segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Ustra está morto. Viva a tortura!


O coronel Ustra teve a finalização das funções de seu corpo físico. Contudo, a máquina de triturar corpos e produzir medo, em meio à democracia, permanece.

Edson Telles
Morreu o coronel Ustra, comandante por quatro anos do maior centro de torturas do Exército brasileiro durante a ditadura, o Doi-Codi da rua Tutoia em São Paulo.
 
No pensamento político inglês do século XVI se estabeleceu a teoria dos dois corpos do Rei. Além do corpo físico e biológico comum a qualquer outro ser humano, o rei possuía um corpo místico, que nunca morria, simbólico e jurídico, indicando as funções de poder do reinado. Se o corpo natural estava exposto à morte, às perversões e à impunidade, o outro corpo definia-se pelas estratégias políticas. Por isto vemos em alguns filmes de época a expressão “O Rei está morto. Viva o Rei!”, demonstrando que as estruturas políticas permanecem apesar da morte do corpo físico que executava aquelas atividades próprias às suas engrenagens.
 
O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por tortura, assassinatos e desaparecimentos de corpos teve, recentemente, a finalização das funções de seu corpo físico. Contudo, a máquina de triturar corpos, produzir medo, implantar o terror, agora em meio à democracia, permanece. A tortura enquanto estratégia política de controle, disciplinarização, punição e ameaça mantém suas funções.
(...)




Edson Telles – Professor de filosofia na Universidade Federal de São Paulo e ativista da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos da Ditadura - 23.10.2015
IN Carta Maior.




Ustra: um corpo sem dignidade

seu corpo, que será enterrado ou cremado inteiro, com atestado de óbito verdadeiro, com todos os cuidados médicos e na companhia de seus familiares que dele poderão se despedir é um corpo sem dignidade. É o corpo de um torturador covarde. É o corpo de um violador dos direitos humanos. É o corpo de alguém que matou, torturou, desapareceu e ainda achava que agiu corretamente. Morre reivindicando seus atos em gozo da liberdade e da impunidade que os verdugos não merecem. É o corpo impune que atesta a falta de justiça da nossa democracia.

Renan Quinalha
OBITUÁRIO COM HURRAS, de Mario Benedetti
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viva
morreu o cretino
vamos festejá-lo
e não chorar como de hábito
que chorem os que são como ele
e que engulam suas lágrimas
foi-se embora o monstro magnata
acabou-se para sempre
vamos festejá-lo
sem ficar mornos
sem acreditar que este
é um morto qualquer
vamos festejá-lo
sem ficar frouxos
sem esquecer que este
é um morto de merda

***

Ustra morreu hoje. Com 83 anos, faleceu tranquilamente em um hospital, com tratamento médico adequado e na companhia de sua família. Em tudo o oposto do sofrimento atroz que impingiu às suas vítimas e seus familiares.
Coronel da ditadura, Ustra comandou o principal centro clandestino de detenção e tortura brasileiro. No DOI-CODI de São Paulo, onde era conhecido como ‘major Tibiriçá’, pelas suas mãos sujas de sangue, entre 1970 e 1974, passaram ao menos 50 pessoas que foram mortas ou estão até hoje desaparecidas, além de mais de 500 pessoas torturadas barbaramente.
Sua família terá um corpo presente para velar e consumar o luto da sua perda. Não será um corpo torturado como o dos milhares de presos políticos, que passaram pelos cárceres ilegais da ditadura brasileira. Não será um corpo enforcado como o de Vladimir Herzog. Não será um corpo desfigurado como o de Eduardo Leite (Bacuri). Não será um corpo mutilado, como o de Luiz Eduardo da Rocha Merlino. Não será um corpo desaparecido, como o deHirohaki Torigoe. Não será um corpo baleado, como o de Carlos Marighella. Não será um corpo sepultado como indigente ou com nome falso, como no caso de Luiz Eurico Tejera Lisboa. Não será um corpo jogado em uma vala comum, como o de Flávio Carvalho Molina. Não será um corpo enterrado e desenterrado diversas vezes para depois ser atirado no alto mar, como o de Rubens Paiva
(...)
Para continuar a leitura, acesse http://justificando.com/2015/10/15/ustra-um-corpo-sem-dignidade/






