domingo, 15 de outubro de 2017

O que há de ciência na Ciência Política?


Jairo Nicolau – “O que a ciência política tem de melhor é um acúmulo de pesquisas, e teorias que são permanentemente testadas.
A imprensa acredita que a opinião de cientistas políticos tem uma aura de “cientificidade”, o que, na maioria dos casos, não tem procedência.
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O ideal é que os cientistas políticos fossem convidados a falar de temas que eles pesquisam e têm dados. Mas não acontece sempre“.
Wagner Pralon Mancuso – “o bom cientista político tem grande familiaridade com seu objeto de pesquisa, investiga esse objeto de forma teoricamente informada e metodologicamente rigorosa, e publica os resultados de sua investigação em lugares sérios, mediante análise prévia dos pares. Isso garantiria a qualidade dos aportes que faz aos debates sobre questões políticas”.

João Paulo Charleaux
Embora todos falem sobre política todos os dias, alguns fazem disso uma profissão e uma área de estudo. Qual a diferença entre eles e a maioria de nós
Todos fazem e quase todos falam sobre política todos os dias, mas um grupo específico de profissionais se dedica ao assunto na qualidade de cientistas. Além da paixão pelo tema, eles também obedecem a critérios técnicos para analisar fenômenos que a maioria de nós comenta sem apego a métodos reconhecidos pela academia.
Como os cientistas políticos exercem influência sobre muitos leitores e telespectadores que tentam entender o cenário atual por meio da imprensa - incluindo os textos do Nexo - nós perguntamos a dois especialistas [Jairo Nicolau e Wagner Pralon Mancuso] no assunto como eles veem a própria atividade no quadro atual.
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João Paulo Charleaux – 24.08.2016. 
Jairo Nicolau - Doutor em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro);
Wagner Pralon Mancuso – Doutor em ciência política e professor da USP (Universidade de São Paulo).

IN Nexo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Juízes têm o poder de tornar a política uma atividade criminosa


Estamos lidando, de um lado, com organizações que têm dinheiro, e de outro, com pessoas que têm poder. Poder e dinheiro irão se encontrar.
O nível de criminalização de nossa política, que chega ao ponto de considerar a possibilidade de fazer do caixa 1 algo ilegal, parece ser compatível com a nossa mentalidade anticapitalista. Atualmente é ilegal a doação eleitoral empresarial. Imagino que ninguém pense que por causa disto as empresas deixarão de pressionar os políticos.

Alberto Carlos Almeida
Nasceu este ano no Brasil uma nova jabuticaba: a criminalização do caixa 1 e do voto dos parlamentares no plenário. Esta jabuticaba caiu no gosto da opinião pública, inclusive de gente muito qualificada, e justamente por isso vem sendo cultivada com muita dedicação pelos jardineiros de plantão, nossos procuradores e juízes. Dentre o grupo de pessoas qualificadas, causa espanto o silencio da ciência política brasileira, com exceção de Bruno Pinheiro Reis, com quem venho debatendo sistematicamente este tema, e a quem devo a ideia do tema aqui desenvolvido.
No início de março deste ano, os 5 ministros da 2ª Turma do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin, Celso de Mello e Ricardo Lewandowski, acolheram a denúncia de corrupção passiva feita por Rodrigo Janot contra o senador Valdir Raupp. Nossos juízes máximos entenderam, fundamentados em delação, que uma doação de campanha legal possa, na verdade, ser legal, isto é, ser crime. Ao receber doações de campanha por meio de caixa 1, o Senador Valdir Raupp teria se comprometido a votar em defesa dos interesses da empresa Queiroz Galvão no plenário.
Rodrigo Maia, presidente da Câmara, também é acusado de corrupção passiva por receber financiamento eleitoral em caixa 1. Igualmente, seu comportamento legislativo, em plenário, é passível de se tornar crime em breve.
Vejam, leitores, o absurdo de se criminalizar as doações legais de campanha e as decisões políticas de um parlamentar. Sei que é difícil raciocinar em um momento como o que vivemos, quando todos os políticos são considerados corruptos e quando todos os comportamentos de tais atores são, a princípio, suspeitos.
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Alberto Carlos Almeida – Cientista Político – 05.07.2017.
IN Poder 360º.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Até quando a Teoria Crítica dos Direitos Humanos vai continuar ignorando raça e gênero?


Racismo e sexismo, pois, não são, dentro da experiência colonial, que é a que foi e continua sendo vivenciada neste nosso espaço cultural, social, geográfico, adendos que merecem ser colocados dentro de uma lógica que muitas vezes se reputa “interseccional” (algo que precisa ser acrescentado): é necessário incorporar as ferramentas analíticas, a riqueza conceitual acumulada ao longo das histórias de opressão marcadas pela experiência colonial racista e sexista. Não questões peculiares ou temas que tem que ser “guetizados” (na crítica que Rita Segato tem feito ao pensamento feminismo eurocentrado e mainstream), mas sim elementos estruturais e estruturantes para os campos de debates em que estamos envolvidos, sejam o direito penal, o direito constitucional e também os direitos humanos.

César Augusto Baldi
Num debate realizado em 1993 sobre a “reinvenção da esquerda”, Tariq Modood destacava que a diferença étnica e a igualdade racial eram novos desafios para a esquerda e, pois, para a teoria crítica no geral. Ele, sendo paquistanês e muçulmano, procurava mostrar que sem a participação plena dos indivíduos em todos os aspectos sociais, sem a necessidade de trabalhar processos de antidiscriminação, sem reconhecer que o racismo é mais “amplo que o racismo de cor”, sem permitir que as comunidades usem suas tradições e valores para enfrentar seus problemas e desvantagens, não havia como pensar em um multiculturalismo efetivo, que tivesse como parâmetro “de remodelamento dos conceitos de igualdade”.[1]
Sua intervenção foi seguida de comentários de Bhikhu Parekh, que, no final, salienta o crescimento da islamofobia ( um tema então ainda emergente e hoje, cada dia mais real), destacando que a militância do Islã no norte da África, a revolução iraniana e as exigências de islâmicas no continente europeu, teria atemorizado a Esquerda, “que se alarmou diante da ascensão de forças que ela credulamente imaginava em declínio, bem como os secularistas e liberais que tinham esperança de que a privatização da religião do pós-iluminismo fosse uma característica estabelecida da vida europeia”.
Para ele, então, os muçulmanos “devem reinterpretar sua tradição religiosa, especialmente como ela se aplica ao dar-ul-hurb ( mundo não muçulmano) e criar um espaço autônomo para os valores do Estado e seculares”, ao mesmo tempo que os secularistas e a Esquerda “devem considerar que os valores e sensibilidades religiosos podem dar uma mais que necessária profundidade espiritual à nossa vida social e prática cada vez mais instrumentalista, reafirmar a dimensão do sagrado e fazer uma valiosa contribuição para a condução dos negócios públicos.” Em suma, para ele, a Esquerda deveria estar mais “preparada do que nunca para abandonar sua hostilidade à religião, inclusive o Islã”.[2]
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César Augusto BaldiDoutor em Direietos Humanos pela Universidad Pablo Olavide (Espanha) 27.02.2017.
IN Empório do Direito.