sexta-feira, 31 de março de 2017

“Escola demais faz mal às crianças”, garante psicólogo português


Eduardo Sá – “O grande desafio de um insucesso – nas crianças como em nós – passa por sabermos se as pessoas que são mais importantes na nossa vida são capazes de conviverem com a nossa tristeza. Na verdade, elas estão sempre lá, ao nosso dispor, mas nem sempre aceitam e acolhem a nossa tristeza. Muitos pais afligem-se com a tristeza dos filhos como se lhes dissessem: se você está triste, você me põe triste… E, quando é assim, uma criança dói-se por estar triste e assusta-se ao sentir que a sua tristeza será estranha ou mais ou menos misteriosa para os seus pais. Isto é: a tristeza é inevitável quando vivemos um fracasso, mas quando as pessoas que nos amam se assustam com a nossa dor, perdura a tristeza que nos assalta e é acrescida pelo desamparo que a falta de acolhimento que ela desencadeou terá merecido. Ora, é muito importante que os pais sintam os filhos. Mas, mais precioso ainda, é que eles percebam que a tristeza ajuda a esclarecer se as pessoas que nos amam nos sabem amar. Sendo assim, a tristeza é o melhor antidepressivo do mundo! Porque quanto podemos estar tristes e mais sentimos que as nossas dores nos dão mais e melhores pais, mais nos tornamos audazes e guerreiros. Tenho medo, portanto, que os pais tenham construído um ideal de um crescimento antidepressivo para os seus filhos e seja isso que mais os deprimem. Ao contrário daquilo que, seguramente, eles desejam. Ao contrário dos perigos que eles vêem ou imaginam à volta da vida das crianças . E ao contrário daquilo que a sua bondade deixaria supor. Sendo assim, pais bondosos não exageram na prevenção da dor. Deixam que o improviso da própria vida faça o seu trabalho porque eles sabem que, no caso de um filho se magoar, eles são quem mais os tornam corajosos, mais audaciosos e mais tenazes. Já, ao contrário, crianças que fogem da dor são crianças que se tornam de “porcelana”: frágeis e fóbicas, portanto. Porque a melhor forma de ficar preso a uma dor é fugir dela“.

Rita Lisauskas
Meu filho tem 4 anos. E nas “rodinhas” de conversa na porta da escola, não se pergunta outra coisa: “Pra qual escola ele vai?” No começo eu não entendia a questão. Eu e meu marido já escolhemos a escola do Samuel – estávamos na porta dela, inclusive – e não passava pela nossa cabeça mudá-lo de instituição. Há jabuticabeiras, animais, aula de música, parques. E ele é muito feliz lá, como já nos disse dezenas de vezes. A escolha não foi por impulso. Antes de efetivar a matrícula conversamos com a diretora sobre alimentação, método de ensino, conflitos e inclusão (ver com meus próprios olhos crianças especiais por lá foi decisivo porque eu sempre quis que meu filho fosse acima de tudo uma pessoa tolerante). E por estar assim tão segura das minhas/nossas escolhas, decidi entender porque essas mães e esses pais estavam tão inquietos.
Uma delas falou sobre a preocupação com o vestibular e, como nesta escola não há ensino médio, não conseguiam saber se a escola era “forte” ou “fraca”. Outros se preocupam com as habilidades futuras das crianças em línguas estrangeiras. Um pai me lembrou que “inglês todo mundo já fala” e contou que foi visitar uma escola que ensina alemão para os pequenos.  Muitos questionam o sistema de ensino, construtivista. “É bom apenas quando eles são menores, depois eles ficam indomáveis, sem regras”, ouvi de uma mãe.
Foi por isso que decidi entrevistar o psicólogo e psicanalista Eduardo Sá, professor da Universidade de Coimbra, Portugal. Fazendo minha ronda diária em portais jornalísticos do mundo, vi que ele estava lançando o livro: “Hoje não vou à escola – Por que os bons alunos não tiram sempre boas notas?”, que já está em negociação para ser publicado também no Brasil. Sá lança a pergunta no texto de divulgação: “Por que é que a escola dá tanto às crianças, mas não necessariamente o que mais precisam?”. Ele defende com unhas e dentes uma escola que dê importância à educação musical e à educação física na mesma medida em que valoriza o ensino da matemática e do português. É contra a lição de casa, a favor do brincar e de passar mais tempo com a família. Eduardo Sá afirma que saber acolher o fracasso dos nossos filhos é de vital importância e decreta: “Escola demais faz mal às crianças”.
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Rita Lisauskas – 07.10.2014
Eduardo Sá - Psicólogo e psicanalista, professor da Universidade de Coimbra.
IN Blog Ser mãe é padecer na internet.



terça-feira, 28 de março de 2017

Terceirização é retrocesso e aprofunda injustiça social, alertam especialistas


Para professores do Instituto de Economia [da Unicamp], flexibilização da legislação decreta o fim de garantias trabalhistas.