Renan Quinalha – Advogado – 15.10.2015
IN Justificando.com.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Pochmann vê risco de retrocesso na redução da desigualdade no país


Márcio Pochmann – “Eu diria que há no Brasil, historicamente, uma tensão muito grande quanto à perspectiva do desenvolvimento econômico, entre o desenvolvimentismo e o que hoje é chamado de neoliberalismo. Há uma tensão entre os desenvolvimentistas e a escola que vê basicamente o desenvolvimento como produto do mercado, das forças do mercado. 
(...)
Infelizmente, porém, estamos vivendo um momento de cólera, de ódio, que muitas vezes aquilo que é o nosso campo, que é o debate de ideias, acaba sendo ultrapassado por visões que a gente só pode lamentar, porque na verdade não são frutíferas.
A questão mais geral da disputa gira em torno do papel do Estado. Porque temos uma crença de que o capitalismo não se desenvolve, e nem resolve suas crises, que são inerentes, de modo próprio: ele pressupõe a ação do Estado.
Então essa é a grande diferença, porque há a crença, renovada em torno do neoliberalismo, que não cabe ao Estado qualquer ação porque, quanto mais houver liberdade da competição, mais ela, por si só, gera o desenvolvimento. Como se o desenvolvimento fosse algo espontâneo, autônomo. Nós não partimos desse pressuposto – acreditamos que o capitalismo, deixado livre à sua própria dimensão, produz mais crises “.

Jornal da Unicamp
O economista, pesquisador e docente do Instituto de Economia (IE) da Unicamp Marcio Pochmann, ex-presidente do Ipea, vê em 2015 um risco de retrocesso na trajetória de redução da desigualdade que o Brasil traçou na primeira década do século 21. “Neste ano temos um fato novo, que é um ponto de inflexão na trajetória, que vem dos anos 2000, em relação à questão da desigualdade”, disse ele. “Nós possivelmente deveremos ter um retrocesso. Já estamos observando um aumento do desemprego e uma queda na massa de salários, diante inclusive dos lucros apresentados pelos bancos: deveremos ter talvez quase 10% do PIB transferido para o sistema bancário em função das altas taxas de juros. Esse quadro põe um ponto de interrogação numa trajetória de redução da desigualdade”.
Pochmann falou com o Jornal da Unicamp no lançamento de seu livro Desigualdade Econômica no Brasil, que reúne dados sobre as diferenças de renda e riqueza entre os brasileiros, as classes sociais, municípios e regiões do Brasil, incluindo-os numa perspectiva histórica. “Em primeiro lugar, é preciso entender que a desigualdade que temos hoje tem a ver com o passado. Um passado que se forjou a partir de um processo de exclusão gerado pela escravidão”, lembrou. 
“É uma desigualdade que tem passado, mas também tem presente, e que resulta, por exemplo, nas ineficiências do Estado brasileiro, da fortaleza do Estado em tributar os pobres e não tributar os ricos: essa é uma questão que resulta das opções que o Brasil tem feito”, afirmou. “Mas eu diria que, pelas experiências recentes que tivemos, que o Brasil pode acelerar o passo e avançar mais rapidamente para construir uma sociedade menos desigual do que a que temos atualmente”.
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Márcio Pochmann – Ex-presidente do IPEA, Professor do Instituto de Economia da Unicamp.
Carlos Orsi – 28.08.2015.
IN Jornal da Unicamp.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Civilização em estresse permanente


Dos primórdios da psicanálise, um cenário inimaginável atualmente é a configuração da prática clínica. Nos tempos de Freud, o analisado fazia sessões seis vezes por semana. Nos dias atuais, ter à disposição 50 minutos durante uma vez por semana para simplesmente falar sobre o que lhe vier à cabeça (mas sendo ouvido), longe da agitação do lado de fora do consultório, pode chocar os “empresários de si mesmos”. Na cultura do ato, a reflexão é uma subversão.


