segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Há uma nova classe média surgindo no Brasil?


Em novo livro, Marcio Pochmann sustenta que o resgate da condição de pobreza e o aumento do padrão de consumo não tiram por si só a maioria da população emergente da classe trabalhadora. Para o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é preciso a politização classista desse fenômeno para aprofundar a transformação da estrutura social, sem a qual a massa popular em emergência ganha um caráter predominantemente mercadológico, individualista e conformista sobre a natureza e a dinâmica das mudanças socioeconômicas no Brasil.

Redação Carta Maior
O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann está lançando, pela Boitempo, um estudo sobre a mobilidade na base da pirâmide social brasileira durante o início do século XXI. Nova classe média? analisa as recentes transformações na sociedade e refuta a idéia de surgimento de uma nova classe no País, muito menos a de uma nova classe média.
O resgate da condição de pobreza e o aumento do padrão de consumo, afirma Pochmann, não tiram a maioria da população emergente da classe trabalhadora. Para ele é preciso a politização classista do fenômeno para aprofundar a transformação da estrutura social, sem a qual a massa popular em emergência ganha um caráter predominantemente mercadológico, individualista e conformista sobre a natureza e a dinâmica das mudanças socioeconômicas no Brasil.
Pochmann faz nesse livro “uma reflexão sobre transformações recentes ocorridas no país, com a volta do crescimento econômico, e as características das ocupações e das relações de trabalho na base da pirâmide social. E em cada um dos capítulos, defende pontos de vistas que não são consensuais entre os especialistas, o que torna ainda mais importante a sua leitura”, afirma José Dari Krein, professor do Instituto de Economia da Unicamp e autor do texto de orelha. 
Em contraposição à visão predominante, que busca explicar o atual processo pela emergência de uma nova classe média, o livro mostra que, apesar dos avanços recentes, a dinâmica das ocupações e do rendimento requer algo mais do que a inserção das pessoas no mercado de consumo.
A análise dos dados mais recentes mostra que a melhora dos indicadores na distribuição da renda do trabalho e de seu aumento na participação da riqueza gerada concentra-se, fundamentalmente, na base da pirâmide social, o que revela também os seus limites. 
O economista aponta que no Brasil as ocupações formais cresceram fortemente durante a primeira década de 2000, especialmente nos setores que têm uma remuneração muito próxima ao salário mínimo: 94% das vagas criadas entre 2004 e 2010 foram de até 1,5 salário mínimo. Juntamente com as políticas de apoio às rendas na base da pirâmide social brasileira, como elevação do valor real do salário mínimo e massificação da transferência de renda, houve o fortalecimento das classes populares assentadas no trabalho.
“O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais”, sugere Pochmann na apresentação do livro. 
Nesse sentido, o autor aponta o fortalecimento dos planos privados de saúde, educação, assistência e previdência, entre outros, como consequência de uma reorientação das políticas públicas para a perspectiva fundamentalmente mercantil, baseada na interpretação da classe média (nova). Com isso, recoloca-se a necessidade de construir serviços públicos de qualidades e de uma efetiva estruturação do mercado de trabalho (emprego de qualidade e protegido) em nosso país, aspectos decisivos para enfrentar a precariedade no setor.


Trecho da apresentação
“Mesmo com o contido nível educacional e a limitada experiência profissional, as novas ocupações de serviços, absorvedoras de enormes massas humanas resgatadas da condição de pobreza, permitem inegável ascensão social, embora ainda distante de qualquer configuração que não a da classe trabalhadora. Seja pelo nível de rendimento, seja pelo tipo de ocupação, seja pelo perfil e atributos pessoais, o grosso da população emergente não se encaixa em critérios sérios e objetivos que possam ser claramente identificados como classe média. 
Associam-se, sim, às características gerais das classes populares, que, por elevar o rendimento, ampliam imediatamente o padrão de consumo. Não há, nesse sentido, qualquer novidade, pois se trata de um fenômeno comum, uma vez que trabalhador não poupa, e sim gasta tudo o que ganha. Em grande medida, o segmento das classes populares em emergência apresenta-se despolitizado, individualista e aparentemente racional à medida que busca estabelecer a sociabilidade capitalista. 
(...) Percebe-se sinteticamente que a despolitizadora emergência de segmentos novos na base da pirâmide social resulta do despreparo de instituições democráticas atualmente existentes para envolver e canalizar ações de interesses para a classe trabalhadora ampliada. Isto é, o escasso papel estratégico e renovado do sindicalismo, das associações estudantis e de bairros, das comunidades e base, dos partidos políticos, entre outros.”



