sexta-feira, 30 de junho de 2017

Após impeachment, poder não mudou só de mãos, mudou de lado


A principal diferença do impeachment de Dilma para o impeachment de Collor foi essa: o poder não mudou só de mãos, mudou de lado. Quem perdeu a eleição ficou com a Presidência. Isso não é normal. Não é assim que uma democracia bem ordenada funciona.
Mesmo se nenhuma lei tiver sido violada, nossas instituições claramente pararam de funcionar como deveriam, e o Brasil hoje parece muito mais com uma República de Bananas do que parecia um ano atrás.
Isso continuará sendo verdade mesmo se a economia melhorar. 

Celso Rocha de Barros
Na última sexta-feira (12) o governo de Michel Temer completou um ano. Com três dias de atraso, desejo aqui um feliz "Dia do Cunha" a todos. Na edição de domingo da Folha dei minha opinião sobre as medidas adotadas pelo governo até agora.
Mas não basta discutir as medidas adotadas por Temer como discutiríamos as de um governo normal. Também precisamos discutir se o governo Temer é um governo normal.
Imagine o seguinte cenário: após o impeachment de Fernando Collor, Itamar Franco assume a presidência e afasta do governo todos os partidos de direita que apoiavam Collor. Depois de expulsar essa turma toda, Itamar monta um ministério só com PT, PDT e PCdoB, os derrotados na campanha presidencial de 1989, e começa a transição para o socialismo.
(...)

 








Celso Rocha de Barros – Sociólogo – 18.05.2017.
IN Folha de S. Paulo.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Se fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação"


António Nóvoa – “quando se fala em diminuição do currículo não pode ser sinônimo da velha ideologia do back to basics, isto é, de voltar aos fundamentos, dar só matemática e português. Tornar os currículos mais simples trata-se de conseguir que, em cada uma das matérias, se valorize a dimensão das linguagens e não a dimensão dos conteúdos. Isto é, que nós tenhamos os instrumentos para ascender ao conhecimento. Os conteúdos estão todos disponíveis na internet, em todo lado, logo, o que é preciso adquirir é a linguagem matemática, científica, da escrita, artística, corporal. Ora, o que está a acontecer no Brasil agora é o back to basics. (...)
Há um século, a expectativa média de vida era 40 anos, logo, a entrada na vida do trabalho tinha que ser aos 14, 15. Hoje, a média é 80 anos, então a entrada na vida adulta se faz mais tarde, inevitavelmente. Portanto, falar de uma formação técnica ou tentar que, hoje, uma pessoa com 14 anos tenha uma relação com o mundo do trabalho não faz nenhum sentido. Não é essa a evolução da sociedade: nós queremos pessoas que saibam pensar. Que saibam trabalhar também, com certeza, mas não é aquela visão que tínhamos antigamente da formação técnica, do operário. Nos próximos 20 anos, cerca de 30%, 40% dos trabalhos vão ser feitos pela tecnologia. Portanto, manter hoje essa formação técnica é uma ideia de discriminação social sobre os pobres. Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores. É o que chamamos de novo vocacionalismo. Agora o melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo”.

Thais Paiva
Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil.
Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores.
Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo”, resume.
(...)







Thais Paiva – 28.03.2017.
António NóvoaReitor Honorário da Universidade de Lisboa.
IN Carta Educação.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

O primeiro voo do Condor


Com nome da ave de rapina dos Andes, a operação clandestina que uniu ditaduras militares do Cone Sul para perseguir, capturar e até eliminar dissidentes políticos além das fronteiras foi criada pelo Brasil. Conheça em detalhes a ação que deflagrou a rede ilegal de colaboração – o sequestro do coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório em Buenos Aires e sua volta forçada para o Rio de Janeiro.

Wagner William
A Operação Condor foi criada no Brasil. Uma colaboração clandestina entre os países do Cone Sul, sem reconhecimento de soberanias diplomáticas e ignorando leis, documentos, fronteiras e pedidos oficiais; levada a cabo para capturar e destruir, com violência, fugitivos políticos ou exilados. Desde o início o Brasil agiu como ator principal.
O macabro sucesso das primeiras atividades dessa colaboração entre os governos tornou a operação mais sofisticada. Formou-se uma rede tentacular de práticas ilegais e subversivas, grupos paramilitares e clandestinos que abusavam do poder, praticando crimes, sequestros, torturas, prisões, assassinatos e terrorismo oficial de Estado.
Em novembro de 1975, na Academia de Guerra do Exército em Santiago do Chile, realizou-se uma reunião que contou com representantes da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e do próprio Chile. O Brasil estava lá, mas seus dois representantes receberam ordens de se colocarem apenas como observadores. Eram eles os agentes do Centro de Informações do Exército Flávio de Marco e Thaumaturgo Sotero Vaz. Ali, a Operação Condor ganhou nome, certidão de nascimento, pais e padrinhos. Existem, no entanto, provas de que essa integração entre os governos – ou seus subterrâneos, que se preparavam para assumir o comando por meio de golpes – já acontecia cinco anos antes da famosa reunião.
Uma dessas provas foi trazida a público pelo presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke: o Informe 338, de 19 de dezembro de 1970, do Adido do Exército à Embaixada do Brasil na Argentina, protocolado na Agência Central do Serviço Nacional de Informações com o número 001061, em 20 de janeiro de 1971. Esse documento relata o sequestro, em Buenos Aires, de um dos militares brasileiros mais odiados pela velha guarda da ditadura: o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório. Mostra também como foi montado todo o esquema para trazê-lo de volta ao Brasil.
A possibilidade de que a prisão do coronel Jefferson Cardim fosse, de fato, o início da operação já havia sido levantada pelos jornalistas Darío Pignott, do jornal argentino Página 12, que localizou o Informe 338; e Roger Rodríguez, da revista uruguaia Caras y Caretas. Brasileiros teve acesso aos diários do coronel e traz agora os detalhes, atores, diálogos e segredos do primeiro ato da Operação Condor.










Wagner William – 19.12.2012
Artigo vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos em 2013.
IN Revista Brasileiros.