sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Uma crítica aos pressupostos do ajuste econômico


Autores repelem argumentos de economistas clássicos acerca do papel da austeridade na redução da relação dívida/PIB e na retomada do crescimento. O texto critica a proposta de teto para gastos públicos, que adiaria o reencontro do país com a prosperidade.

Pedro Paulo Zahluth Bastos e Luiz Gonzaga Belluzzo
Fomos honrados pela citação de nosso artigo (publicado no site da "Ilustríssima") por Luiz Fernando de Paula e Elias Jabbour, que responderam a um artigo polêmico de Marcos Lisboa e Samuel Pessôa a respeito da diferença entre direita e esquerda em economia. Concordamos em geral com a resposta, mas pretendemos levantar novos elementos para reflexão.
O argumento central de Lisboa e Pessôa é que, nos EUA, os debates entre direita e esquerda são resolvidos com o uso de métodos quantitativos de verificação de hipóteses e que, no Brasil, isso não se faz. Nesse sentido, o fenômeno da heterodoxia "sem uso de dados" seria tipicamente brasileiro, como reiterado em novo artigo de Lisboa e Pessôa em 04/09.
Os equívocos de Lisboa e Pessôa são diversos e alguns deles foram apontados por de Paula e Jabbour. Primeiro, não é verdade que praticamente não existam heterodoxias fora do Brasil, mas apenas divisões entre esquerda e direita no seio da "economia tradicional". Esse desconhecimento reflete o fato de que as faculdades neoclássicas não estudam as heterodoxias, embora os heterodoxos estudem e saibam bem por que rejeitam a ortodoxia neoclássica.
(...)




Pedro Paulo Zahluth Bastos – Economista e Professor da Unicamp.
Luiz Gonzaga Belluzzo – Economista e Professor da Unicamp – 18.10.2016.
In Folha de São Paulo, Ilustríssima.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Muere Fidel Castro, ¿el político más astuto del siglo XX?



Por medio siglo, la habilidad de Fidel para dar zancadas en el escenario mundial lo hicieron parecer por momentos un semidiós.
Y durante esos años, fuera que lo amaran o lo despreciaran, la mayoría de los cubanos había compartido la sensación de que ellos también eran especiales.
Ahora que no está, Cuba parece empequeñecerse, convertirse en un estado post-socialista más, plagado de problemas mundanos y contradicciones, aunque imbuido en una pátina de exotismo, y hasta de cierto romanticismo histórico por el país que fue bajo la égida de Fidel.
Sin él, nada en Cuba volverá a ser igual.

Jon Lee Anderson
El fallecido escritor colombiano Gabriel García Márquez escribió que en una ocasión vio a Fidel Castro, gran amante de los helados, comerse no menos de 28 bolas en una sola sentada.
Probablemente se trataba de una historia apócrifa, pero en su exageración García Márquez dijo una verdad fundamental sobre el comportamiento legendario de Castro, que alimentaba el estatus cuasi mitológico del que gozó durante gran parte de su vida adulta.
Después de que su Ejército Rebelde derrocara al dictador Fulgencio Batista en 1959, Castro no perdió tiempo en hacer sentir su presencia más allá de los confines de su isla natal. Su principal estrategia fue desafiar de manera abierta, con palabras y hechos, la hegemonía de Estados Unidos en América Latina.
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Jon Lee Anderson – Jornalista e escritor – 20.11.2016.
IN BBC Brasil.




E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.


Eduardo Galeano
Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.
E nisso seus inimigos têm razão.
Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.
E nisso seus inimigos têm razão.
Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.
E nisso seus inimigos têm razão.
Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.
(...)






Eduardo Galeano – Intelectual e escritor Uruguaio – 2008.
Do livro “Espelhos: uma história universal”.
Trad. Éric Nepomuceno.
IN Outras Palavras.


sábado, 26 de novembro de 2016

A esquerda optou pela obsolescência da transformação social e se rendeu à ideia de que as coisas são feitas aqui e agora




Henrique Costa – “A negação da condição operária significa dizer que os pais deles [de um grupo de jovens de cursos tecnológicos beneficiários do PROUNI pesquisados] tinham empregos que hoje são considerados de segunda categoria, mas que à época permitiam que eles pudessem ter carteira assinada e uma certa estabilidade. Hoje em dia, no entanto, esses jovens têm uma vida muito mais atarefada, e não só trabalham e estudam sábado ou domingo, mas a pressão pelo trabalho produz algo muito forte na subjetividade dessas pessoas de modo que elas não têm nem tempo de pensar a respeito disso. Como as pedagogas [outro grupo de beneficiários do PRouni investigados] já são mais velhas e entendem o problema da precariedade do trabalho de modo diferente, elas compreendem que são penalizadas pela desigualdade social e acabam desenvolvendo um senso de coletividade e identidade diferente, que acaba sendo condicionante para outras percepções da vida.
Se esses jovens não conseguem fazer essa identificação entre eles, não conseguem se ver parte de alguma coisa, fica complicado fazer um trabalho político porque eles não se veem dessa maneira. Os velhos discursos da esquerda têm muita dificuldade de atingi-los. Quem os atinge de alguma maneira são os partidos “pós-materialistas”, que não trabalham necessariamente a questão de classe”.
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IHU On-Line
O sentimento geral entre os jovens 'prounistas' entrevistados para pesquisa de dissertação de mestrado Entre o lulismo e o ceticismo: um estudo de caso com prounistas de São Paulo “não é nem de agradecimento, nem de reconhecimento de que o governo estava trabalhando para eles”, diz Henrique Costa à IHU On-Line.
Segundo o autor da pesquisa, apesar de a narrativa “criada pelo próprio governo e repercutida” amplamente, “de que o Prouni implicou no acesso de grandes massas e de uma grande fatia da classe trabalhadora jovem à universidade, algo que não lhes era permitido anteriormente”, entre os jovens entrevistados essa política pública não repercute positivamente na imagem que se tem do lulismo.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Costa ressalta que sua hipótese inicial era a de que os estudantes “reconhecessem o ProUni como uma política que os beneficiou”, mas se “surpreendeu um pouco, porque não foi exatamente assim. Eles veem o ProUni como uma obrigação do governo e de qualquer governo”, frisa.
Na avaliação dele, o resultado da pesquisa está condicionado a outros fatores, entre eles, o fato de os prounistas terem de trabalhar o dia todo, estudar à noite para poderem se manter no emprego, que também depende da conclusão do curso superior. “As pessoas começaram a ver que ganham 1,5 salário mínimo e continuarão ganhando esse mesmo salário, se não perderem seus empregos. (...) Isso tem a ver com a percepção dos jovens de como todo esse arranjo que o PT criou em torno dos programas sociais serve para a gestão social e não necessariamente para a mobilidade social. Foram criadas muitas vagas de emprego, mas se todas pagam muito pouco, isso demonstra que essas vagas ajudam as pessoas a se manter, mas elas dificilmente conseguirão modificar radicalmente seu padrão de vida”, avalia.
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Henrique Costa – Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo – 14.06.2016.
IN IHU On-Line.