Redação Carta Maior  27.04.2012        



 



De repente, classe C

Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na TV até trocaram um jornalista para me agradar

Leandro Machado
Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C.
Com a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma.
Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal.
(Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.)
A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu.
A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua.
Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.
As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.
De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI.
E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância.
Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber?
E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula.
Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?)
O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro.
Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas -não somos pobres, mas classe C.
Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda?


Leandro Machado – Estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo, mora em Ferraz de Vasconcelos (SP) e escreve no blog Mural, da Folha – 15.07.2012
  

sábado, 4 de agosto de 2012

A mão no vespeiro


O governo quer alterar as regras da aposentadoria do funcionalismo.
A distância entre esses dois mundos - o dos servidores federais e o do INSS - é de fato enorme quando se olha para os principais números da Previdên­cia. Do lado público, 958 mil servidores aposentados receberão neste ano 53 bi­lhões de reais. No INSS, 24 milhões de cidadãos receberão 43 bilhões de re­ais, e praticamente 70% dos aposenta­dos recebem até um salário mínimo ao mês.

Luiz Antonio Cintra
Discussão em torno das regras que regulam a aposentadoria dos servidores públi­cos federais entrou na pauta do Congresso Nacional, após quatro anos hibernando diante da resistência dos sindicatos e lideranças partidárias ligadas ao funcionalismo. Agora virou prioridade para o governo Dilma Rous­seff, que concedeu ao PL 1.992/07 a tra­mitação em regime de urgência.
A expectativa do governo é aprovar a medida com rapidez para que o proje­to siga ao Senado após o recesso e entre em vigor ainda no primeiro trimestre de 2012. Com isso, os servidores contrata­dos por concurso a partir de 2012 entra­riam sob as novas regras, alterando a tra­jetória do déficit da previdência no mé­dio prazo, que tem crescido ano a ano. Em 2011, a expectativa é que chegue a 57 bilhões de reais, ante 51 bilhões de 2010.
Por causa do regime de urgência, os deputados federais terão 45 dias para apreciar o esboço de lei ordinária, que desde a segunda-feira 21 tranca a pau­ta de votações da Câmara. Com a me­dida, o governo pretende igualar o te­to da aposentadoria dos futuros ser­vidores ao dos aposentados da inicia­tiva privada que recebem pelo Insti­tuto Nacional de Seguridade Social (INSS), hoje em 3.691,41 reais. Os ser­vidores teriam ainda a opção de ade­rir a um fundo de previdência comple­mentar, o Fundo de Previdência Com­plementar do Servidor Público Fede­ral (Funpresp), previsto no projeto. A regulação prevê uma contribuição di­vidida em partes iguais, até o máximo de 7,5% para a União. Caberá aos ges­tores do Funpresp aplicar os recursos no mercado financeiro, como fazem os fundos de pensão, de modo a garantir os recursos necessários para bancar as aposentadorias futuras. O gover­no diz que com o acréscimo dos rendi­mentos do fundo a aposentadoria dos servidores equivalerá ao provento sob as regras atuais, que usa a média sala­rial dos últimos anos da ativa. Para a União, representaria uma economia, já que hoje ela contribui com 22% do sa­lário e os servidores com 11%.
Segundo especialistas, a pressa do governo seria uma estratégia para evi­tar que os sindicatos dos servidores ­historicamente próximos do PT, mas também do PDT, PSB e PCdoB, todos da base governista - impeçam a apreciação da medida, ainda que os efeitos se res­trinjam aos funcionários contratados a partir da data da promulgação da lei.
Os defensores da medida, por sua vez, argumentam que o PL trata de seguir o espírito da Emenda Constitucional 41, aprovada no primeiro mandato do go­verno Lula, que pretendia aproximar os regimes de previdência do setor público e aquele dos trabalhadores da iniciativa privada, que recebem pelo INSS.
A distância entre esses dois mundos - o dos servidores federais e o do INSS - é de fato enorme quando se olha para os principais números da Previdên­cia. Do lado público, 958 mil servidores aposentados receberão neste ano 53 bi­lhões de reais. No INSS, 24 milhões de cidadãos receberão 43 bilhões de re­ais, e praticamente 70% dos aposenta­dos recebem até um salário mínimo ao mês, Índice que sobe a mais de 90% no caso das aposentadorias rurais.
"Esses números foram a fonte que ins­pirou a buscar a convergência das regras. Não é justo que haja essa discrepância de regras e regimes", diz Helmut Schwarzer, ex-secretário do Ministério da Previdên­cia Social, hoje pesquisador sênior em se­guridade social da Organização Interna­cional do Trabalho (OIT), baseado em Ge­nebra. Em 2007, Sehwarzer participou do grupo interministerial que elaborou o PL 1.992/07, com representantes dos ministé­rios da Previdência Social, Fazenda e Pla­nejamento. "Foi esse o sentido da Emen­da Constitucional 41, que entrou em vigor em 2004, com a qual a União passou a eco­nomizar até 0,5% do PIE ao ano, recursos que abriram espaço no Orçamento inclu­sive para ampliar politicas de proteção so­cial como o Bolsa Família", diz Schwar­zero Àquela altura, o governo preferiu dei­xar de lado a discussão em torno do siste­ma de previdência dos militares, que se­guirá com regras diferenciadas e não se­rá afetado pelo projeto.
