pretensões científicas do “inferno irracional” que os economistas imaginam cercar as decisões políticas. Um observador atento e participante ativo do debate econômico notou, com razão, que a corrente dominante considera não-científica qualquer teoria construída a partir da hipótese que afirma o caráter crucial das decisões capitalistas. Se há decisões que podem “criar o futuro” o processo econômico está mergulhado no fluxo do tempo histórico, que, dizem, só passa uma vez pelo mesmo lugar. A economia, transformada num “saber histórico”, converteria os economistas em cidadãos de segunda classe na hierarquia da comunidade científica.

Excursus Científico
Os economistas podem revigorar seu orgulho, se aceitarem, como consolo, ficar na companhia dos meteorologistas. Nos 50 e 60, o físico e matemático Von Neumann, pai do computador, imaginou a possibilidadede aumentar a precisão das previsões meteorológicas e de controlar as condições do tempo. O aparecimento dos satélites e da computação digital impulsionou ainda mais a confiança na transformação dos modelos de previsão em instrumentos tão precisos quanto a equação que descreve a queda dos corpos.
Nesse tempo, mais exatamente em 1960, o meteorologista e matemático Edward Lorenz construiu um sistema de 12 equações, um modelo puramente determinista. Dado um ponto de partida, as condições meteorológicas se desenvolveriam da mesma maneira, a cada vez. Alterado ligeiramente o ponto de partida, o tempo evoluiria de uma maneira diferente. Lorenz descobriu, no entanto, ao longo de suas simulações, que pequenas alterações nas condições iniciais podem tornar qualquer previsão sem qualquer valor. Os erros e incertezas interagem, se multiplicam e formam processos cumulativos. Uma brisa em Porto Alegre pode provocar uma tempestade em São Paulo.
Uma velha canção do folclore ilustra o que na Teoria do Caos foi designado como dependência sensível das condições iniciais. ”Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura/ Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo/Por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro/ Por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha/ Por falta da batalha, perdeu-se o reino”.
Sabe-se muito bem que, tanto na ciência quanto na vida, uma cadeia de acontecimentos pode ter um ponto de crise que vai aumentando com pequenas mudanças. Mas o caos significa que estes pontos estão por toda parte. Em sistemas como o do tempo, a dependência sensível das condições iniciais é a consequência inevitável da maneira pela qual as pequenas escalas se combinam com as grandes.
Se a companhia dos cientistas do clima não satisfaz, os economistas podem buscar arrimo na física do século XX . A termodinâmica, a física dos quanta e a teoria da relatividade – vem descobrindo que os caminhos na Natureza não podem ser previstos com exatidão. As pequenas diferenças, as flutuações insignificantes podem, se produzidas em circunstâncias apropriadas, invadir todo o sistema e engendrar um novo regime de funcionamento.
Uma das novidades da ciência contemporânea está em sua capacidade de revelar que a Natureza é muito mais rica em suas determinações do que supunha a nossa vã filosofia. Ilya Prigogine e Isabelle Stengers mostram que a fenomenologia descrita pela termodinâmica, pela física das partículas e pela teoria da relatividade “não só afirmam a seta do tempo, mas tambem nos conduzem atualmente a compreender um mundo em evolução, um mundo onde a “emergência do novo” reveste um significado irreversível... O ideal da razão suficiente supunha a possibilidade de definir a causa e o efeito, entre os quais uma lei de evolução estabeleceria uma equivalência reversível...” “Comecemos pelo próprio big bang. Como iremos ver, trata-se de uma consequência inevitável do próprio modelo standard atualmente dominante: se seguimos a evolução do universo em relação ao passado, chegamos a uma singularidade, a um ponto sem extensão” onde se encontra concentrada a totalidade da matéria e da energia do universo..., mas curiosamente, nem este modelo, nem a física em geral nos permitem descrevê-la: as leis físicas não se podem aplicar a um ponto de densidade infinita de matéria e energia.
”Prigogine e Stengers, nas considerações finais do livro “Entre o Tempo e a Eternidade”, concluem que as ciências não refletem a identidade estática de uma razão à qual era necessário submeter-se ou resistir, mas participam da criação de sentido (itálicos meus, LGMB) ao mesmo nível que o conjunto das práticas humanas. “Elas não nos podem dizer o que “é ” o homem, a natureza ou a sociedade de tal maneira que, a partir desse saber, possamos decidir a nossa história.”


Luiz Gonzaga Belluzzo – Economista e professor – 18.10.2011
IN “Carta Maior” – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18727