Bruno Yutaka Saito
Dick Cavett, o entrevistador, pergunta para Woody Allen: “Como você sabe se a psicanálise te ajudou? Quando você decide que terminou?” Era 1971 e o cineasta americano ainda não tinha feito clássicos como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” nem se tornado uma espécie de garoto-propaganda informal da teoria/prática terapêutica criada por Sigmund Freud (1856-1939). “Não sei se você realmente termina. Sei que certas características minhas estão diferentes de quando eu comecei. Eu tinha 22 anos e agora tenho 35. Então tenho idade – e isso é algo”, responde Allen no talk-show, em seu habitual tom zombeteiro que busca disfarçar, mas nem tanto, temas graves.
Neste começo de século XXI, em que homens, profissões, produtos e formas de pensamento enfrentam o risco constante de se tornar obsoletos, a psicanálise, uma das grandes criações do século XX, pode parecer uma prática excêntrica ou anacrônica, como ouvir discos de vinil e usar máquina de escrever. Freud vai se juntando a nomes como Karl Marx (1818-1883) na galeria dos pensadores que são demonizados em ondas revisionistas. Entre os defensores está a francesa Élisabeth Roudinesco, autora de uma nova biografia de Freud.
Enquanto rapidez, performance e resultados mensuráveis são buscados constantemente no cenário contemporâneo, a psicanálise caminha em um ritmo particular. Seus detratores costumam recitar três críticas: ela não tem eficácia comprovada, seria um método caro e tem duração longa. Nos EUA, foi moda entre os anos 40 e 60 ao ser confundida com uma terapia da felicidade e teve entusiastas como Alfred Hitchcock (1899-1980) e Leonard Nimoy (1931-2015).
Hoje, naquele país, pouco se questiona se a psicanálise é ciência ou filosofia, posição intermediária que lhe confere lugar peculiar na produção de conhecimento do Ocidente. Enquanto a psicologia vai se tornando mais científica, a psiquiatria, mais biológica, e a neurociência faz o mapeamento do cérebro, a psicanálise vem sendo estudada nos departamentos de letras das faculdades americanas. Nessa interpretação, ela é um modo de entender a construção da história pessoal do indivíduo. No Brasil, mantém proximidade com departamentos de psicologia.
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Bruno Yutacca Saito – 28.08.2015.

IN Valor Econômico, ed. Impressa, caderno Eu & fim de semana.




Um Freud entre Fausto e Mefisto

Elisabeth Roudinesco – “[o legado de freud] é uma grande revolução, ao lado ddas realizadas por Charles Darwin 91809-1882) e Karl Marx (1818-1883). É difícil pensar que temos um inconsciente, um psiquismo complicado. Freud contribuiu com isso. É imprescindível e vai além do interesse terapêutico da metodologia. No cotidiano, usamos termos como lapso, inconsciente. A ideia de que as pessoas tÊm um inconsciente é amplamente difundida. Meu livro foi traduzido na China, embora quase não existam psicanalistas no país. Por quê? Porque Freud é um grande pensador“.

Daniela Fernandes
Se Setenta e seis anos após a morte de Sigmund Freud, que serão completados em 26 de setembro, o criador da psicanálise continua sendo tema de inúmeros estudos e publicações. Uma nova biografia, “Sigmund Freud – En Son Temps et dans le Nôtre” (Em seu tempo e no nosso), da historiadora francesa Élisabeth Roudinesco, chegará às livrarias brasileiras no começo de 2016 pela editora Zahar.
Lançada no ano passado na França, a obra de Elisabeth, de 592 pátinas é a primeira biografia sobre Freud (1856-1939) escrita por uma grande autoridade francesa na área. O livro já vendeu 25 mil exemplares e será lançado em uma dezena de países entre Turqua e China. Elisabeth restitui, com estilo de romance, o ambiente da Viena onde viveu Freud no fim do século XIX. 

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Elisabeth Roudinesco – historiadora francesa autora de biografia de Sigmund Freud.
Daniela Fernandes – 28.08.2015.
IN Valor Econômico, Ed. Impressa.