Na ocasião, ficou evidente que o Funpresp teria condições de ganhar relevância fi­nanceira com o passar do tempo. Segun­do Schwarzer, a estimativa é que o fundo chegue a ocupar a quinta posição em volu­me de recursos em um prazo de 20 anos. Hoje equivaleria à posição ocupada pelo fundo de funcionários da Vale, o Valia, cujo patrimônio é de cerca de 14 bilhões de reais. Ainda que distante do primeiro co­locado, o Previ, cujos ativos somam mais de 150 bilhões de reais, trata-se de um vo­lume de recursos considerável.
Especialistas em contas públicas tam­bém veem com bons olhos o projeto de lei. "Hoje os aposentados do setor público re­cebem basicamente salário integral quan­do se aposentam, com pensões muito fa­vorecidas. E com o aumento da expecta­tiva de vida o setor público acaba pagan­do essas aposentadorias durante muitos anos", diz o economista Raul Veloso. "Es­sa situação aumenta muito os gastos da União e está fora de sintonia com o que se passa no INSS ou nas estatais. O PL cria uma trajetória de gasto muito diferente, ainda que no curto prazo represente al­gum custo extra para a União."
A análise do consultor Amir Khair se­gue na mesma direção. "O governo de­veria jogar com muita força. Seria uma vitória importante, pois o déficit do se­tor público é crescente", afirma o espe­cialista, para quem o regime geral, do INSS, seria sustentável, desde que se re­duzam a inadimplência, as licenças médicas 'e alguns "exageros" nas pensões. "Essa discussão se arrasta desde o início do governo Lula, mas parece que a so­ciedade acordou", explica Khair, que foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina.
Os sindicatos de servidores públicos e al­guns parlamentares apresentaram sua ar­gumentação contrária ao PL. "Essa pro­posta não é boa nem para o Brasil nem pa­ra os servidores", diz o deputado Rober­to Policarpo (PT-DF), cuja trajetória polí­tica começou em um sindicato ligado aos servidores do Judiciário do Distrito Fede­ral. "O problema do déficit está nos servi­dores do Executivo, que desde os anos 90 passou por um desmonte. Com as terceiri­zações e demissões, a relação de servido­res da ativa e aposentados passou a ser de um para um, quando o desejável seria de três da ativa para cada aposentado. No Ju­diciário, onde cssa relação é de quatro pa­ra um, o problema não existe. Defendo o tratamento igual (entre servidores e aposentados do INSS), mas desde que seja pa­ra melhorar, não para piorar", diz o depu­tado, que sugere a retirada do regime de urgência para mais discussões.
Presidente do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, Pedro Delarue também afirma que o projeto não deve ser aprovado. "O fun­cionalismo público é uma carreira dife­rente da do setor privado, com limita­ções e compromissos. osso regime é de dedicação exclusiva para o Estado, não podemos fazer 'bicos' ou ter dois empregos. Para conseguir um aumento, é pre­ciso que se crie uma lei, não basta pe­dir aumento ao chefe. Se cometer algum crime, a pena é maior quando se trata de um funcionário público. E a nossa con­tribuição (de 11%) incide sobre o salário da ativa, não sobre o teto da aposentado­ria, como no INSS", diz o sindicalista.
Para Delarue, a sociedade será a maior prejudicada no médio prazo, ca­so o PL vire lei. "Se não houver atra­tivos, não há como fisgar as melhores cabeças para atuar no Estado. Um mi­nistro do STF, por exemplo, que ganha no topo da carreira perto de 26 mil re­ais, contribui com 2,8 mil reais ao mês. O problema do INSS é que o patrimô­nio do FGTS foi dilapidado ao longo do tempo, por isso existe esse déficit."
Assim como o Sindifisco Nacional, outros sindicatos de servidores sinali­zaram a intenção de recorrer à Justiça caso a mudança seja aprovada. Entre os pontos mais criticados está a obri­gatoriedade de terceirizar para a iniciativa privada a gestão do Funpresp.
"A expectativa é que eja aprovado nas próximas semanas", diz o deputa­do Ricardo Berzoini (PT- P). "Consi­deramos legítimas as críticas dos sin­dicatos, mas a bancada petista de mo­do geral aceitou o conceito. Como pre­cisaremos perto de 250 votos para aprovar, acho que não teremos proble­mas. A urgência justifica-se porque o governo tem a necessidade de contra­tar bastante no ano que vem."
Também da base, o deputado Silvio Costa (PTB-PE) defende a aprovação com veemência, inclusive por conside­rar um "escândalo" o modelo vigente. "Aprovar esse projeto é uma questão de responsabilidade pública. Ou resol­vemos esse problema ou vai faltar di­nheiro para pagar os aposentados."
Nas negociações recentes, contudo, o projeto original começou a sofrer altera­ções. De um lado, a necessidade de tercei­rizar a gestão "subiu no telhado". Além dis­so, também está em discussão fatiar o Fun­presp em três fundos, um para cada Poder.
Schwarzer, da OIT, critica as du­as alterações em negociação e recorda os princípios que nortearam a discus­são técnica. "A terceirização da ges­tão afastaria o risco de a administra­ção dos recursos sofrer pressão políti­ca. Assim como é equivocado criar três institutos. Seria como repetir o erro histórico do passado, aliá, de toda a América Latina, que fragmentou o sis­tema previdenciário, abrindo espaço para os tratamentos diferenciados."


