terça-feira, 6 de setembro de 2016

O vandalismo dos outros

 

Ao governo, federal ou estadual, não é dado usar da força bruta para calar e ferir quem o contesta nas ruas.
O plano de salvar a democracia do futuro limitando a do presente já foi posto em prática em outras oportunidades no Brasil. Falhou miseravelmente em todas elas.
O vandalismo de alguns protestantes não se responde com vandalismo policial. 


Conrado Hubner Mendes e Rafael Mafei Rabelo Queiroz
Hoje, domingo, 4 de setembro [de 2016], é a data marcada para a passagem da tocha paraolímpica em São Paulo, ritual que celebra diversidade e superação.
É dia também de outra manifestação popular que contesta a legitimidade do mandato do novo presidente da República e de seu anunciado pacote de reformas.
A Secretaria de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo publicou, dias atrás, nota que proibia essa manifestação.
Mesmo que, mais tarde, tenha entrado em acordo para viabilizar ambos os eventos em horários diversos, esse episódio é apenas mais um exemplo do quanto o direito ao protesto está mergulhado em incerteza jurídica e arbitrariedade. Temos urgência em estabilizar certos padrões formais e substantivos de ação que nos protejam no exercício desse direito.
(...)

Para continuar a leitura, acesse http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/09/1809960-o-vandalismo-dos-outros.shtml






Conrado Hubner Mendes – Professor doutor de direito constitucional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo;
Rafael Mafei Rabelo Queiroz – Professor doutor de teoria do direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – 04.09.2016.
In Folha de São Paulo, Tendências e Debates.





  

Dona Folha, tá difícil te defender



Não sei se por ignorância ou cinismo, a senhora ignorou o fato de a Alemanha nazista não ter sido criada pelos "fanáticos da violência". Como bem lembrou Bruno Torturra, a Alemanha nazista se consolida quando Hitler culpa os tais baderneiros pelo incêndio do Reichstag e cria um Estado de exceção com o objetivo de "reprimir baderneiros" – igualzinho a senhora tá pedindo.
Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os "baderneiros" em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo "mais repressão aos grupelhos" – jornais estes que, vale lembrar, depois foram proibidos de circular.



Gregório Duvivier
Dona Folha, tá difícil te defender.
Em seu editorial de sexta [02.09.2016], a senhora diz que se o governo não souber "reprimir os fanáticos da violência", o Brasil corre o risco de se transformar numa ditadura assim como aconteceu na "Alemanha dos anos 30". À polícia do Estado de S. Paulo, que já não é famosa pela gentileza, a senhora recomenda que "reprima" mais duramente os "grupelhos extremistas" –porque senão os baderneiros vão tomar o poder e transformar o Brasil na Alemanha nazista.
Concordo que existem muitas razões pra ter medo. Mas não pelas mesmas razões. O vampiro que nos governa acaba de recriar o Gabinete de Segurança Institucional. O ministro da Justiça pede menos pesquisa e mais armamento. Uma jovem perde um olho atacada pela polícia. Uma presidenta democraticamente eleita é derrubada porque teria cometido um crime, mas não perde os direitos políticos porque afinal ela não cometeu crime nenhum. O Senado que a derrubou por causa de créditos suplementares muda a lei em relação aos créditos no dia seguinte à sua queda.
Concordo quando a senhora diz que uma ditadura se avizinha, mas discordo que são os "black bloc" que vão tomar o poder. 





Gregório Duvivier – Escritor e ator – 05.09.2016.

IN Folha de São Paulo.

domingo, 4 de setembro de 2016

Turbulência à vista, de novo


a velha heterodoxia brasileira remonta a Celso Furtado e ao estruturalismo latino-americano, que enfatizava a importância da industrialização, do investimento e da produtividade. Mas a heterodoxia no governo do PT foi mais centrada em reduzir desigualdade, expandir o bem-estar. Infelizmente, negligenciaram a reconstrução da indústria. 
(…)
Há mesmo um elemento religioso em muito da teoria econômica, quando se acredita que há uma verdade única que deve ser aceita por todos. Há também, sobretudo entre neoclássicos, a ideia de que os valores econômicos são os mais importantes. Vemos muito disso no mundo atual, em que governos querem parar de financiar departamentos de literatura e antropologia porque não trazem receita. E terceiro, em termos práticos: o conhecimento está protegido das pessoas, com toda a matemática, os modelos, o jargão, muitas coisas que nem eu entendo. Assim, a economia neoclássica é como a igreja católica medieval, que recusava a tradução da Bíblia para línguas vernaculares.

