segunda-feira, 6 de julho de 2015

Direita e esquerda


a política democrática pregou uma peça naqueles que tomavam a dimensão esquerda-direita de forma estática e simplista. A preocupação dos eleitores com soluções práticas para seus problemas cotidianos, para além de considerações abstratas em relação a valores últimos, fez com que a maioria dos cidadãos não se posicionassem de forma categórica num dos dois polos da dicotomia. Assim, embora muitos desejassem mais igualdade econômica, não entendiam que a forma de alcançá-la fosse pela socialização dos meios de produção; embora muitos se mantivessem apegados à hierarquia social estabelecida, não acreditavam que essa devesse ser completamente imutável. Noutros termos, a maior parte dos cidadãos não era puramente de direita, nem de esquerda. E como para vencer as eleições é preciso agradar ao maior número de eleitores possível, os partidos com anseios mais amplos passaram a moderar suas posições, de modo a arrebanhar um número cada vez maior de votos junto àqueles que não compartilhavam inteiramente de suas posições à esquerda ou à direita.
Tal movimento dos partidos mais dispostos a se tornarem majoritários fez com que tanto a direita como a esquerda se moderassem, assumindo mundo afora uma feição cada vez mais mediana - de centro-direita, ou centro-esquerda.

Cláudio Gonçalves Couto
Um dos mais surrados lugares comuns do debate político é o de que a distinção entre esquerda e direita já não tem mais cabimento no mundo contemporâneo. Será mesmo? Observando-se o atual cenário político brasileiro é possível aferir tal questão, vislumbrando até que ponto este lugar comum - como tantos outros - não passa de preconceito ou, quem sabe, descreva bem a realidade.
Para que tal observação seja possível e faça sentido, faz-se necessário, primeiro, fixar um critério do que se entende como direita e esquerda. Afinal, no debate de senso comum sobre a política não há um entendimento consensual sobre isto. Uma definição minimalista, mas que me parece útil para dar conta de situações muito variadas, é de que enquanto a esquerda propugna pela igualdade, a direita propugna pela desigualdade - e daí é possível extrair uma série de derivações.
Voltando às origens da distinção, na Assembleia Nacional Francesa durante o período revolucionário, os que se sentavam à direita de seu presidente eram os apoiadores do antigo regime e das desigualdades que lhe caracterizavam, alicerçadas nas distinções estamentais que conferiam privilégios aos ocupantes dos estratos sociais superiores. À sua esquerda sentavam-se os que defendiam o fim do antigo regime e, com ele, das distinções estamentais que engendravam desigualdades. Desse modo, não só foi estabelecida ali a terminologia, como também a associação entre os dois termos e as preferências em relação à dicotomia igualdade/desigualdade. A direita se compunha dos conservadores, defensores da manutenção da velha ordem; a esquerda era integrada pelos liberais, que advogavam pela mudança simbolizada pelo lema "liberdade, igualdade, fraternidade".
(...)






Cláudio Gonçalves Couto – Cientista político, professor da FGV-SP – 09.05.2014
IN Valor Econômico.


sábado, 4 de julho de 2015

Simpatia do brasileiro é um mito, diz sociólogo Manuel Castells




CASTELLS – “não creio que o Brasil seja pior agora, ou que a rivalidade política esteja mais intensa nesse momento do que foi antes.
No Brasil, a desigualdade diminuiu, mas ainda é muito grande. O ex­presidente Fernando Henrique Cardoso dizia que o Brasil não era pobre, mas sim injusto. Concordo. Há uma imensa riqueza, controlada por 1% da população. Como é que a sociedade não vai estar com com raiva? E há, também, um grupo de classe média que está descontente porque se tira deles alguns recursos para redistribuir. Trata-­se de uma classe média profissional, que teme perder seus privilégios e que vive melhor que seus pares nos EUA e na Europa. Quem pode ter dois ou três empregados domésticos permanentes, vivendo em casa, ou constantemente indo e vindo? Nenhuma classe média do mundo!”

