sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A nova direita conservadora não despreza o conhecimento



Argumentar que os neoconservadores são anti-intelectuais só nos coloca como vítimas em defesa do sagrado saber – e esse é o ponto que eles querem provar.

Rosana Pinheiro-Machado
Os acontecimentos recentes nos museus de Porto Alegre e São Paulo mostraram como foi possível reduzir complexas formas de expressão a rótulos como o de pedofilia. Resta-nos a sensação de que estamos de um cenário empobrecedor e autoritário que comprime diversas camadas de significados em uma resolução encerrada aos gritos. 
O populismo da nova direita conservadora se caracteriza pela privação de debates e promessas de soluções fáceis para problemas complexos. Tudo indicaria, portanto, que ela é contra o conhecimento, as artes e a ciência.
Mas não é: a nova direita não é anti-intelectual, mas anti-elite intelectual.
Para além do que aparece na superfície, os neoconservadores possuem um projeto intelectual claro que, por um lado, persegue um tipo de conhecimento e, por outro, procura redefinir uma nova direção para a sociedade global.
Em ambos os casos, o que está em jogo é a produção e a disputa de novos regimes de verdade sobre a humanidade.
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Rosana Pinheiro-Machado – Cientista Social, Professora no Departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford – 10.10.2017.
IN Carta Capital.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A culpa é do Supremo


 
Quando o Supremo fez piada e derrubou o que o chamou de “cláusula de caveira”, havia 15 agremiações diferentes com deputados na Câmara. Já era demais, mas nada é tão ruim que não possa piorar. Desde então, os 15 viraram 26, e continuam se multiplicando, sem controle.
Como resultado, nenhum partido passa de 12% dos votos da Câmara. Para obter maioria, o governante precisa barganhar. São barganhas que o deixam com o cheiro de um mercador de peixes e a estabilidade de um treinador de futebol do Brasileirão.

José Roberto de Toledo
Sempre que deputados se metem a fazer uma reforma, os demais brasileiros pagam pelo que eles obram. O orçamento estoura, o transtorno demora mais do que o previsto e, ao final, descobre-se que consertaram o que não estava quebrado. O sistema político tem muitos defeitos, mas o voto proporcional para a Câmara não é um deles. Aí Temer e Eduardo Cunha importaram o modelo eleitoral de Vanuatu, o resto assentiu e, se não protestarem, os donos da casa vão acabar pagando por uma reforma que não encomendaram.
A crise de representação da política brasileira não tem nada a ver com a reforma que o Congresso está tentando aprovar. Nunca se viu um cartaz na rua clamando “Pelo distritão”. A culpa não é do voto proporcional, mas do sistema de incentivos à proliferação de partidos fisiológicos de um dono só. Dinheiro de graça, tempo para fazer propaganda na TV e falta de controle.
Se é para nominar um culpado, que seja o Supremo Tribunal Federal. Em 2006, o STF derrubou a cláusula de barreira que o Congresso criara e que vigoraria a partir de 2007, justamente para brecar o avanço dos gafanhotos partidários. As togas não deixaram. Todos os ministros seguiram o voto do relator Marco Aurélio e semearam, juntos, a praga que toma o Congresso.
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José Roberto de Toledo – 14.08.2017.

IN O Estado de S. Paulo.

sábado, 4 de novembro de 2017

Da merenda escolar ao composto para astronautas




Será que as mentes criativas não conseguem produzir solução melhor para a fome? Alguma que, por exemplo, não agrida a autoestima do chamado público-alvo? Que não reduza a alegria de viver (e de comer!) à ingestão de energéticos consumidos “até por astronautas”, como diz o elegante prefeito em sua turnê romana.

Reginaldo Corrêa de Moraes
Em 1729, Jonathan Swift publicava sua Modesta Proposta Para Evitar Que As Crianças Da Irlanda Sejam Um Fardo Para Os Seus Pais Ou Para Seu País. Faz alguns anos, a Editora Unesp me convidou a escrever um prefácio à edição brasileira do livrinho, uma peça imperdível do escritor irlandês.
A “solução” de Swift é conhecida, um humor macabro, agressivo. A ideia de transformar as crianças pobres em alimento é de chocar as boas almas. Parafraseando a frase de Marx sobre a religião, é um grito do espírito em um mundo sem espírito.
Volta e meia nos damos conta de que nos faltam alguns Swifts. Ou, então, que nem mesmo com milhares de Switfs conseguiríamos dar conta do que nos oferecem as propostas nada fictícias geradas por mentes criativas como a do alcaide paulistano. A última invenção do jovem sexagenário é a comida de astronauta produzida a partir de alimentos em vésperas de virar lixo. Sim, a ideia é “agregar” alimentos de supermercados, com data de validade em cima da risca. E desse agregado produzir pacotes de granulados a servir como ração para os famintos da grande cidade, incluindo os estudantes, com merenda escolar “reforçada” pelo preparado. Os protótipos de alimento foram fornecidos para teste por uma empresa um tanto estranha, que não tem fábrica nem parece ter condições de ter – ela própria “agrega” serviços de outros fabricantes. Uma outra invenção, quem sabe candidata à inserção no cadastro de fornecedores da prefeitura. Analisada a forma de implementação da política, chega-se à conclusão de que será, de fato, um grande negócio. Os fornecedores dos alimentos “quase invendíveis” deixariam de perder esse saldo. E, mais ainda, teriam incentivos fiscais. Ganham em dobro. Um achado.
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Reginaldo Corrêa de Moraes – Cientista Social, Professor – 19.10.2017.
IN  Jornal da Unicamp.