Diego Viana
Os países desenvolvidos não enfrentaram os problemas revelados pela crise em 2008 e, por isso, estão expostos a um novo estouro de bolha, afirma o economista coreano Ha-Joon Chang, PhD por Cambridge, onde ensina na Faculdade de Economia e no programa de estudos do desenvolvimento. Quanto aos temores do mercado com a desaceleração chinesa e a queda da bolsa em Xangai, Chang afirma que uma recessão na China é improvável, mas o tombo financeiro deverá afetar a economia real.
No ano passado, Chang publicou no Brasil “Economia – Modo de Usar” (Companhia das Letras, 464 págs., tradução de Isa Mara Lando e Rogério W. Galindo), em que discute os principais conceitos da teoria econômica em um quadro de referências das diferentes linhas de pensamento econômico – que, para ele, são “pelo menos nove”. Conhecido como membro da escola institucionalista, Chang defende o uso simultâneo de diversas tradições intelectuais, porque cada uma ilumina um aspecto diferente da realidade.
Chang lamenta que o Brasil não tenha tomado atitudes contra a desindustrialização, que já se desenrola há três décadas. Para o economista, a indústria manufatureira continua sendo a principal fonte de inovação e produtividade, que em seguida se espalha para os demais setores.
(...)
Para continuar a leitura e ler toda a entrevista, acesse http://www.valor.com.br/cultura/4415048/turbulencia-vista-de-novo (ou http://sicetel.org.br/sicetel2014/?p=9634 )





Diego Viana – 29.01.2016.
Ha-Joon Chang – Economista coreano PhD por Cambridge.
IN Valor Econômico, impresso (republicado em Sicetel).

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A condenação de uma governanta digna e inocente por um bando de corruptos


O método usado antes contra Vargas e Jango foi agora retomado com o mesmo pretexto: “de combater a corrupção” - na verdade, para ocultar a própria corrupção. Os golpistas usaram o Parlamento no qual 60% estão sob acusações criminais e desrespeitaram os 54 milhões de votos que elegeram Dilma Rousseff.

Leonardo Boff
Era uma vez uma nação grande por sua extensão e por seu povo alegre, embora injustiçado. Em sua maioria, sofria na miséria, nas grandes periferias das cidades e no interior profundo. Por séculos era governado por uma pequena elite do dinheiro que nunca se interessou pelo destino do povo pobre. No dizer de um historiador mulato, ele foi socialmente “capado e recapado, sangrado e ressangrado”.
Mas lentamente esses pobres foram se organizando em movimentos de todo tipo, acumulando poder social e alimentando um sonho de outro Brasil. Conseguiram transformar o poder social num poder político. Ajudaram a fundar o Partido dos Trabalhadores. Um de seus membros, sobrevivente da grande tribulação e torneiro mecânico, chegou a ser presidente. Apesar das pressões e concessões que sofreu dos endinheirados nacionais e transnacionais, conseguiu abrir uma significativa brecha no sistema de dominação permitindo-lhe fazer políticas socias humanizadoras. Uma Argentina inteira saíu da miséria e da fome. Milhares conseguiram sua casinha, com luz e energia. Negros e pobres tiveram acesso, antes impossível, ao ensino técnico e superior. Mais que tudo, porém, sentiram resgatada sua dignidade sempre negada. Viram-se parte da sociedade. Até podiam, em prestações, comprar um carrinho e até tomar o avião para visitar parentes distantes. Isso irritou a classe média, pois esta via seus espaços ocupados. Daí nasceu a discriminação e o ódio contra eles.
(...)




Leonardo Boff – Teólogo, Professor de Ética na UERJ e escritor – 25.08.2016.
IN Brasil de Fato.