terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O país dos elegantes


 o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.
E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.
A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. (…)
O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século XIX.

Flávio de Castro
Eu confesso que não sei a verdade: não sei se Lula é ou não dono de um triplex no Guarujá como não sei se FHC é ou não dono de um apartamento na Avenue Foch, em Paris.
Sei apenas que a presunção de ser dono de um triplex no Guarujá é inequivocamente associada à corrupção e a presunção de ser dono de um apartamento em Paris não tem nada a ver, obviamente, com corrupção.
Especialmente se o apê do Guarujá for um tanto novo-rico e o apê de Paris, um tanto elegante.
A questão é estética.
Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.
A questão é classista.
Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.
Nada disso tem a ver com corrupção. Nada disso revela qualquer preocupação com o país.
A cada dia que passa, é mais evidente que o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.
E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.
A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.
Tudo o mais, tudo o que não é casa grande é Lula e os amigos de Lula!
A questão é preconceito.
Vejam como um fraque cai naturalmente bem em FHC. Um fraque assim em Lula, certamente, deveria ter sido roubado.
O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século XIX.


Flávio de Castro – Professor de arquitetura da UNIFEMM – 31.01.2016.
Post no perfil do autor no Facebook (In https://web.facebook.com/flaviojrdecastro?fref=ts ).

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A quem serve a classe média indignada?


Cientista político e presidente do Ipea rejeita, em novo livro, interpretações do Brasil como a de Sérgio Buarque de Holanda. Negando a ideia de que jeitinho e corrupção sejam exclusividades nacionais herdadas da colonização, aponta o “racismo de classe” e o abandono dos excluídos como raízes dos problemas do país.

Marcelo Coelho
Confusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.
Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro “complexo de vira-lata”.
(...)






Marcelo Coelho – 10.01.2016
Jessé Souza – Sociólogo, Professor Universitário e presidente do IPEA.

IN Folha de São Paulo (Republicado em Substantivo Plural). 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Lulismo nas cordas



Depois de uma década virtuosa, marcha rooseveltiana perde o rumo e chega ao final de 2015 perto do colapso.
(...)
Como se formou o tsunami que fez o lulismo submergir. A resposta implica considerar múltiplos fatores, alguns estruturais, outros, conjunturais. No coquetel precisam entrar a mudança de fase da economia mundial, a orientação audaz, porém pouco sustentável, adotada por Dilma na economia e na política durante o primeiro mandato, a equivocada camplanha de 2014, a atração do centro pés materialista de classez média pela direita, o sucesso da operação mãos limpas à brasileira e  a ascenção parlamentar de um peemidebista atípico.

André Singer
Nessas mesmas páginas (“O lulismo e seu futuro, piaui_49, outubro, 2010), às vésperas da primeira eleição da presidente Dilma Rousseff, sugeri comparar o ciclo lulista ao do New Deal, articulado por Franklin Delano Roosevelt a partir de 1933 e vigente, de algum modo, nos Estados Unidos até por volta de 1968. N os meses que precederam a eleição de 2010, circulava um livro do Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman (A Consciência de um Liberal) com relato inspirador de aspectos da experiência norte-americana. Por cerca dde três décadas, o sucesso rooseveltiano determinou que houvesse emprego para a maioria e aumentos salariaias constantes. A promoção de igualdade levara grande parte dos habitantes “a uma vida material reconhecidamente decente e similar”. Em 1966, 80% da populaão norte-americana, por exemplo, tinha seguro-saúde, porcentagem que era de apenas 30% ao final da Segunda Guerra.
Não imaginei que o processo inaugurado por Luiz Inácio Lula da Silva fosse produzir efeitos concentrados. Quem tiver a paciência de consultar “Os sentimentos do Lulismo”, na versão original uma tese de livre-docência escrita no começo de 2011, verá que chamo de “reformismo fraco” o estilo homeopático de mudanças propiciado pelo ex-metalurgico. Aplicado a país de desigualdades abissais como o Brasil, não teria o resultado sintético visto nos Estados Unidos. Mas se prosseguisse por tempo dilatado dos realinhamentos eleitorais norte-americanos, porderia, ao final de algumas décadas, resultar na integração de parte significatava do subproletariado brasileiro ao estágio minimamente civilizado que faixas intermediárias tinhama alcançado, deixando para trás o problema fundante de inorganicidade de seter substantivo da sociedade brasileira. O subproletariado é aquela fração da classe trabalhadora – nada a ver com o lumpesinato – que está aquém das condições mínimas de renda e direitos (carteira de trabalho, por exemplo) que lhe permitiriam participar da luta de classes. Dito de maneira ampla, o subproletariado brasileiro abarca o vasto contingente que labuta na informalidade com rendimentos familiares mensais abaixo de dois salários mínimos.
(...)





André Singer – Cientista Político e Professor da USP – dezembro de 2015.
IN Revista Piauí, n. 111.