Luiz Antonio Cintra – Editor de economia da Carta Capital – 27.11.2011

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O preconceito e a mediocridade


o que permanece espantosamente vivo, ainda hoje, é a consciência preconceituosa, nuançada, mas eficaz politicamente. imputa-se facilmente aos pobres, de um modo ou outro, toda sorte de incompetência moral e é ela que legitima as pessoas superiores a dirigir-lhes a vida em todos os sentidos.

Walquiria Leão Rego
A pobreza sempre despertou sentimentos ambíguos e complexos. De um lado, por ser fonte de enormes preconceitos e estereótipos de parte das ditas elites. De outro, por indicar aos mais sensíveis que algo vai mal na sociedade. Contudo, na maioria das vezes, sua miopia ética e política opera invertendo a realidade dos pobres, pois os transforma em culpados de sua situação, partem da premissa de que todos os homens são autores de seu próprio destino, logo, a pobreza torna-se uma espécie de escolha existencial.
Os modos de no referirmos a esse sofisma barato variam muito e todos acreditam que sabem das razões da pobreza. Entretanto, o que permanece espantosamente vivo, ainda hoje, é a consciência preconceituosa, nuançada, mas eficaz politicamente. Ou seja, imputa-se facilmente aos pobres, de um modo ou outro, toda sorte de incompetência moral e é ela que legitima as pessoas superiores a dirigir-lhes a vida em todos os sentidos.
Por isso, a doação de cestas básicas faz tanto sucesso entre as classes média e alta, pois se determina nela o “consumo adequado”. Transferência pública de dinheiro é condenável como dano social, pois estimula a vagabundagem e a irresponsabilidade com a vida. Viviana Zelizer, socióloga norte-americana, mostra bem em seus trabalhos como é antiga a posição que rejeita veementemente a transferência pública de dinheiro, percebeu-a inclusive fortemente no interior das organizações de assistência aos pobres. Em suma, os caridosos manifestaram ao longo da história incompreensão total da importância do dinheiro como renda para permitir o desenvolvimento da liberdade e da autonomia dos indivíduos.
Nossas pesquisas demonstram que os pobres não pensam assim. Dona Amélia, da cidade de Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha, fala claramente: “A gente tem mais liberdade no dinheiro”
Por que tem mais liberdade?
“Porque a gente pode comprar mais o que quer, né? Porque o marido também tem mais liberdade, mas se vai comprar ele compra o que quer, e se for eu, compro o que eu quero.”
Infelizmente, a fala preconceituosa continua a repetir seus dogmas seculares. Os pobres são incapazes de razão prudencial, vão gastar o dinheiro inutilmente, pois não sabem consumir adequadamente os bens necessários à sua sobrevivência. Apenas se devem doar vales devidamente destinados a determinado bem, ou alimentos, remédios e roupas. Ao Estado, fundamentalmente, cabe discipliná-los. Por tudo isso, pesa sobre os pobres uma carga imensa de humilhação e sofrimento que acaba por transformá-los em pessoas destituídas de muitas das capacidades humanas, reclamadas exatamente pelos que as exploram e estigmatizam.
Há outra visão da questão: a pobreza é fruto de injustiças e desigualdades sociais iníquas. Se ela é socialmente produzida, pode também ser socialmente superada. Sua presença tem de ser objeto de visibilidade política e de debate público, pois sua solução não é simples. Torná-los visíveis significa resgatá-los como sujeitos humanos portadores de subjetividades diferenciadas, e por essa razão, não a única, converterem-se em objeto de políticas públicas cuidadosas e bem desenhadas, especialmente discutindo sua formulação com seus representantes legítimos.