Sylvia Colombo
Para Manuel Castells, 73, a agressiva polarização política que se vê hoje nas redes sociais  “desconstrói o mito do brasileiro simpático”. O sociólogo espanhol esteve no país durante os protestos de junho de 2013, e acrescentou a seu livro “Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet” (ed. Zahar) um posfácio em que analisa os recentes acontecimentos no Brasil.
Professor da universidade da Califórnia, Castells participou, na semana passada, do Fronteiras do Pensamento na Bahia.
Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida à Folha, em Salvador.

Folha – Em 2013, o sr. disse que nosso grande problema era político, não econômico. E agora, que nossa economia tampouco anda bem?
Manuel Castells ­ Quando aponto a questão política me refiro a uma crise mundial dos sistemas tradicionais de democracia representativa, por conta da corrupção, agora mais exposta porque as pessoas têm mais acesso à informação e mais capacidade de organização por conta da internet. O sistema político brasileiro está mal como estão mal todos os sistemas do mundo. Há protestos e desgaste dos partidos tradicionais, além da aparição de correntes populistas de extrema-­direita e de extrema-­esquerda. Na Espanha, em Portugal e na Grécia, a reação é de esquerda. Na França, na Inglaterra e na Alemanha, é de direita.
(...)
Para continuar a leitura, acesse http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/05/1630173-internet-so-evidencia-violencia-social-brasileira-afirma-sociologo-espanhol.shtml






Manuel Castells – Sociólogo – 18.05.2015
Sylvia Colombo
IN Folha de São Paulo.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A vaga conservadora e seus críticos



os escândalos do Mensalão e do Petrolão recolocaram no centro do debate público o tema da corrupção. Atmosfera propícia para dar uma guinada à direita nos princípios da ética na política. Como consequência, a onda moralizante (que é uma forma de expressão cultural e política entre outras) forjou uma aparente unidade às manifestações recentes. Que fique claro. As críticas ao governo, seja ele qual for, são necessárias e muito bem vindas, mas as razões das críticas não são sempre as mesmas, e isso muda tudo. No caso das críticas conservadoras, é digno de nota que elas pretendem lançar mão de justificações que, em princípio, valeriam inquestionavelmente para “todos”. Logo, incitam sempre temas vagos como família, violência, valores religiosos, ética, civismo, nação, patriotismo etc. Os conservadores realmente acham que vão às ruas em nome de todos (da pátria amada Brasil!), atuando no espaço público como se suas pautas e visões de mundo valessem para cada um de nós. Mas não perceberam (ou melhor, perceberam e ficaram bem preocupados) que o país tem sido disputado e criticado há muitos anos por diversos grupos sociais. As razões das críticas, ainda bem, são diferentes e, muitas vezes, opostas.

Rurion Melo
Da redemocratização para cá, com o suor de muita discussão pública e persistência dos movimentos sociais, muitos direitos foram conquistados, iniciou-se um deslocamento decisivo na redistribuição de renda e lutou-se por reconhecimento (questões de gênero, de raça, de sexualidade, entre outras). O avanço certamente ainda é insatisfatório, mas mostrou que a pressão por uma vida mais democráticas abria possibilidades sociais e institucionais pelas quais valia a pena lutar. Se a ditadura significou um grande passo para trás, tentamos fazer com que a redemocratização, dali em diante, representasse dois para frente.
Com a disputa atual de poder, a dominação do sistema político vem acompanhada de um recuo perceptível de temas considerados progressistas e com amplo apelo da opinião pública. A recente queda de braço no C0ongresso Nacional tem mostrado que a direção desse jogo de forças político está rumando em sentido bastante conservador. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, representantes escancarados de pautas culturais e políticas tradicionais (para não dizer retrógradas), surgem como protagonistas do momento, apoiados pelos interesses das bancadas BBB (bíblia, boi e bala).
(...)
Para continuar a leitura, acesse http://brasil.estadao.com.br/blogs/direito-e-sociedade/a-vaga-conservadora-e-seus-criticos/






Rurion Melo – Professor de Ciências Políticas da USP e Pesquisador do CEBRAP – 19.06.2015
IN Blog Estadão.