quarta-feira, 23 de julho de 2014

Anos 1980, década perdida ou ganha?


Os anos 1980 foram marcados por uma profunda crise econômica e pelo fim da ditadura (1964-85). A volta da democracia possibilitou uma reorganização do movimento social, num patamar inédito até então. Mas uma questão subsiste: aquela foi uma “década perdida” ou não? Longe de ser uma discussão acadêmica, ela é vital para que se examinem os projetos de país em disputa na atualidade.

Gilberto Maringoni
Os anos 1980, na América Latina, ficaram conhecidos como “a década perdida”, no âmbito da economia. Das taxas de crescimento do PIB à aceleração da inflação, passando pela produção industrial, poder de compra dos salários, nível de emprego, balanço de pagamentos e inúmeros outros indicadores, o resultado do período é medíocre. No Brasil, a desaceleração representou uma queda vertiginosa nas médias históricas de crescimento dos cinqüenta anos anteriores.
Mas, sob o ponto de vista político, aquela foi literalmente uma década ganha. Não apenas se formaram e se firmaram inúmeras entidades e partidos populares – fruto das maiores mobilizações sociais de toda a história brasileira -, como se abriu uma nova fase histórica para o país, através do fim da ditadura e da promulgação da Constituição de 1988.
A cientista política Maria Izabel Mallmann, no livro Os ganhos da década perdida (Edipuc - RS, 2008), busca elucidar as contradições daqueles tempos:
“Pode-se dizer que a democracia foi um dos ganhos políticos da década econômicamente perdida. (...) Outro ganho foi o surgimento e consolidação de um espaço regional de coordenação de políticas, cujos desdobramentos positivos ainda fazem-se presentes. Apesar das dificuldades, a década de 1980 foi marcada por acontecimentos relevantes no que diz respeito à aproximação dos governos latinoamericanos”.







Gilberto Maringoni – Historiador, jornalista e professor da UFABC – junho 2012

IN Revista Desafios do Desenvolvimento, ano 9, ed. 72. 


domingo, 20 de julho de 2014

O aprendizado e o desenvolvimento


temos de perceber que, embora haja um crescente consenso de que a escolaridade deve concentrar-se mais na qualidade do que quantidade, há menos consenso quanto à forma de conseguir isso. Alguns veem o problema como resultado de financiamento insuficiente, enquanto outros gostariam de ver as escolas incentivarem alunos, funcionários e professores. Os pesquisadores do Pisa veem um foco em ambos como frutíferos. Eles enfatizam que, para todos os países, focar mais recursos nos estudantes menos privilegiados é uma forma eficaz de melhorar as notas, e eles observam que os países com melhores desempenhos, especialmente na Ásia, colocam ênfase na seleção e treinamento de professores, priorizando investimentos em capital humano de professores, em detrimento de ampliar o número de alunos por sala de aula.


Morten Olsen e Ria Ivandic

De sites de notícias a conversas em torno da mesa de jantar, um tópico pareceu ser uma insaciável fonte de discussões no início de dezembro, quando a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do Pisa 2012 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). E ficou no ar uma pergunta: deveríamos nós - economistas e autoridades governamentais - preocupar-nos com os resultados do Pisa? E, mais importante, o que esses resultados podem nos dizer sobre o presente e também sobre o mundo que virá?

Há muito tempo já foi reconhecida a importância de investir em educação para estimular o desenvolvimento de um país. Após décadas de reconhecimento sobre o papel fundamental da educação, ela tornou-se consagrada como uma prioridade mundial nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Além de ter uma influência decisiva sobre a renda de uma pessoa, a educação desempenha um papel central na explicação das diferenças entre os países em termos agregados: a educação incrementa o capital humano inerente à força de trabalho, o que aumenta a produtividade do trabalho e resulta em um nível mais elevado do equilíbrio da produção (Mankiw, Romer e Weil, 1992). A educação também aumenta a capacidade de inovar no âmbito da economia, acelerando a adoção de novas tecnologias, promovendo, assim, o crescimento (Lucas; 1988).

(...)







Morten Olsen – Professor de Economia na IESE Business School; Ria Ivandic – Assistente de pesquisa na IESE Business School – 03.02.2014
Tradução – Sergio Blum
IN Valor Econômico. 


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Os BRICS se rebelam contra o FMI e criam seu próprio banco


Em vários artigos, Nicholas Stern, presidente do Grantham Research Institute da London School of Economics e da Academia Britânica, defendeu, ao lado do prêmio Nobel Joseph Stiglitz, a necessidade de um novo banco de desenvolvimento que dê respostas às necessidades urgentes dos países emergentes em termos de infraestrutura. (...) “Do contrário, será impossível conseguir uma redução da pobreza e um crescimento inclusivo no longo prazo.”

Alicia González
Em julho de 1944, representantes de 44 países se reuniram em um hotel em Bretton Woods, New Hampshire, Estados Unidos, para criar um novo modelo de relações comerciais e financeiras entre os principais países do mundo. Setenta anos depois, os países emergentes se cansaram de esperar uma mudança de regime das instituições financeiras internacionais que saíram daquela reunião e deram um passo à frente para mudar a ordem existente, e agora reivindicam seu novo papel na economia mundial.
Os presidentes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (que formam o acrônimo BRICS) assinam nesta terça-feira em Fortaleza, Brasil, a constituição de um banco de desenvolvimento, com um aporte inicial de 50 bilhões de dólares (cerca de 110 bilhões de reais) para formar o capital do banco e 100 bilhões (220 bilhões em reais) de capacidade de empréstimo, e um fundo de reservas de outros 100 bilhões para ajudar os países do grupo no caso de uma possível crise de liquidez, como as vividas em alguns países europeus durante a crise financeira. São 200 bilhões de dólares (moeda que será utilizada nas transações das duas organizações) para determinar o valor do grupo e dar uma demonstração de sua força econômica.
“A conclusão dessas duas iniciativas passará uma mensagem forte sobre a vontade dos BRICS de aprofundar e reforçar sua associação econômica e financeira”, destacou para a imprensa na semana passada o embaixador brasileiro José Alfredo Graça Lima. “As duas instituições financeiras criadas funcionarão de forma similar ao Banco Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI)”, afirmou. Sem dúvida, a criação do banco é um passo decisivo para a consolidação do grupo. “É importante que as maiores economias emergentes tenham sido capazes de colocar em funcionamento um projeto assim, do contrário sua credibilidade como grupo seria questionada. É um primeiro passo evidente, mas agora precisam passar para a ação”, afirma Jim O’Neill, o inventor do termo BRIC há 13 anos, quando era economista-chefe da Goldman Sachs, e atualmente pesquisador no think tank Bruegel.
(...)



Alicia Gonzales – 13.07.2014
IN El País Brasil.