No Brasil atual, por ocasião da entrada em vigor da política de transferência estatal de renda de grande amplitude espacial, o programa Bolsa Família, revivemos pela mídia, em artigos, cartas do leitor, e, às vezes, entrevistas de gente da universidade a repetição insistente dos velhos preconceitos. O Bolsa Família os acomodará na vida, os transformará em clientes eternos do Estado. No caso desse programa, misturaram-se em uma poção perversa os preconceitos contra os pobres e os estereótipos machistas contra as mulheres pobres, do tipo: agora elas vão se encher de filhos para não trabalhar e viver à custa do Estado.
Necessário anotar a existência nessa configuração ideológica de imputações negativas dirigidas aos pobres, às suas formas mais sutis, mas que não deixam de revelar a estrutura preconceituosa. O exemplo mais ardiloso comparece na fala “erudita” da “porta de saída” que o governo precisa criar urgentemente para essa gente, as bolsistas. Precisamos crescer economicamente, o que todos desejamos, contudo, o vício economicista persiste, ao associar crescimento econômico automaticamente com emprego e vida decente para todos. Nossa história nos desmente: tornamo-nos uma economia industrial e moderna e simultaneamente produzimos uma nação partida, habitada por brasileiros detentores de altas rendas e grandes privilégios e uma imensa maioria de pobres destituídos de quaisquer direitos.
Foi esse o saldo social da nossa grande industrialização. Não a utilizamos na construção de estruturas públicas massivas de qualidade, como boa escola pública, creches,generalização de postos de saúde, hospitais. Colocamos esses direitos inalienáveis fora de nossa gramática política e moral; destruiu-se e se tenta sempre liquidar qualquer possibilidade da expressão política organizada dos pobres. Foi o modo brasileiro de silenciá-los e assim torná los invisíveis. A renda monetária é um direito universal, confirma o direito à vida, prescrito na Constituição de 1988.
Diante disso, como exigir “portas de saída”, o que vem a ser isso? O discurso é claro, destinado àqueles que constituem, parafraseando Hannah Arendt, “povos sem Estado.” Ora, esse imenso contingente de seres humanos foi destituído de escolaridade, capacitações técnicas, cultura em sentido amplo. De nada adianta construir milhões de escolas se os professores permanecem ganhando salários vergonhosos, e também não podem se preparar para capacitar pessoas e formar cidadãos ativos.
No interior do Piauí, dona Inês nos dizia: “Dona, o cartão do Bolsa foi o único crédito que tive na vida, antes eu não tinha nada, agora os comerciantes confiam em mim. Tudo que se quer fazer na vida é com dinheiro, é pagando”.
Dona Inês entendeu bem a importância da monetarização das relações na vida social. No interior de Alagoas, no alto sertão, contou-nos um trabalhador que, quando conseguia trabalho – claro, temporário, sem nenhum direito -, ganhava menos que sua mulher recebia do Bolsa Família. Outro dizia que as jornadas de trabalho, quando apareciam, para algum bico, não conheciam limites. Então, continua a indagação: o que são as tais portas de saída celebradas pela mídia? Como as mulheres pobres, normalmente com escolaridade precária, vão ao trabalho, quando existe, se não existem creches, escolas em tempo integral para ali deixarem seus filhos? Dona Marina, do bairro de Manguba na periferia do Recife, nos disse:”Com o Bolsa agora posso ficar em casa cuidando de meus filhos; quando trabalhava, eles ficavam na rua, isso só fazia aumentar ainda mais minha aflição, pois não tenho onde deixar as crianças depois que saem da escola”.



Walkiria Leão Rego – Professora titular de sociologia da Unicamp – 07.03.2012