Manuel Alves Filho

Caso seja aprovado da forma como está proposto, o Projeto de Lei 4.302 (1998), que permite a terceirização em todas as atividades das empresas, representará um grande retrocesso em relação às garantias trabalhistas e se constituirá em medida de injustiça social. As opiniões são dos professores do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, José Dari Krein e Claudio Salvadori Dedecca, respectivamente. A matéria seria incluída na pauta de votação do Legislativo na tarde desta terça-feira (21). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nos últimos dias que o governo dispunha de maioria para aprovar o PL.

De acordo com Krein, ao propor a ampliação da flexibilização da legislação trabalhista, o projeto atende principalmente aos interesses do mercado financeiro. “Pesquisas que analisaram as experiências levadas a cabo por diversos países demonstram que esse mecanismo não gera emprego, como argumentam os defensores da medida. O emprego depende de outros fatores, relacionados à dinâmica da economia”, afirma o docente.

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Manuel Alves Filho – 22.03.2017.

IN Jornal da Unicamp.






A lei da terceirização é boa? Depende se você é patrão ou funcionário


Especialistas afirmam que empresários economizarão às custas do salário do trabalhador.


Gil Alessi

lei da terceirização é boa? A resposta para essa pergunta depende muito da posição no mercado que você ocupa. Ela terá consequências diversas para patrões e trabalhadores, e atingirá de forma diferente o setor público e o privado. De acordo com o texto aprovado na Câmara na noite desta quarta, empresas particulares podem terceirizar todas as atividades, tanto as atividades-meio (que são aquelas que não são inerentes ao objetivo principal da companhia), quanto as atividades-fim, que dizem respeito à sua linha de atuação.

A advogada trabalhista e professora da PUC-SP Fabíola Marques afirma que a nova lei da terceirização só é boa para o patrão, “que vai terceirizar sempre que isso lhe trouxer uma redução de custos". De acordo com ela, a medida trará economia na folha de pagamento e nos encargos trabalhistas das empresas. Mas uma consequência direta dessa economia é “a redução do valor pago ao empregado terceirizado, que terá sua situação precarizada”. Ou seja, se o empresário gasta menos ao terceirizar, o valor pago à companhia contratada – que conta com sua própria hierarquia e também busca o lucro – será menor, e o salário que essa empresa paga a seus funcionários será mais baixo do que o recebido antes.

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Para continuar a leitura, acesse http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/23/politica/1429813406_631060.html

 

 




 

Gil Alessi – 23.04.2015.

IN El País Brasil.



sábado, 25 de março de 2017

Algo de podre no reino da Agroindústria


Na agropecuária, o Brasil escolheu o oposto disso: muito agrotóxico, pouca educação, muita concentração de terra, pouca inovação, muita devastação ambiental, pouca colaboração, muito juro, pouca infraestrutura, muita eficiência, pouco futuro. Nosso sistema nacional de produção de alimentos é decidido nas planilhas de cálculo de corporações como Friboi, JBS e Ambev, que vão sempre decidir pelo custo menor e receita maior, independentemente de qualquer efeito colateral na saúde pública. É um modelo frágil, como vimos na semana passada. 


Denis R. Burgierman 
Minha maior surpresa com o escândalo da carne, na semana passada, foi a surpresa de tanta gente. Sério mesmo que o pessoal não esperava que a indústria mascarasse o cheiro e o gosto da carne vencida, para economizar na matéria-prima e não perder receita das vendas? Cara, desculpa se sou eu a lhe abrir isso, mas é assim mesmo que as coisas têm funcionado.  Especialmente no Brasil. 
O país é uma megapotência agropecuária. Somos os maiores exportadores do mundo de frango, soja, suco de laranja, açúcar, café, suco de frutas, estamos no rumo para nos tornarmos na próxima década os maiores produtores do mundo de todo o setor. Orgulho. Vai, Brasil. 
Mas é engraçado que esse meu orgulho pátrio nem sempre encontra eco nas reações dos amigos que faço pelo mundo. Este mês entrevistei uma sul-africana aqui em São Paulo – almoçamos juntos. Ela ficou aliviada quando viu que o cardápio do evento era massa. “Comemos muito frango brasileiro na África do Sul. Tenho que confessar que eu odeio.” Tenho uma amiga colombiana que sempre que me encontrava fazia questão de me relembrar que o café brasileiro de má qualidade e preço baixo que inundou o mercado internacional quebrou um monte de fazendeiros que faziam cafés incríveis nas montanhas da região onde ela nasceu, nos Andes. 
Engraçado também que uma potência agropecuária, responsável por uma porcentagem considerável de toda a produção mundial de alimentos, abençoada com uma quantidade surreal de recursos naturais, coma tão mal. Em nenhum outro lugar do planeta usa-se tantos agrotóxicos quanto aqui, com consequências imprevisíveis, a longuíssimo prazo. 
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Para continuar a leitura, acesse https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2017/Algo-de-podre-no-reino-da-agroind%C3%BAstria?utm_campaign=a_nexo_2017324&utm_medium=email&utm_source=RD+Station  

 





Denis R. Burgierman – Jornalista – 23.03.2017.
IN Nexo Jornal.