quarta-feira, 15 de abril de 2015

Bolsa Família enfraquece o coronelismo e rompe cultura da resignação, diz socióloga


Walquiria Leão Rego – “Há uma crueldade social, uma sociedade com desigualdades tão profundas e tão antigas. Não se olha o outro como um concidadão, mas como se fosse uma espécie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravidão. Nenhum país tem mais de três séculos de escravidão impunemente. (...) De repente se ganha uma certa dignidade na vida, algo que nunca se teve, que é a regularidade de uma renda. Se ganha uma segurança maior e respeitabilidade. Houve também um impacto econômico e comercial muito grande. Elas são boas pagadoras e aprenderam a gerir o dinheiro após dez anos de experiência. Não acho que resolveu o problema. Mas é o início de uma democratização real, da democratização da democracia brasileira. É inaceitável uma pessoa se considerar um democrata e achar que não tenha nada a ver com um concidadão que esteja ali caído na rua. Essa é uma questão pública da maior importância”.

Eleonora de Lucena
Dez anos após sua implantação, o Bolsa Família mudou a vida nos rincões mais pobres do país: o tradicional coronelismo perde força e a arraigada cultura da resignação está sendo abalada.
A conclusão é da socióloga Walquiria Leão Rego, 67, que escreveu, com o filósofo italiano Alessandro Pinzani, "Vozes do Bolsa Família" (Editora Unesp, 248 págs., R$ 36). O livro será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila do shopping Pátio Higienópolis. No local, haverá um debate mediado por Jézio Gutierre com a participação do cientista político André Singer e da socióloga Amélia Cohn.
Durante cinco anos, entre 2006 e 2011, a dupla realizou entrevistas com os beneficiários do Bolsa Família e percorreu lugares como o Vale do Jequitinhonha (MG), o sertão alagoano, o interior do Maranhão, Piauí e Recife. Queriam investigar o "poder liberatório do dinheiro" provocado pelo programa.
   
Aproveitando férias e folgas, eles pagaram do próprio bolso os custos das viagens. Sem se preocupar com estatística, a pesquisa foi qualitativa e baseada em entrevistas abertas.
Professora de teoria da cidadania na Unicamp, Rego defende que o Bolsa Família "é o início de uma democratização real" do país. Nesta entrevista, ela fala dos boatos que sacudiram o programa recentemente e dos preconceitos que cercam a iniciativa: "Nossa elite é muito cruel", afirma.
(...)








Walquiria Leão Rego – Pesquisadora e Professora da Universidade Estadual de Campinas
Eleonora de Lucena – 12.06.2014

IN Folha de São Paulo.

domingo, 12 de abril de 2015

O Brasil e a África negra

 

Já está em pleno curso uma nova corrida imperialista, entre as grandes potências, e um dos focos desta disputa é, mais uma vez, a própria África.


José Luís Fiori
Ao incluir a África dentro do seu "entorno estratégico" e ao se propor aumentar sua influência no continente africano, o Brasil precisa ter plena consciência que está entrando num jogo de xadrez extremamente complicado. Porque já está em pleno curso - na 2ª década do século XXI - uma nova "corrida imperialista" entre as "grandes potências" e um dos focos desta disputa é, mais uma vez, a própria África.
A África é o segundo maior e mais populoso continente do mundo: tem uma área de 30.221. 532 km2 e uma população de cerca de 1 bilhão  de habitantes, 15% da população mundial. O continente inclui a ilha de Madagascar, vários arquipélagos , 9 territórios e 57 estados independentes. Os europeus chegaram à costa africana e iniciaram seu comércio de escravos negros, no século XV e XVI, mas foi só no século XIX, que as grandes potências europeias ocuparam e impuseram sua dominação em todo continente, menos a Etiópia.






José Luís Fiori – 27.11.2013
IN Valor Econômico, ed.  impressa. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O que é ser de esquerda hoje?


Diferentemente dos saudosos do regime civil-militar, a esquerda que eu conheço, com a qual me identifico e sempre me identificarei, apoia as comissões da verdade, para que as atrocidades não voltem a acontecer. E não, a esquerda que eu conheço não ignora as atrocidades dos regimes comunistas e não milita em sua defesa. Não relativiza os crimes de Stálin nem coloca Fidel Castro entre Cristo e o Império. Ela tem a plena noção do anacronismo de um regime fechado, boicotado e sufocado – e a solidariedade com a população local não a impede de rejeitar os convites para se mudar para lá de mala e cuia. Nem de aceitar a sua ajuda no atendimento básico em nossos rincões desprezados pelos doutores locais. O que não faltam são motivos para ficar.
A esquerda que eu conheço não tem saudade de quando podia trocar migalhas por serviço braçal, e isso confere a ela uma outra diferença básica em relação à direita: ela é menos apegada a alguns imperativos aparentemente inegociáveis. Por exemplo, a maioria deles não quer ser servida por empregados. Não quer enriquecer. Não quer morrer sufocada na mesma empresa. Não quer se enforcar para pagar o carro ou a viagem do ano. Carro, aliás, não é assunto nem fetiche: é um meio. Um meio, se possível, dispensável. Assunto mesmo é espaço público, direito à cidade, humanidade das calçadas. Por isso seus militantes vão às ruas quando o sistema de transporte coletivo falha ou quando ciclistas são atropelados como se fossem papel. Não significa que não gostem de carros nem de viagens nem de bons restaurantes: apenas querem que todos caminhem e que todos se alimentem. Privilégio, para eles, é ofensa, não meta de vida. Segurança não é paranoia para justificar a própria demofobia. Ou a misoginia.

A eleição de 2014 parece ter dado um nó na cabeça de meio mundo. Meio mundo literalmente. Na campanha, o candidato favorito de certa direita – a que faz troça sobre política distributiva e pede a construção de muros para anular desigualdades – tinha como compromisso a manutenção e o aperfeiçoamento dos programas sociais. Derrotada nas urnas, parte dos eleitores, com o calendário de 1963 colado na parede, pediu socorro aos militares e aos EUA – onde, por acaso, o presidente se bateu para universalizar o acesso à saúde pública e é chamado de comunista. Tomou dois sonoros “pedala”.
O nó ficou maior quando a candidata de esquerda recém-reeleita passou a busca no mercado um nome para compor seu Ministério da Fazenda. Ou quando o seu Banco Central, e não o dos adversários, elevou a taxa básica de juros para frear a inflação. A mesma presidenta, ao voltar de férias, teceu elogios ao neoaliado PSD, partido criado por Gilberto Kassab, que já declarou não ser nem de direita nem de esquerda nem de centro nem muito pelo contrário.
Os sinais trocados são amostras de um período que, na melhor das hipóteses, dissolve a narrativa entre progressistas e conservadores, e, na pior, coloca esquerda e direita no mesmo balaio. A sensação é enganosa, e demonstra a urgência de se definir posições para além dos rótulos.
(...)
Para continuar a leitura, acesse https://br.noticias.yahoo.com/blogs/matheus-pichonelli/ser-esquerda-hoje-190222537.html







Matheus Pichonelli - Jornalista e cientista social – 05.11.2014
IN Yahoo notícias.